Como gastar dinheiro com a produção de energia elétrica
e linhas de transmissão foi considerado pecado por esse governo
adorador do mercado, há ameaça de trevas. Daí que
muita gente passou a procurar aquecedores a gás para tomar um bom
banho.
Com os aquecedores,
apareceram de novo as palavras "bujão" e "botijão"
em jornais e emissoras de rádio e TV. Isso, claro, na referência
a regiões não servidas pelo gás natural, encanado.
Percebe-se haver pessoas
que se referem ao botijão, aquela vasilha dinossáurica de
transportar e vender gás, como "bujão". Nem sempre
são pessoas iletradas e toscas da periferia da vida e da geografia
da cidade, mas que trabalham com comunicação. Repórteres
de jornais de TV, por exemplo.
Pois bujão
não tinha nada que ver com gás há algum tempo. Bujão
é bucha com que se tapam buracos; cunha pequena para apertar cavilhas,
e, mais freqüentemente entre os brasileiros, tampa de atarraxar metálica
ou de outro material, usada para vedar. Bujão vem de bucha, tampão,
porção de estopa, de pano, que se empregava para dar mais
consistência à pólvora nas armas antigas. Do antigo
francês bouche, do latim da Gália, bosca.
Mas o Aurélio,
que levou ao extremo o princípio de que o povo faz a língua,
registrou bujão como sinônimo de botijão, considerando
que muita gente o toma por vasilha. Foi o único dos dicionários
de algum fôlego a registrar essa acepção. Como é
também o mais difundido, sua liberalidade confunde-se, indevidamente,
com o léxico oficial. Por isso não se pode chicotear quem,
por ignorância ou liberalidade, disser, como o povo da periferia,
bujão em lugar de botijão. É preciso admitir, além
de tudo, que a acepção de bujão como vasilha talvez
venha do francês bouchon, recipiente metálico para produtos
voláteis.
Não há
nenhuma dúvida, no entanto, de que botijão, de botija, vaso
cilíndrico, de boca estreita, gargalo curto e uma pequena asa,
vem do latim buticula, diminutivo de buttis, odre, vaso, pelo espanhol
botija.
Por tudo isso, é claro que se deve preferir a forma indiscutível
de botijão, tratando-se do recipiente de gás combustível.
Mas não soframos, porque o gás não ficará
mais barato, o governo não recolherá menos impostos nem
a vida ficará mais clara. Pelo contrário. Todos em busca
de botijões para substituir a energia elétrica seqüestrada.
O maridão,
a moça e Cauby - As seções de notícias leves
e colunas sociais de jornais e revistas costumam ter diversas marcas registradas.
Algumas boas, outras nem tanto, várias de chorar. Além das
específicas, de cada colunista, há algumas gerais. Duas
delas são "moço" ou "moça", com
que evitam repetir o nome da criatura de que falam, e outra, "maridão",
quando falam do acessório masculino de uma bela dama. Por exemplo:
"A estonteante Cindy Crawford, como veio ao mundo, na revista Esquire.
Nesse ínterim, perdendo tudo isso, o ex-maridão Richard
Gere faz exercícios espirituais na Índia...".
"Como veio ao
mundo" também é expressão tão nova quanto
Cauby Peixoto, que confessou a Jô Soares e a Marília Gabriela,
cantar New York, New York melhor do que Frank Sinatra. No mínimo
igual. O "moço" está com tudo.
Verdade que ninguém
vai sofrer muito por causa desses refinamentos estilísticos, muito
menos quem tomou o lugar do "maridão", mas as fórmulas
repetidas a mancheias, como diria Castro Alves, dão sempre a impressão
de coisa já lida, já vista, já vivida, desnutrida,
falecida. Por que fazem isso com o pobre leitor?