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Infância curta demais Jander Ramon Preocupada em garantir futuro profissional e social, família e escola podem sobrecarregar a agenda das crianças
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Poucas horas depois, Ueverton já está na sala de aula do Colégio Emilie de Villeneuve, na zona sul de São Paulo, onde assiste às orientações da professora Vanessa, até as 17h30. De lá, o menino vai para a aula de judô, dentro do próprio colégio, a ser concluída às 19h. A rotina se repete na quarta-feira. Às terças, a natação dá lugar para as aulas de teatro, das 11h às 12h, dentro do próprio colégio e, no fim do dia, a arte marcial é substituída pelo futebol, também no Villeneuve. Às sextas, uma mescla das atividades de segunda e terça: a natação abre o dia e o futebol fecha a noite. Cansou? Pois ele quer mais. Sem corpo mole, os fins de tarde das quintas-feiras são preenchidos ainda com a prática da capoeira e, na parte da manhã, como a agenda está aberta, o pequeno quer se dedicar a aulas de piano. "Aí já é um pouco demais", reluta a "avó adotiva", Dace Mauro. Com agendas de adultos, preenchidas de atividades físicas e intelectuais, algumas crianças correm o risco de sofrer dificuldades para administrar essa rotina e, com isso, deixar de viver em um mundo condizente com as suas faixas etárias. Diante da precocidade conseqüente da absorção de responsabilidades, o resultado final dessa sobrecarga pode ser um quadro de estresse, relatam os especialistas. Esse não é o caso do pequeno Ueverton. Mas Eduardo, 10 anos, foi vítima do sistema. Com uma carga diária que atingia mais de 12 horas de atividades, em sua maioria envolvendo ações intelectuais, o menino entrou em estresse. "Ele ficava sozinho, tenso, nervoso e irritadíssimo. Nada o agradava", lembra a secretária Maria José Lopes Fonseca, mãe de Eduardo, ao comentar os primeiros sintomas que levaram a família a consultar a psicóloga do colégio onde o garoto estudava. Agenda equilibrada - Depois de algumas consultas, Maria José chegou ao Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD), em São Paulo, uma clínica especializada no tratamento psicopedagógico de crianças e que orienta os pais na formação de uma agenda equilibrada para seus filhos. Na clínica, foi constatado que a sobrecarga de atividades estava piorando o quadro de dislexia (dificuldade de leitura) que o menino possuía e do qual os pais não tinham conhecimento. "Sua auto-estima estava em baixa e nós cobrávamos muito os resultados diante dos investimentos em estudos que nós realizávamos. O nosso maior erro era o de pressionar o nosso filho sem nos preocupar com os efeitos nocivos que isso provocava sobre ele", analisa Maria José. Após oito meses de tratamento no CAD e a troca de colégio, Eduardo já é outra criança. "Ele fica na escola das 7h30 às 17h, mas é uma criança muito mais calma. Hoje, faz aulas de teatro, culinária, artes e inglês e, no fim do dia, brinca com seus amigos, como toda criança quer e tem direito", comenta a mãe. Alguns poucos ajustes são o ponto de equilíbrio para que uma criança hiperativa fique longe de um quadro de estresse. "O Ueverton só faz o que tem vontade e não cobramos absolutamente nada, nenhum resultado. Apenas fazemos o acompanhamento escolar e deixamos que ele exerça suas preferências", esclarece a avó coruja. A receita da senhora de 56 anos, com a experiência de ter criado três filhos e, agora, o neto "de coração", aliada ao conhecimento adquirido, na prática, pela mãe de Eduardo são lições que devem ser aprendidas por vários pais para que possam diminuir a possibilidade de, no futuro, seus filhos sofrerem de estresse acima de níveis suportáveis. O estresse nasce de uma disfunção hormonal iniciada a partir de um conjunto de reações vinculadas a sentimentos como medo e alegria, que nos excita ou traz irritação. Essas sensações físicas e psicológicas são fruto de uma alteração química ocorrida dentro do nosso organismo. "O estresse pode ser uma resposta a determinados estímulos: dependendo da pessoa e da circunstância, ela pode lutar, fugir ou ficar paralisada", explica Ana Matilde Pacheco, doutora em psicologia social, do departamento de psicologia social e do trabalho, da Universidade de São Paulo. De acordo com Ana Matilde, muitos pais expõem seus filhos a situações estressantes sem perceber. "É o estímulo negativo. Se a mãe gostaria de aprender um idioma e acha importante que