Fundação
Orsa completa 7 anos em defesa da educação de crianças e adolescentes
em situação de risco
Quero ser advogado
para prender o cara que matou meu pai." Essa frase é de Tiago,
de 10 anos, que viu o pai ser assassinado há poucos anos. Tinha
muito ódio quando chegou ao Projeto Formação VII,
desenvolvido na sede da Fundação Orsa, em Carapicuíba
(SP). Hoje, ele fala sobre seus sonhos cheio de orgulho e esperança
de chegar "lá". Meses atrás, essa seria uma oportunidade
remota para Tiago, que vivia nas ruas, como as outras 61 crianças
que participam do projeto e dividem o dia entre as atividades socioeducativas
promovidas pela entidade e a escola pública.
Educadores revezam-se
com voluntários para entreter a molecada. Gente como dona Nicolina
Falcone Lavezzo, de 90 anos, que há quatro anos, sempre que pode,
vai de sua casa, em Barueri, até a fundação contar
histórias infantis. Volta e meia, o cansaço é maior
que a vontade de ajudar e as professoras pegam dona Nicolina dormindo,
com um livro de histórias nas mãos e a criançada
fazendo a maior algazarra.
Todos os pequenos
têm casa, freqüentam a escola num período e ficam na
fundação no outro, quando então aprendem desde hábitos
elementares de higiene - escovar os dentes, manter a roupa limpa e lavar
as mãos antes de comer - até noções mais complexas
de convivência em sociedade, além de aulas de reforço
escolar. Também lá almoçam e têm espaço
de sobra para se divertirem, uma vez que a sede da fundação
fica num antigo casarão, com um amplo jardim ao redor e uma mini-horta
cuidada pelas próprias crianças. Uma Kombi passa de casa
em casa recolhendo os alunos e devolvendo-os quando acabam as atividades.
Eles recebem atendimento médico e têm uma pequena farmácia
comunitária à disposição.
Mas não foi
sempre assim. As crianças que hoje correm pelo casarão como
se estivessem na própria casa vivem num lixão próximo.
Se a realidade ainda é chocante, já foi bem pior, lembra
Neide Albuquerque, coordenadora do núcleo de voluntariado: "As
crianças passavam o dia todo na rua ou vendendo bugigangas no farol
ou simplesmente andando à toa." Na fundação
há quatro anos, Neide explica que, por trás de cada carinha
sorridente, há um discreto trabalho de aproximação
que, segundo ela, exige paciência e força de vontade.
Ao menos foi assim
com a primeira criança que ela levou à fundação.
Neide parava com o carro todos os dias em um farol próximo ao casarão
e era abordada sempre pelo mesmo menino, que pedia dinheiro.
- Como você
se chama?
- Não interessa. Por que é que você quer saber?
- Só quero saber.
- Ah, não vou falar.
E saía correndo.
De uma outra vez, Neide conseguiu que ele desembuchasse um nome enorme,
mas não se convenceu: "É mentira, vou embora."
O tempo foi passando e o menino Augusto César, ela soube depois,
foi ficando menos arredio. "Quando perguntei por que não estava
na escola, ele me disse que não tinha dinheiro para comprar o material",
recorda Neide. Toda a fundação passou a conversar com Augusto
César no farol e tanto fizeram que ele acabou freqüentando
a escola. "No dia em que ele se matriculou, veio e me trouxe a lista
de material. Compramos tudo." Neide faz questão de ressaltar
que ele é excelente aluno e que, se pegá-lo na rua, "ele
está perdido".
Com esse mesmo despojamento
e persistência, ela ajudou a diluir a desconfiança dos pais
das crianças. Com outras funcionárias da fundação,
ela visita as famílias em casa, explicando a importância
de as crianças estarem na escola e como elas podem aproveitar o
tempo livre para atividades educativas e não para ficar na rua.
"Falo verdades brincando", afirma. "Em uma das visitas
às famílias, veio uma mãe toda ramelenta, descabelada.
Disse: 'Que mulher feia, não vou falar com você' e ela foi
para dentro, se arrumou e voltou bem melhor. Estimulamos os pais a aprenderem,
como os filhos, a ser pessoas melhores, a se gostar mais."
Auto-estima, aliás,
não é só um problema dos pais. Os filhos que freqüentam
as atividades da Fundação Orsa são, na maioria, vítimas
do descaso, da miséria, da discriminação e da violência.
