Mova
articula governo, empresas e sociedade no combate ao analfabetismo
Eu não sabia nada", lembra Maria Mônica da Silva, de
28 anos. Nascida em Acopiana, no Ceará, ela foi para a escola aos
7 anos, prosseguiu até os 8, mas teve de parar. Quando se mudou
para Diadema, no ABC paulista, aos 17 anos, conhecia o alfabeto e sabia
apenas assinar o nome. No início do ano passado, a dona de casa
e então mãe de quatro filhos conheceu o Movimento de Alfabetização
de Adultos (Mova). "Aprendi a ler, escrever e também coisas
que eu nunca tinha visto", afirma Mônica, que hoje cursa a
5ª série do ensino fundamental supletivo, depois de três
meses no movimento.
Mônica é
um dos exemplos da bem-sucedida experiência do Mova ABC na educação
de jovens e adultos, uma articulação entre o poder público
e as entidades da sociedade civil, como sindicatos, igrejas, empresas,
centros comunitários e quem mais estiver disposto a contribuir
para a erradicação do analfabetismo.
Idealizado por Paulo
Freire, o programa foi desenvolvido pela primeira vez no final do mandato
da prefeita Luiza Erundina em São Paulo, quando o pedagogo era
secretário de Educação. Cancelado em 1992, com a
posse do novo prefeito, Paulo Maluf, o movimento "ressuscitou"
no ABC em 1995, resultado de uma parceria entre o sindicato dos metalúrgicos
da região e a prefeitura de Diadema, na gestão de José
de Filippi Jr. Em 1997, o acordo foi ampliado para Santo André,
São Bernardo do Campo, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires
e Rio Grande da Serra.
Mais do que estimular
o conhecimento da leitura e da escrita, o Mova possui como ideal formar
cidadãos. Em linhas gerais, funciona da seguinte maneira: a prefeitura
ou uma empresa patrocinadora entra com R$ 200 por turma, valor repartido
entre a bolsa-auxílio paga ao educador (em torno de R$ 150) e a
manutenção da sala de aula. O material didático-pedagógico
- papel, régua, apostilas etc. - é obtido por meio de doações.
Fábricas, igrejas, centros comunitários e residências
cedem o espaço para as aulas.
Seguindo o método
concebido por Paulo Freire, o movimento trabalha com educadores populares
- membros da comunidade, preferencialmente moradores do bairro, com ensino
médio completo e que demonstrem comprometimento. São pessoas
como Elza Assis Marinho, de 44 anos, que era auxiliar de escritório
antes de se tornar professora do Mova. "Nunca tinha imaginado trabalhar
na área de educação", recorda. Ela teve de passar
por um processo de seleção rigoroso e realizar um curso
preparatório antes de iniciar suas aulas, há quatro anos.
A capacitação ocorre sob a supervisão de coordenadores
pedagógicos. "O que me deu mais bagagem foram as reuniões
semanais de planejamento", ressalta. As aulas do Mova geralmente
acontecem à noite, de segunda a quinta-feira, com duração
de duas horas e meia a três horas. Às sextas-feiras, ocorrem
os encontros dos educadores com o coordenador local, um momento de troca
de experiências, acompanhamento das atividades e formatação
das aulas seguintes. Os supervisores e coordenadores também visitam
as classes toda semana.
"Não estudava
porque não tinha com quem deixar meus filhos. No Mova, eles iam
comigo e a professora conseguia que ficassem quietinhos, sem atrapalhar
a aula", recorda a ex-aluna Mônica. "A Elza foi a melhor
professora que já tive." Para a elogiada educadora, é
preciso ver a classe como uma família, um lugar onde todos têm
uma história e merecem respeito. "Eles chegam com medo de
não conseguir aprender. Cabe a mim mostrar que são capazes.
Deixo claro que não sou melhor do que ninguém e que estou
ali para aprender também."
Elza reflete um dos
princípios do Mova, de que a alfabetização é
um processo profundamente afetivo e social. Sua turma possui dezoito alunos,
de idades entre 17 e 60 anos, e diferentes níveis de aprendizagem.
Com base em um mesmo tema gerador, a educadora desenvolve atividades em
diversas disciplinas e contempla as necessidades de cada um. "O tema
agora é migração. Eles resgatam suas origens, tem
aluno que até chora em sala", diz Elza. A afirmação
encontra eco na ex-aluna Maria das Neves Borges da Hora, de 36 anos. "Resgatei
uma raiz da minha infância", conta ela, que atualmente cursa
a 5ª série do ensino fundamental. Maria considera Elza uma
verdadeira mãe.
"Atendemos 40
mil alunos desde 1995", afirma Luiz Soares da Cruz, assessor do Mova
ABC. Isso corresponde a cerca de 15% dos 278 mil analfabetos contabilizados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na
região em 1996, último dado disponível. "Existem
três princípios básicos para dar certo: vontade política,
empenho e organização dos movimentos populares, e apoio
da sociedade", pontua.
As empresas envolvidas
contribuem com dinheiro, material didático-pedagógico, eventos,
divulgação ou publicações. A Ford Brasil iniciou
o trabalho com o Mova em 2000 e acaba de assinar a renovação
do acordo para este ano. A montadora mantém financeiramente 150
salas no ABC, sendo três delas dentro de sua fábrica em São
Bernardo. Compromete-se ainda em divulgar a filosofia do movimento para
seus funcionários por meio de um plano de comunicação,
e identifica até mesmo empregados de empresas prestadoras de serviços
com necessidade de alfabetização.
A experiência
do Mova também vem sendo desenvolvida no Rio Grande do Sul, com
50.240 alunos atendidos desde 1999. Enquanto isso, o Instituto Paulo Freire
de São Paulo trabalha na reestruturação do Mova-SP
e prevê sua implementação no segundo semestre. O movimento
está ainda mapeando ações semelhantes no resto do
país para que participem de um encontro nacional, entre 26 e 28
de outubro, em Porto Alegre. O objetivo será pensar um Mova para
todo o Brasil.
Quando promulgada,
a Constituição de 1988 determinou a erradicação
do analfabetismo em dez anos. Apesar do atraso, iniciativas como essas
ajudam a acreditar que o sonho é plenamente realizável.