o filho o saiba, é preciso ver se a criança também está interessada porque, senão, isso pode gerar estresse. Temos de ver se o curso de idiomas será um lazer ou uma tortura", justifica. Ela alerta que a irascibilidade da criança está ligada ao estresse por ser resultado de estímulos desagradáveis além do que ela consegue suportar. A frustração dos pais passa a ser, portanto, um combustível extra para movimentar o crescimento do estresse infantil. "Cada criança tem uma forma de construir o seu ritmo de vida. Nós precisamos orientá-las e não obrigá-las a fazer aquilo que nós queremos", sugere Esdras Vasconcellos, diretor científico do Instituto Paulista de Estresse, Psicossomática e Psiconeuroimunologia. É o caso do pai que gostaria de ser um grande esportista, mas que, por um motivo qualquer, não o foi e, diante dessa frustração, não mede esforços para que seu filho se torne um novo Guga ou um Ronaldinho. "De repente o filho nem gosta de futebol, mas teme chatear o pai. Depois, por ter um fraco desempenho na prática esportiva, essa criança acaba se estressando", exemplifica Ana Matilde. Expectativa - Preocupados
em garantir o futuro profissional e social de seus filhos, muitos pais
efetuam uma escala de atividades físicas e intelectuais absolutamente
superiores às capacidades de absorção e execução
dos jovens, resultando, em um determinado momento, em frustração
dos pequenos e, automaticamente, em estresse. "Essa expectativa criada
pelos pais de que seus filhos vão obter os melhores resultados
em vida social, profissional e acadêmica resultam, quando a criança
não vai bem em alguma das atividades, em sentimento de fracasso
e instabilidade emocional", adverte Nívea Fabrício,
psicóloga, psicopedagoga e diretora dos colégios paulistanos
Graphein e Brasil-Canadá. O importante, segundo ela, é que
a criança tenha participação na definição
das atividades. Na visão da
psicóloga Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle
do Stress, especializado em tratamento infantil, uma agenda correta é
aquela que privilegia quatro itens: socialização, afetividade,
intelectualidade e condicionamento físico. "A criança
precisa passear e brincar com os colegas, tem de ter uma relação
carinhosa com os adultos que a cerca e necessita de uma escola que complemente
a atividade intelectual com a física", aponta. Conforme relatam médicos e psicólogos, sintomas psicológicos, como terror noturno, medo extremo, agressividade, impaciência, choro excessivo, ansiedade e dificuldades interpessoais, e outros físicos, como dor de barriga, diarréia, tique nervoso, dor de cabeça e náuseas, podem ser indicações de que a criança está estressada (leia quadro na pág. 44). Marilda também comenta que fatores como baixa auto-estima e o desejo de agradar a todos também são agentes estressores infantis: "É o que acontece com muitas crianças obesas." Em sua dissertação de mestrado, a psicóloga Márcia Bignotto, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, defendeu que crianças obesas têm maior tendência a apresentar estresse do que as magras. Em crianças, as principais conseqüências do estresse se dão em doenças físicas, como úlceras, asmas e distúrbios dermatológicos. "Os dermatologistas são grandes descobridores de crianças estressadas", comenta Marilda. Desajustes psicológicos, como comportamento agressivo, gagueira, medo exagerado e enurese (quando a criança urina na cama em uma idade superior à aceitável) são outras conseqüências decorrentes do estresse infantil. A essas manifestações, somam-se as dificuldades escolares e de relacionamento. Em seu livro Como Enfrentar o Stress Infantil (Ícone, 98 págs., R$ 11), Marilda Lipp relata que um dos principais mitos em torno do estresse infantil é o de que crianças não possuem estresse. "Esse modo de pensar piora o problema em muitas crianças, pois, quando pais ou profissionais negam que a criança possa ter estresse, negam também o tratamento adequado", critica. "A primeira reação de alguns pais ao detectar esses sintomas é a de levar a criança a um pediatra. Muitos médicos não solicitam avaliação psicológica e receitam um calmante para a criança. Nessas circunstâncias, o remédio mascara o estresse e a criança permanece com o problema por um longo período", revela. A situação econômica da família também influencia, com um agravante: há outro mito, o de que apenas criança rica sofre estresse. "A criança de classe social baixa pode ter estresse porque não usa uma