Alguns descem da Kombi com cortes nas mãos, de catarem lixo, outras
com hematomas no corpo, dos maus-tratos dos pais.
É para lidar
com esses desassistidos que a entidade nasceu há sete anos, preocupada
com a formação integral de crianças e adolescentes
em situação de risco pessoal e social. Com atuação
custeada com cerca de R$ 6 milhões, 1% do faturamento bruto anual
do Grupo Orsa, a terceira maior empresa do ramo de celulose e papel, a
fundação atua em cinco áreas: educação,
saúde, promoção social, voluntariado e meio ambiente.
"Cada moedinha que entra aqui vai primeiro para elas, para implantação
de mais projetos que possam ajudá-las direta ou indiretamente",
explica Vera Lúcia Anselmi Melis, responsável pelo núcleo
de educação. Esse dinheiro manteve, só no ano passado,
377 mil crianças nas escolas e participando dos programas.
As ações
da entidade são disseminadas em vários Estados. Do projeto
Formação, em Campinas (SP), nasceu a Banda Bate Lata, formada
por 20 participantes, entre 7 e 17 anos. O sucesso deles é tamanho
que já gravaram o CD Gente é pra brilhar, não pra
morrer de fome, cuja parte da renda arrecadada vem sendo revertida para
o atendimento de crianças órfãs portadoras do vírus
da aids, projeto também mantido pela instituição.
No CD, músicos consagrados - Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arnaldo
Antunes, entre outros - cantam em meio à batucada que a criançada
faz em instrumentos construídos à base de sucata. Também
na música vem se firmando o Grupo Cultural Swing Sucata, criado
pelas crianças do Projeto Formação II, de Suzano
(SP). Neste último projeto, os participantes têm aulas de
inglês, espanhol, computação, cabeleireiro, mecânica,
ginástica olímpica e natação, atividades em
parceria com escolas da região. Há outros projetos Formação
em Laranjal do Jarí (AP), Monte Dourado (PA), Guiratinga (MT) e
Vitória do Jari (AP). Em Porto Seguro (BA) e no Vale do Jequitinhonha
(MG), fica o Projeto Sementinha, uma creche itinerante que atende 430
crianças de 2 a 6 anos. Vera Lúcia acredita que "as
atividades do Sementinha, realizadas em espaços abertos, dentro
da própria comunidade, ajudam as mães no papel de educadoras".
A preocupação
da fundação também se estende aos docentes. Por isso,
a cada três anos vão para o mercado professores saídos
do Programa de Formação do Profissional de Educação
Infantil, que já atingiu mais de 5 mil crianças desde 1998,
quando foi implantado na Bahia. "Queremos desenvolver competências
e habilidades que vão garantir ao profissional de educação
infantil um bom respaldo, compatível com as necessidades da criança
em desenvolvimento", explica Vera Lúcia. Também com
esse intuito a fundação criou, em parceria com o MEC e a
União Nacional dos Dirigentes Municipais de Ensino (Undime), o
Prêmio de Qualidade na Educação Infantil, que reconhece,
valoriza e difunde experiências pedagógicas de professores
em todo o país. Um professor e um prefeito por Estado são
premiados e os participantes recebem material de apoio. O melhor caso
recebe uma unidade móvel, com equipamentos e brinquedos.
Seguindo o Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA), há ainda o Programa Criar,
desenvolvido pelo núcleo de promoção social da fundação.
O Criar procura prevenir o abandono de crianças em instituições,
capacitar profissionais das Varas de Infância e Juventude e oferecer
apoio terapêutico a casais adotantes e filhos adotivos. Desse programa
nasceu o Guia de Adoção - publicação feita
em parceria com empresas como a Benetton e a Caixa Econômica Federal
-, que conta com a colaboração de juízes, promotores,
psicólogos e assistentes sociais.
Todas essas atividades
já renderam à fundação vários prêmios.
O mais recente é o Top Social ADVB 2001, concedido ao Programa
de Inclusão Social e Construção da Cidadania, que
engloba todas as unidades do projeto Formação (são
dez atualmente). A entidade atua ainda em outros projetos, como parceira.
É o caso do trabalho com o Abrigo de Itaboraí (RJ) ou com
o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer
(Graacc). Num hospital, numa sala de aula, nas ruas: gente brilhando.