Cidadão
desconhece a tributação indireta que lhe permite exigir
bom atendimento em escolas e hospitais públicos
É preciso pensar o papel do Estado como gerador de qualidade social,
principalmente a partir da seguinte questão: quem é o proprietário
do que é público? O adequado seria afirmar: o povo, mormente
o "povão", que, por ser maioria, é o grande contribuinte.
Ora, o "povão" não se coloca nessa condição
porque acha que não paga impostos; aliás, ele se humilha
no equipamento público porque não sabe que o financia. É
por isso que o povo chama a escola do "governo", o hospital
do "governo" e, portanto, de graça ou graciosamente.
O "povão"
acha que não paga imposto, porque pensa que imposto é só
imposto direto, que é o imposto sobre renda e propriedade, o que
ele não tem. Os principais impostos diretos - como o Imposto de
Renda (IR), o Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU), o Imposto Territorial
Rural (ITR) - o "povão" não paga mesmo. Aliás,
desses não são muitos os justamente pagantes, dado que o
IR grava especial e quase exclusivamente os assalariados, o IPTU não
é progressivo e há grandes isenções nas metrópoles,
e o ITR ainda não chegou próximo à justiça
tributária em um país de latifúndios.
A questão é
muito mais complexa. O "povão" acha que não paga
imposto, mas paga impostos indiretos que são os impostos sobre
o consumo, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e o Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
Como a parcela extensamente majoritária dos orçamentos públicos
vem dos impostos indiretos, quem financia os orçamentos? Quem consome.
E quem consome? Todos.
Onde estão
os impostos indiretos? No leite, no pão, no sapato, na água,
na luz etc. Vamos a um exemplo concreto: 1 litro de leite na padaria ao
lado custa R$ 1,10 e, neste preço, R$ 0,25 são impostos.
Se eu ganhar R$ 1 mil de salário por mês, eu pago R$ 0,25
de imposto; se eu ganhar R$ 10 mil de salário por mês, eu
pago R$ 0,25 de imposto. Se eu ganhar R$ 100 mil de salário por
mês, eu pago R$ 0,25 de imposto; se eu ganhar R$ 180 por mês,
eu pago R$ 0,25 de imposto. Como isso está no leite, no pão
etc., etc., a conclusão é óbvia: como a maioria do
país é pobre, é esta que sustenta os orçamentos
que a ela não retornam em forma de serviços públicos
adequados, configurando uma espécie de estelionato.
E ele - o "povão"
- acha que não paga imposto. Tanto que vai à escola pública
e é muitas vezes desprezado na fila; vai ao hospital público
e fica deitado na maca no corredor. O "povão" está
pagando. A criança reclama da merenda na escola e um colega nosso
fala assim: "Mas esse povinho come de graça e ainda está
reclamando" ou, no hospital, "esse povinho recebe atendimento
de saúde gratuito e ainda está reclamando, quer leito bom,
quer remédio de graça". De graça? Aquilo está
pago! E muito bem pago!
Por isso, a violência
mais forte é a não-compreensão de todas essas coisas,
o não-esclarecimento de que, se o cidadão paga imposto,
ele tem esse direito e, acima de tudo, é seu direito ser proprietário
do que é público.
*Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.