roupa bonita e limpa, não vive em uma casa decente e não come bem", exemplifica Marilda. Fatos como a separação de um casal também podem agravar o problema. Porém, nada supera o trauma da morte dos pais. O Brasil não possui estudos aprofundados sobre o estresse infantil. Atualmente, o Centro Psicológico de Controle do Stress efetua uma pesquisa em 400 escolas da Grande São Paulo para tentar identificar a incidência do problema sobre as crianças. "Na clínica, do total de atendimentos, apenas 10% são crianças", informa a psicóloga, em uma referência à dificuldade de os pais detectarem o problema. Desse universo, Marilda diz que, de forma empírica, as meninas são a maioria a passar por consultas. "Percebemos que a relação das meninas com o estresse tem muito a ver com a nossa sociedade machista. O sexo feminino sofre mais exigências: a menina tem sempre de estar arrumadinha, limpinha, com o caderno impecável e a caligrafia perfeita, enquanto os meninos não sofrem essas cobranças", declara. Segundo Sílvia Amaral, cada criança tem um tratamento específico, ou uma combinação, para controlar um estágio avançado de estresse. "Usamos técnicas como a ludoterapia (com brinquedos), arte-terapia (artes plásticas e cênicas) e até mesmo um computador, que é um bom instrumento no combate ao estresse infantil", sustenta. Para os pais que pensam que o problema será resolvido só na base do tratamento entre consultores e consultados, aí vem o chumbo grosso. Sílvia e Marilda reforçam a importância da aplicação de questionários aos pais para averiguar o ambiente familiar e o grau de estresse dos progenitores. "Para ajudar a criança, temos de saber quanto o pai e a mãe estão estressados", garante Marilda. Só isso? "Os pais têm de passar por uma sessão de avaliação, para que o problema deles seja resolvido simultaneamente ao do filho e para que os pais acompanhem o desenvolvimento dessa criança de perto", complementa Sílvia. A psicóloga
Marilda relata que, com sessões semanais de uma hora, o problema
do estresse infantil pode ser sanado em seis meses. "Treinamos as
crianças a enfrentar as dificuldades e a ter habilidade para lidar
com os problemas", esclarece. "No futuro, é muito difícil
que essa criança venha a ser um adulto estressado", afirma.
Quanto
mais, pior Talvez os pais não saibam, mas seus filhos podem estar à beira de um ataque de nervos por causa do colégio onde estudam. Não é terrorismo, não. Profissionais da área de psicologia são unânimes em apontar a falta de adaptação dos alunos aos métodos de ensino dos colégios como um dos principais fatores para o ingresso de uma criança em um quadro de estresse. "Muitos colégios são excelentes, mas o aluno não consegue se adaptar e, diante das cobranças por causa de um mau desempenho, fica estressado", afirma Nívea Fabrício, do Colégio Graphein - que trabalha especificamente com alunos que tiveram problemas de adequação. Na clínica Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento (CAD), Sílvia Amaral afirma receber crianças absolutamente estressadas e, em muitos casos, por terem dificuldade de relação com os colégios onde estudam. "Constatamos que a incidência de crianças estressadas por causa das escolas era grande, então decidimos realizar um trabalho de orientação aos pais para identificar o colégio mais adequado aos seus filhos", informa. Muitas vezes, o estresse desaparece apenas na troca de escola. "Vemos que alguns colégios são mais inclinados ao ensino de ciências exatas e, por preferência de pais, a criança com maior inclinação para o humanismo permanece matriculada. O estresse entra no caminho desse jovem de forma quase inevitável", analisa. Além dessa questão de métodos de ensino, a escola também pode provocar o estresse na criança por conta do próprio ambiente físico. "Isso pode ser notado de diferentes maneiras: sala de aula pequena e inadequada às atividades pedagógicas a serem desenvolvidas; pouca iluminação; material pedagógico inapropriado; banco ou carteiras desconfortáveis; excesso de ruídos", lista Marilda no seu livro Como Enfrentar o Stress Infantil. A psicóloga diz ser essencial para o tratamento das crianças a conversa com os professores. "A maioria é receptiva e nos ajuda no tratamento", diz. No entanto, vez ou outra se deparam com frases do tipo: "Isso é frescura desse menino!" ou "é pura desobediência". Marilda relata a existência de muitos casos em que o professor se torna fonte do estresse infantil. "Vale