Das
trevas faz-se a luz. Com uma certa dose de ironia, a imagem bíblica
da criação ilumina a capacidade exemplar de os brasileiros,
mais uma vez em sua história, se mostrarem superiores à
elite que desgoverna o país. O colapso energético - sabemos
agora, anunciado há anos - finalmente se instalou no cotidiano
de cada cidadão. Tudo à sombra de um discurso oficial que
tenta esconder sua incompetência transferindo para a população
a responsabilidade de administrar a crise. Mas, em um tom contido de raiva
e auto-estima, a sociedade deu seu recado aos poderosos: o Brasil não
admite cair na escuridão. Da iminência de um apagão
surge um movimento exemplar de civismo. Brilhante.
Resta saber, depois
de mais esse espetáculo de cidadania, quando as luzes da dignidade
forem novamente acesas, que verdade será irradiada desse evento.
Diógenes andava pelo mundo segurando uma lanterna à procura
de um homem sábio. Não consta que o tenha encontrado, na
Grécia Antiga. O iluminismo fez a pregação do progresso
e da razão. Não consta que tenha logrado êxito no
Ocidente do século XVIII. Talvez, no limiar de um milênio
que se anuncia radiante, conste que só das penumbras surja a claridade.
A metáfora é a mesma. A interpretação pode
mudar. Nenhuma noite é eterna. O dia chegará.