Escolas
economizam eletricidade e passam lição de casa sobre risco
de colapso energético
A crise energética que faz o Brasil retornar aos níveis
de consumo dos anos 50 e gera inúmeros transtornos para a população
serve de conteúdo educativo nas escolas. A idéia é
aproveitar o problema - que não tem data em curto prazo para ser
resolvido - e transformá-lo em matéria de reflexão
em classe. Esse tipo de abordagem de temas da atualidade e do contexto
da comunidade já faz parte da maioria dos projetos pedagógicos
de instituições de ensino que seguem a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação (LDB). E eletricidade é o assunto
do momento. Entrou em todos os lares, fábricas, escritórios
e escolas. Para dar o exemplo, os colégios procuram se enquadrar
dentro das cotas de economia eliminando todo o consumo supérfluo
que não comprometa as atividades educativas.
O mais comum é
apagar parte das luzes dos corredores. Escolas cujo projeto arquitetônico
privilegia a iluminação natural conseguem até eliminar
a energia dentro das salas de aula, como o Colégio Móbile,
em São Paulo. "Nosso prédio foi construído especialmente
para abrigar a escola e possui amplas janelas", comemora a coordenadora
Eliana Braga. O projeto do Móbile foi premiado na 3ª Bienal
Internacional de Arquitetura. "Quando começou a discussão
da economia de eletricidade na mídia, reunimos toda a escola -
professores, alunos e funcionários administrativos - para uma grande
mobilização", continua. "Definimos ações
e responsabilidades, como desligar as luzes e os ventiladores da sala
de aula logo depois de terem sido usados. Quadras esportivas são
mantidas com a iluminação desligada durante o dia. E um
dos dois elevadores - o prédio do Móbile possui seis andares
- é desligado três vezes por semana em horários de
menor movimento. Até a tradicional festa junina da escola, que
era realizada à noite, foi transferida para um sábado à
tarde."
No Colégio
Magno, a conscientização de professores e alunos também
foi a principal medida. As providências práticas incluíram
a instalação de novas lâmpadas econômicas e
mudanças no sistema de aquecimento. "O importante é
garantir a qualidade do atendimento. Nenhuma das medidas de economia deve
trazer prejuízo ao serviço prestado pela escola", pondera
Cláudia Tricate, diretora de ensino fundamental do colégio.
Economia - Algum conforto
acabou sendo cortado. Na escola Casinha Pequenina, unidade de educação
infantil do Colégio Friburgo, o revigorante banho após a
piscina agora acontece na casa do aluno. "Tivemos de cortar o chuveiro
elétrico no vestiário", lamenta a diretora Maria Beatriz
Teles, "mas os pais compreenderam a medida e cooperaram". O
aquecimento da piscina, entretanto, foi preservado. "As aulas de
natação acontecem o ano inteiro e seria incabível
obrigar os alunos a entrar na água fria em pleno início
do inverno", diz. A escola também procura realizar atividades
ao ar livre, sempre que possível, já que funciona numa ampla
área verde.
A substituição
de lâmpadas incandescentes pelas frias proporciona economia na conta
de luz no fim do mês, mas exige um investimento alto. O Colégio
Augusto Laranja gastou R$ 150 mil em iluminação de última
geração e sensores. As luzes das quadras de esporte foram
totalmente substituídas por lâmpadas fluorescentes da série
80 - mais eficientes e capacitadas para economizar cerca de 30% em relação
às tradicionais.
O resultado dessa iniciativa foi uma redução de 20% no consumo
de energia. Divulgado o impasse energético, o diretor-administrativo
do Augusto Laranja, Eurico Gomes, partiu para um plano de contenção,
usando todos os recursos possíveis em cortes: desligamento de luminárias
nas áreas de circulação, redução parcial
de lâmpadas em algumas salas de aula durante o dia, além
de uma redução de 100% nas luzes de fachada. A iluminação
externa, na hora da saída, caiu para 30% e as dos totens e logomarca
para 50%. O uso das quadras foi reduzido no horário noturno em
30%. Medidas como travamento dos chuveiros no verão e desligamento
de aquecedores e ar-condicionado já haviam sido tomadas. Bilhetes
espalhados pela escola e informativos para pais e funcionários
fazem parte da campanha que o Augusto Laranja lançou para tentar
alcançar as metas estabelecidas pelo governo.
"Em alta-tensão,
nós já havíamos chegado a 35% de redução
de energia; passamos de um consumo de 148 kWh, dois anos atrás,
para 95 kWh. Se a distribuidora de energia levar em conta o trimestre
junho, julho e agosto, fica difícil, pois julho é um mês
de férias em que a redução média é
de 38%", explica Gomes. Na média dos três meses, a redução
é de 50%. "O mais caótico é a possibilidade
de que, justamente uma escola que já apostava na conscientização
sobre o problema da energia muito antes de o impasse ser criado, que efetiva
e comprovadamente investiu na redução do consumo, seja ainda
mais severamente punida com as novas medidas", critica.
Segundo Dom Geraldo
Gonzalez y Lima, vice-reitor do Colégio Santo Américo, "além
de medidas que visam economia, é fundamental envolver as pessoas
no processo". O colégio já desligou o aquecimento da
piscina, dos bebedouros, dos ares-condicionados e do painel luminoso;
reduziu o número de lâmpadas, o uso de máquinas de
lavar, secadoras e ferros de passar, e o tempo de filtragem das piscinas;
e diminuiu a vazão das torneiras. Não estão permitidas
atividades nos ginásios de esportes e quadras externas com iluminação
depois das 18h30.
Aprendizado - Como
diz o ideograma chinês da palavra crise, que significa também
oportunidade, as escolas aproveitam para tirar lições do
racionamento. Melhor: a crise serve como reflexão e exemplo prático
da escassez de recursos naturais. O Colégio Emilie de Villeneuve
engajou-se no projeto Futurágua, em parceria com a Sabesp, no qual
técnicos da estatal promovem palestras educativas na escola e os
alunos visitam as instalações da companhia. Os professores
aproveitam para realizar um projeto semelhante na área de energia
elétrica. O Emilie Villeneuve ainda se valeu do projeto Aprendizado
Solidário, realizado na Favela da Correia (zona sul de São
Paulo). Lá, os alunos fazem um trabalho assistencial com adolescentes,
jovens e mães, e passam noções de como economizar
energia em casa.
O Colégio Renovação,
de Santos (SP), criou atividades lúdicas para fixar o conceito
de economia. Alunos do ensino fundamental participaram de uma peça
de teatro em que cada criança representou um eletrodoméstico
que "falava" a respeito do consumo de energia e sugeria dicas
de economia. Também criaram maquetes de uma usina eólica
(movida pelo vento) dentro das atividades da feira de ciências.
Energia elétrica
já é um tema que fazia parte do currículo da 8ª
série da Escola Móbile, mas, desde maio, o assunto chegou
a todas as séries. Os alunos analisam as contas de luz da própria
casa nas aulas de matemática, buscam informações
na mídia para as aulas de português, traduzem as dicas de
energia para o inglês e discutem o problema com seus pais. Até
uma prova sobre o tema já foi dada, envolvendo a análise
dos gastos de energia de uma casa por meio de duas matérias de
jornal.
Há escolas
que vão além das dicas do bom cidadão. No Magno,
os professores procuram discutir as causas da crise energética
e incentivam os alunos a fazer um levantamento de hipóteses para
investigações. Ao menos nas escolas, não há
gente às cegas.