ressaltar que professores e pais são equiparados na geração de estresse. Em muitas ocasiões, um professor estressado transfere para a criança uma parte de seu estresse", informa. ]Todos os profissionais, sem exceção, apontam a escolha equivocada de um colégio (seja pelo método de ensino, seja pela distância entre casa e escola) como um dos principais estímulos ao nascimento do estresse infantil. "Chegamos a ponto de orientar os pais para aproveitarem o trânsito para realizar atividades com seus filhos, como brincadeiras estimulantes, jogos de adivinhação, ou mesmo conversar com os pequenos", comenta Sílvia. A insistência dos pais em levar seus filhos ao colégio, além da comodidade propiciada, também pode ser uma manifestação de superproteção paterna. "A gente percebe que algumas mães enfrentam trânsito para deixar seus filhos na porta da escola e, mesmo quando a criança já tem 12 anos, insistem em levá-la. Ou seja, as crianças não sabem o que é fazer o trajeto sozinhas ou com transporte público e, um dia, quando o fizerem, vão se irritar, porque nunca foram treinadas para isso", cita Ana Matilde. A psicóloga Marilda Lipp aponta um momento anterior em que os jovens devem enfrentar períodos de estresse. "Na 5ª série, quando a criança está com 11 anos, pode se tornar estressada por ter medo de ser rejeitada nas brincadeiras ou pela preocupação quanto à sua sexualidade e aparência física", relata. Outra razão para a expansão do estresse em jovens durante a 5ª série está ligada ao fato de ser a primeira experiência com uma multiplicidade de professores, em um ambiente diferente do verificado durante o ensino fundamental, com um único professor. Verdades... Fatores psicológicos o Terror noturno Fatores físicos o Dor de barriga ...e mentiras sobre estresse infantil o Criança não
tem estresse;
Mantenha
a calma Há quem diga que dar aulas é menos estressante do que ser médico, jornalista, policial ou criança. Esse preconceito talvez se construa pelo entendimento de que a atividade docente é rotineira, desprovida de grandes emoções e cujo único esforço envolvido seja de ordem intelectual. Não fique nervoso, mas, se você é professor da rede pública, pelo menos dois entre quatro colegas - sem contar você - apresentam sinais diagnosticáveis de desgaste. Pior, nos próximos dez anos, um deles estará aposentado com problemas de saúde. Se você trabalha na rede particular, o quadro é bem melhor, mas não a ponto de poder relaxar. Esse quadro preocupante é apontado em pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Entre 1996 e 1998, a entidade entrevistou 52 mil professores de todos os Estados. É uma amostragem expressiva e inquestionável. A maior pesquisa realizada anteriormente envolveu, nos Estados Unidos, 14.500 professores, e o último censo do MEC, 6.900. Carlos Augusto Abicalil, presidente da confederação, ressalta que 50% dos entrevistados apresentavam a chamada síndrome de burnout, considerada mais grave do que os sintomas do estresse (veja quadro ao lado). Abicalil revelou, ainda - dado a ser publicado futuramente -, que metade dos professores com a síndrome estará aposentada e doente em aproximadamente dez anos. Essa perspectiva não está distante de Lourdes Maria Rangel, professora das redes pública e estadual no município de São José dos Campos (SP). Ela ensina adolescentes de 5ª a 7ª séries, dando mais ou menos dez horas de aulas por dia, sem contar os trabalhos extraclasse. Gastrite, ausência de lazer em sua vida e cansaço são algumas das marcas deixadas pela profissão - escolhida como um ideal para ela. "Não é falta de opção", diz. Mas o problema não se restringe às fronteiras nacionais. Na Inglaterra, por exemplo, foi criada em 1996 uma linha de atendimento 24 horas a professores - do tipo apoio psicológico -, serviço antes disponível apenas a médicos e policiais bretões. Isso demonstra haver um desgaste relacionado mais às características da profissão do que aos problemas brasileiros na área, mesmo num país onde a taxa de alfabetização ultrapassa os 98%, como é o caso da Inglaterra. A precariedade de nosso sistema de ensino funciona como agravante para a saúde do professor. Entre 50% e 60% das cerca de 1.500 escolas pesquisadas apresentaram problemas relacionados à violência dentro das salas de aula. As condições precárias em que os alunos vivem, reflexo da péssima distribuição de renda no país, acabam refletidas na angústia e autocobrança que perseguem os professores. Lourdes, não