Exercício
da docência precisa continuar envolto
em amorosidade e cheio de paixão
Nós, professores,
temos um grande vício: somos apaixonados e todo apaixonado é
meio insano, faz alguma coisa que nem sempre devia, se dedica mais do
que pode, às vezes esquece de si mesmo. Ou então não
se lembra de que nós exercemos uma profissão, que precisamos
receber nosso salário de forma adequada, que nós temos de
lutar na estrutura sindical e organizar nossas reivindicações
no público e no privado. Às vezes, até disso a gente
esquece. Não deveria, mas esquece, porque somos apaixonados.
Todo professor íntegro
leciona por paixão. Paixão pelo quê? Por ganhar pouco,
correr o dia inteiro, ficar para lá e para cá? Não,
claro que não. Temos paixão por aquela idéia de que
gente foi feita para ser feliz. Como diria Shakespeare, "paixão
é uma coisa cheia de som e fúria". Nós somos
furiosos, brigamos muito.
Imagine uma reunião
de professores, no final do ano. Um colega quase pula no pescoço
do outro por causa de um aluno. Nós fazemos barulho e somos tão
ruidosos por! que somos apaixonados. Aliás, professor adora se
encontrar, adora reunião - se for paga, então, a gente gosta
mais ainda. Reunião de professor dura, mais ou menos, uma hora
e meia, sempre dividida da seguinte maneira: na primeira meia hora a gente
fica às vezes falando mal de quem não veio, dizendo "nós
estamos aqui, é um absurdo"; na segunda meia hora a gente
fica falando bem de quem veio "mas nós viemos, nós
vamos levar isso à luta porque isso é importante";
e na terceira meia hora a gente fica tentando conseguir horário
para marcar outra reunião. E acontece tudo de novo.
Professor adora o
período de férias, quando os alunos desaparecem da escola.
Ele agüenta um dia, dois, de repente, começa a sentir falta.
A escola fica triste e em silêncio, não tem aquele barulho.
Tem professor que fica louco para as aulas começarem e, quando
elas começam, depois de uma semana, ele não agüenta
mais, quer que tudo pare. É mais ou menos como a mãe que
diz para os filhos: "Eu não agüento! vocês, eu
vou me matar, um dia eu vou sumir e vocês vão ver."
A gente também fala demais.
Mas temos uma coisa
inacreditável, que é uma amorosidade muito grande. Só
isso explica por que uma pessoa dá aula por 20, 30 anos, se aposenta
e depois volta a lecionar. Por que tem professor que não agüenta
ficar fora de uma sala de aula? Ora, não tem gente que é
louca por pizza? Então, também existe quem seja louco por
gente. Que em vez de cuidar só da própria vida, resolve
ajudar outras vidas também.
Essa característica
não é exclusiva dos professores, claro. Isso tem a ver com
a amorosidade que, por sua vez, tem a ver com amor, que é uma palavra
que anda meio ausente na educação e não deveria.
Quem ama não desiste. Quando a gente começa a desistir um
pouco da nossa atividade, dos nossos alunos, a gente começa a perder
um pouco o gosto; e se você está deixando de amar, aí
é melhor deixar, porque educação pressupõe
uma capacidade amorosa imensa, não é inesgotável,
porque nada é! , mas ela deve ser imensa. E, por ser amorosa, essa
atividade precisa de condições de trabalho, de estrutura
salarial, de organização pedagógica, de jornadas
adequadas - senão não é possível exercer essa
amorosidade de forma concreta. Vamos lembrar sempre: insistir, repartir
e não desistir.
Mario Sergio
Cortella - Professor de pós-graduação
em educação (Currículo) da PUC-SP.