Professor inglês
de história da ciência apresenta as múltiplas faces
de Isaac Newton - nem bruxo, nem cartesiano
O pai da ciência
moderna, Isaac Newton, tinha um pé no racionalismo e outro no misticismo
e deixou um legado revolucionário no campo da astronomia, da física
e da matemática. Seus trabalhos conduziram à moderna física
óptica e à formulação das três leis
do movimento que geraram a lei da gravitação universal e
lançaram os fundamentos do cálculo infinitesimal. Pelo menos
é isso que está nos livros escolares.
E não é
pouca coisa. O princípio da gravitação universal,
por exemplo, que explica toda a mecânica celeste e a dança
dos planetas em torno do Sol, colocou abaixo o pensamento filosófico
vigente até o século XVII, eliminando a dependência
da ação divina. Tal ousadia já valeria uma investigação
do poder inquisitorial da Igreja, mas Newton não foi queimado na
fogueira. Isso porque poucos sabiam que ele era uma figura muito mais
ousada: também pesquisava metodicamente a alquimia e a astrologia.
Essa face oculta de
Isaac Newton colocou lenha no fogo das discussões revisionistas
dos dias atuais como pode ser conferido no best seller Isaac Newton, O
Último Feiticeiro, do jornalista Michael White (Record, 378 págs.,
R$ 42). Entretanto, o professor inglês e também ex-jornalista
Piyo Rattansi, do University College de Londres e uma das maiores
autoridades mundiais no estudo sobre as origens da ciência moderna,
é mais cauteloso: ³Newton não pode ser reduzido a um
único rótulo². Rattansi esteve no Brasil a convite
do programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência
da PUC-SP, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp), e concedeu a seguinte entrevista
à revista Educação.
Educação
Afinal, Newton era bruxo ou não?
Piyo Rattansi Não é bem por aí.
Isaac Newton, de fato, transitou pelas ditas ciências ocultas, mas
com objetivos bem pragmáticos e com instrumental digno de um pesquisador
sério. Suas investidas pela alquimia levaram a importantes descobertas
para a química moderna. E os estudos da astrologia auxiliaram a
enxergar o universo de forma mais aberta, culminando em conclusões
importantes para a astronomia.
Educação
Mas não é isso que se estuda na biografia de Newton
na escola.
Rattansi Os cientistas, pesquisadores e professores, até
há pouco tempo, preferiam ignorar ou esconder deliberadamente o
que um colega meu francês encarava como uma pornografia de Newton.
Educação
Quando o senhor começou a se interessar por esse outro lado
de Newton?
Rattansi É uma história interessante. Sou economista
de formação e, quando lecionava na Universidade de Leeds,
um colega apresentou-me alguns manuscritos de Newton que tinham conteúdos
de alquimia. Fiquei bastante intrigado. Eu já era um estudioso
de história da ciência. Na seqüência tive acesso
a documentos de Isaac Newton no Queens College, em Cambridge. Trata-se
de um lote de manuscritos que foi comprado pelo famoso economista Keynes
em um leilão em 1936 e depois doado para o Queens. Estudei o material
durante um tempo e em 1966 publiquei o artigo Newton e a flauta de Pan.
Foi a primeira tentativa formal de integrar o Newton cientista ao Newton
alquimista e estudioso da religião.
Educação
Qual a reação da comunidade científica na época
a respeito do seu artigo?
Rattansi As pessoas estavam familiarizadas com Newton como
o fundador da ciência moderna e tinham dúvidas sobre o porquê
de ele ter perdido tanto tempo lendo manuscritos alquímicos e profecias
bíblicas.
Educação
Por que esse preconceito em separar o cientista do alquimista?
Rattansi Em parte, herdamos a imagem do iluminismo de Voltaire,
que nos deu o caráter exclusivamente racionalista de Isaac Newton.
O outro lado da questão é devido à ultra-especialização
de nossa cultura. O físico detém-se apenas à sua
formação para compreender Newton, o químico idem,
o estudioso de alquimia também fica preso apenas no seu campo.
Ninguém possui habilidades para entender o trabalho do outro e
assim conseguir uma visão unificada de Newton.
Educação
Qual a sua opinião a respeito do livro Isaac Newton, O Último
Feiticeiro, recém-lançado no Brasil?
Rattansi Fiz uma crítica ao livro no jornal The Guardian,
da Inglaterra. A obra ressalta apenas os aspectos mais sensacionalistas
da vida de Newton. É outra visão departamentalizada. Keynes
tem uma famosa declaração sobre Newton, dizendo que ele
³não foi o primeiro da Idade da Razão, foi o último
dos magos². Michael White (autor do livro) partiu daí para
criar o título da obra. Quem ler esse livro terá a impressão
equivocada de que Newton era umcientista e um magista ao mesmo tempo,
que fazia um trabalho durante o dia e outro de noite. Na verdade, nenhum
desses rótulos cabe nele. Poderíamos defini-lo como um filósofo
natural.
Educação
Seria legítimo a escola incentivar ou discutir sem preconceitos
outras formas de conhecimento, como magia, alquimia, astrologia?
Rattansi Sim, é legítimo. Se não estudarmos
tudo isso, se não colocarmos nossos medos e preconceitos de lado,
podemos ter uma visão distorcida da realidade. Por exemplo, nos
anos 60 muitos estudantes que leram meus artigos diziam: ³Que bom
que você diz que Newton derivou suas leis da alquimia², numa
forma de confirmar a crença mística desses jovens. Mas não
é bem assim. Newton tinha um pé na alquimia e outro na ciência,
abrindo possibilidades que os cientistas mais racionais não conseguiam
enxergar. O estudo da alquimia permitiu a Newton elaborar alguns conceitos
revolucionários de ciência. Há uma relação
complexa entre ciência e magia que não é completamente
entendida por intermédio do sensacionalismo ou do racionalismo.