por acaso, ainda se aflige quando lembra do caso de um estudante seu de 15 anos que foi parar nas páginas policiais, preso por assassinato. Ela se lembra do menino, filho de traficante, reclamando da vida pelos corredores. "O que fizemos por ele?", indaga Lourdes, assumindo uma parcela de responsabilidade da qual grande parte da sociedade se esquiva. É sintomático que a variação do índice de desgaste dos professores acompanhe o nível de participação, direta ou indireta, da comunidade na escola. A maior incidência de atos violentos está nos colégios em que a população se mantém distante da vida educacional - ainda segundo a pesquisa da CNTE. Os índices de burnout por tempo de trabalho são menores nos lugares em que a comunidade está mais envolvida: o professor se sente reconhecido em seu ofício e tende a ter menos motivos para frustrações. Para a psicóloga Denise Dinix Maia, o professor da rede pública está sujeito a um nível de desgaste emocional muito maior do que o da rede privada. "O professor da rede particular chega à escola com seu próprio carro. Quando sai, tem tempo para uma vida afetiva, amigos, relacionamentos. E, se precisar, tem condições de procurar terapia, o que é muito raro entre os professores de escolas públicas." De fato, o Sistema Único de Saúde (SUS) é o único apoio com o qual poderão contar os aproximadamente 13 mil professores, segundo a projeção da CNTE, que ficarão doentes na próxima década. A pedagoga Ana Júlia
Fagá de Almeida, que exerceu os cargos de professora, coordenadora
e diretora de ensino nas redes pública e privada, realiza atualmente
um trabalho de formação de professores em municípios
paulistas, cuja verba é destinada pelo MEC. Ela aponta a implantação
do método de progressão continuada como uma das razões
mais comuns de reclamações dos docentes com quem trabalha.
Para ela, os professores ainda não compreendem a teoria suficientemente,
confundindo o método com promoção automática
- aluno promovido a despeito do que aprende -, o que causa um sentimento
de impotência diante dos desafios de ensinar e perda da auto-estima. Não é por falta de leis que a sobrecarga de trabalho faz parte da vida de milhares de professores. O Artigo 67 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) prevê a inclusão de um período reservado a estudos, planejamento e avaliação do piso salarial. O Conselho Nacional de Educação (CNE) estabelece carga horária de 40 horas semanais, sendo parte dessa jornada, entre 20% e 25%, de trabalho pedagógico ou extraclasse. No entanto, apenas Acre, Rondônia, Pernambuco, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná - 8 dos 26 Estados da Federação - aplicam a lei. Como se não bastasse, o Artigo 37 da Constituição viabiliza a possibilidade de o professor ter vários empregos, o que banaliza os vínculos empregatícios e contribui para despersonalizar o trabalhador perante a instituição - uma das causas da burnout. Um dado positivo na pesquisa da CNTE refere-se aos níveis de satisfação e comprometimento dos professores, mesmo nas escolas com infra-estrutura precária. Assim como Lourdes, 80% dos docentes deste país encaram os problemas da profissão, estufam o peito e dizem: "Gosto do que faço".
A síndrome, detectada por cientistas norte-americanos na década dos 70, tem características que a diferenciam do estresse diário. Burn out significa algo como "queima" ou "perda de energia". Na área educacional, o convívio direto e intenso com grande número de alunos gera um desgaste que se manifesta de três maneiras: o Exaustão emocional, quando o professor sente o esgotamento de seu poder afetivo entre os alunos ou se sente desprovido de recursos emocionais. o Despersonalização da figura do educador perante os receptores de seu trabalho, manifestada em brincadeiras ou observações cínicas que escondem o endurecimento e a banalização da relação. o Falta de realização pessoal no trabalho, ou uma tendência de evolução negativa na profissão, pela perda de motivação para resolver problemas ligados tanto aos alunos quanto à instituição. A literatura internacional sobre a síndrome indica como causas "carga de trabalho, sentimento de pouca ou má qualificação, falta de controle sobre as tarefas, conflitos e ambigüidades na profissão, problemas administrativos ou de gestão e relacionamento interpessoal com colegas e chefias". Não há tratamento, a não ser atacar as causas do problema.
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