No alto de página
interna, uma de nossas folhas informou coisa fantástica. Pré-título
da notícia: "Aviação - Em decisão de
2ª instância, ainda sujeita a recurso, empresa terá
de pagar R$ 400 mil devido a acidente com Fokker que matou 99." Abaixo,
o título em tipos gordos nas oito colunas: "Justiça
manda TAM indenizar ex-mulher."
Tal título
por certo causou surpresa aos leitores. Estupefação, até.
Quer dizer que Justiça manda indenizar ex-mulher? A Justiça
faz coisas esquisitas, não? O que seria uma ex-mulher? Uma tartaruga
gigante? Um abantesma? Uma eleitora do Maluf?
Eis aí um título
atraente, como devem ser todos os títulos. O leitor precisa ser
fisgado pelo título para ir ao texto ávido de curiosidade.
Vai-se, portanto, ao texto, já sabendo que se tratava do mais grave
acidente com um Fokker da TAM.
"Por decisão
de ontem da 2ª Câmara do 1º Tribunal de Alçada
Civil de São Paulo, a TAM será obrigada a pagar indenização
para Maria Aparecida Locatelli, 61, ex! -mulher de Eduardo Gasparian,
uma das 99 vítimas fatais do Fokker-100 da TAM que caiu, em 31
de outubro de 1996, nas proximidades do aeroporto de Congonhas (zona sul
de São Paulo)."
Decifra-se então
com certo alívio o mistério em longo período recheado
de dados. Não se tratava de ex-mulher, mas de mulher sempre, embora
ex-mulher de uma vítima, que o jornal chama de "vítima
fatal".
De passagem, vítima
fatal é outra pequena tolice, expressão viciada que repórteres
e redatores distraídos costumam usar em jornais e noticiários
de rádio e TV. Basta lembrar que a vítima jamais é
fatal; ela é paciente de algo fatal: uma canelada, um tiro, uma
facada, um desastre aéreo - esses, sim, fatais produtores de vítimas
agora e eternamente.
Ainda de passagem,
o "devido a" do pré-título é outra expressão
imprópria, que não fica bem usar como conjunção
causal. No mínimo, por ser deselegante. Por que "devido a
acidente"? Por que não o simples "por causa do acidente"?
Ou "em conseqüênci! a do acidente"? Ou apenas "pelo
acidente"?
Não faz mal.
Menos mal é verificar que a notícia não tratava de
ex-mulher, caipora, iara, também conhecida como mãe-d'água,
ou coisa de outro mundo. Não nesse caso triste. Coisa-ruim existe
sim, mas alguns deles foram expelidos da vida pública nas últimas
eleições. Não todos. Sobraram vários. Joaquim
Roriz, o de Brasília, e o grande Jader Barbalho são exemplos
de resistência. Esses e outros diversos continuam em ação.
E que ação.
O bom do caso da "ex-mulher"
é descobrir que o redator do título não quis ser
comum, vulgar, por isso preferiu criar algo diferente, inusitado. Ele
poderia ter ficado num medíocre "Justiça manda TAM
indenizar viúva", mas e a graça, e o charme surpreendente
de sua obra? Claro que "Justiça manda TAM indenizar ex-mulher"
está carregado de assombro. Para que mais? Beleza.
Corpo e alma
O anúncio de
uma poltrona ortopédica, publicado numa revista, descrevia algumas
de suas qualida! des: "Massageia a coluna e a parte glútea
do corpo". Não é ótimo que a criativa poltrona
ortopédica massageie a parte glútea do corpo? E a parte
glútea da alma? Fica sem massagem?
Região glútea,
já se sabe, é conhecida popularmente por bunda, palavra
de origem africana incorporada com alegria ao português do Brasil.
Mas o que importa é o texto do anúncio: "parte glútea
do corpo". Onde mais poderia ser a parte glútea de uma pessoa,
se não no corpo? Imagine se a região glútea da Feiticeira,
da Tiazinha, da Sheila e de outras moçoilas bem-dotadas fosse na
alma? O rebolado provocante só teria sentido no mundo dos espíritos.
Uma pena para quem gosta e ainda mora neste insensato mundo.