Também fico aborrecido quando esses estudos sobre Newton levam
ao misticismo barato. O fato é o seguinte: se quisermos entender
a personalidade e as idéias de Newton, não podemos esconder
aquele material sobre alquimia. Estou elaborando um livro sobre Newton
no contexto do século XVII, que é outro ponto importante
quando estudamos história da ciência, ou seja, compreender
o pensamento da época na qual a personalidade está inserida.
Educação
Se o próprio Newton enveredou por áreas, digamos,
ocultas, por que a ciência hoje não estuda esse tipo de assunto
abertamente?
Rattansi Devido à própria forma como a ciência
foi constituída. O começo da ciência moderna foi uma
reação ao totalitarismo religioso da Idade Média.
E a Renascença foi um confronto com a magia. A filosofia de Aristóteles
também estava em decadência e havia um impulso ao mesmo tempo
racionalista e mágico. Ambos elementos estavam presentes no início
da ciência moderna. Havia um pouco de alquimia, astrologia e magia
natural (não demoníaca), que posteriormente foram sendo
combatidas como forma de conhecimento por Descartes e Francis Bacon.
Educação
Francis Bacon estava ligado a sociedades secretas.
Rattansi É verdade, mas o racionalismo de sua obra
prevaleceu. Bacon interessava-se por astrologia e tentou formular uma
ciência empírica baseada na co-relação das
conjunções astrológicas e os fatos históricos.
Se tivesse levado a cabo esse projeto, a ciência hoje seria completamente
diferente. Mas pressões acadêmicas da época forçaram-no
a abandonar a empreitada.
Educação
Todo esse preconceito continua hoje em dia.
Rattansi Hoje está ocorrendo uma certa mudança
porque as pessoas já não têm mais aquela reação
extrema contra a religião, mesmo não sendo religiosas. A
ciência agora tem interesse sobre o estudo da religião e
sua influência no pensamento dos grandes pesquisadores.
Educação
O Brasil, com sua marcante influência religiosa, pode contribuir
para a ética das descobertas, cujo debate as religiões estimulam?
Rattansi Em meus seminários no Brasil, percebi que
os estudantes se interessam por essa discussão mais aberta da ciência
e estão preocupados com assuntos como bioética. Eles provavelmente
vão ter uma atitude diferente da grande massa de cientistas. Pessoalmente,
não considero o cientista uma pessoa com formação
adequada para dar um parecer sobre ética.
Educação
Países em processo de desenvolvimento costumam privilegiar
os aspectos mercadológicos das descobertas científicas.
Isso pode macular as pesquisas?
Rattansi É de certa forma previsível que países
em desenvolvimento se interessem pela ciência para adquirir tecnologia.
Mas noto que aqui no Brasil há um interesse maior também
em história da ciência. Isso é importante porque abre
uma perspectiva ética. No mundo todo, o público tem uma
visão do cientista como alguém fazendo o papel de Deus,
criando monstros, frankensteins, principalmente quando ouvem falar de
experiências genéticas. Em nossa história, sempre
houve um conflito entre os valores da sociedade e o estudo das ciências.
Veja o exemplo do mau uso da ciência no nazismo, na construção
da bomba atômica, na distorção do pensamento de Darwin
para justificar o racismo ou na perseguição de quem ousou
contestar a visão de mundo da época medieval, como Galileu.
Educação
Aí entra também a importância da filosofia na
formação de nossos jovens.
Rattansi A filosofia pode ensinar a resolver problemas éticos
e balancear os diferentes valores, chegando a um equilíbrio sobre
o que é mais importante nas descobertas científicas. A história
também. Não existe uma fórmula para resolver matematicamente
todos os problemas da sociedade, mas a filosofia e a história oferecem
mais condições para avaliar quais as decisões que
podemos tomar e suas conseqüências.
Educação
Como o estudo da história da ciência ainda pouco
explorada na universidade e no ensino médio brasileiros pode
contribuir para a formação do estudante?
Rattansi Esse não é um problema exclusivo do
Brasil. O sistema educacional inglês também é carente
nessa área. A história da ciência é importante
para o professor de qualquer disciplina que não tenha conhecimento
mais aprofundado em ciência e para o professor de ciência
que necessita de uma abordagem mais ampla. O tipo de ciência que
é ensinado em nossas escolas pode dar um gostinho sobre o que é
ciência, mas não a aborda como um processo cultural.
Educação
Qual a solução?
Rattansi Na Inglaterra e em outros países como o Brasil,
há uma divisão entre pessoas de ciência, de artes
e de humanidades. Isso é um problema. Precisamos acabar com essas
barreiras e atuar em um nível mais interdisciplinar. Ciência
não é um departamento, como marketing. Agora, todas as áreas
podem ajudar para uma maior compreensão sobre ciência. Os
professores de ciências também necessitam de uma fundamentação
histórica e filosófica de maneira abrangente e não
restrita à sua área. Por exemplo, o professor de física
acaba conhecendo um pouco mais sobre a história da física,
o de matemática e química também, em suas áreas.
Às vezes tais conhecimentos enveredam para discussões filosóficas,
como a atual física quântica, cujas descobertas estão
abrindo novas perspectivas para entendermos diferentes realidades.