Sociólogo
analisa expansão do ensino superior e alerta: ensino particular atingiu
seu limite
Estudo realizado pelo
sociólogo Paulo Corbucci, do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (Ipea), mostra que 21% das 685 mil vagas ofertadas pelas instituições
particulares em 1999 não foram preenchidas. Com base em dados do
Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep) do MEC, ele analisou
a expansão da oferta e da demanda nas universidades públicas
e particulares na década dos 90. "A expansão do ensino
superior privado está próxima do limite", diz o técnico.
Graduado em arquitetura pela Universidade Federal de Brasília (UNB),
com mestrado em educação e doutorado em sociologia, Corbucci
tem o que ele mesmo define como uma "formação eclética".
Há quatro anos no Ipea - que existe há mais de trinta anos,
vinculado ao Ministério do Planejamento -, ele concentra sua atuação
na diretoria de estudos sociais, na qual realiza trabalhos sobre educação
com ênfase em ensino superior. Aqui, ele explica por que o aumento
da oferta de vagas no sistema privado não contribui para solucionar
o problema de acesso às universidades.
Educação
- Qual é a principal constatação do seu estudo?
Paulo Corbucci - Há um aumento constante e em intensidade
muito alta da oferta de vagas no ensino superior, principalmente nas instituições
privadas, que não está sendo acompanhado na mesma proporção
pelo nível de ocupação. Na década dos 90,
houve crescimento de 91% no número das vagas ofertadas pelo sistema
privado. Mas o aproveitamento, por incrível que pareça,
diminuiu no período. Em 1999, 21% das vagas oferecidas pelas universidades
privadas não foram preenchidas. O movimento contrário aconteceu
com o ensino superior público, cujo aproveitamento passou de 90%
em 1990, para 96% no fim da década. A conclusão é
que está havendo uma incapacidade de aproveitar essas vagas no
sistema privado e uma procura muito grande no sistema público.
Educação
- O aumento da oferta de vagas no setor privado não deveria ajudar
a diminuir o problema de acesso ao ensino superior?
Corbucci - Não, porque o não-preenchimento das vagas
nas instituições pagas não acontece por falta de
demanda, mas sim pela perda do poder aquisitivo de quem pode ir para o
ensino superior. E sabemos que apenas as classes mais privilegiadas, que
compõem um porcentual muito pequeno da população,
podem freqüentar uma universidade.
Educação
- Segundo o levantamento, o crescimento de matrículas no ensino
superior privado disparou em 1999, em comparação ao setor
público. Qual o motivo da inversão dessa liderança,
quando considerada toda a década dos 90?
Corbucci -O ensino privado passou por fases em que houve decréscimo
na matrícula, principalmente no período Collor. Era recessão
mesmo. Com essas oscilações nas universidades particulares,
o conjunto da década até 1998 resultou em uma taxa de crescimento
equivalente para ambos os sistemas. Só que em 1999 houve uma explosão
da matrícula no ensino privado. Há um incentivo do sistema
para que as instituições pagas se instalem, aumentem a oferta
e criem novos cursos. Hoje, existe uma intenção que favorece
essa expansão, tanto para a criação de novas escolas,
como de cursos.
Educação
- Quais serão as conseqüências da expansão contínua
da oferta no sistema privado?
Corbucci -Não é possível conter essa expansão,
a não ser por critérios legais, o que compete ao MEC e ao
Conselho Nacional de Educação. Mas ter uma oferta grande
de vagas não é ruim. O problema é se ela não
vier acompanhada de qualidade. Em tese, existem os critérios para
que os cursos sejam reconhecidos e aprovados. Além da avaliação
das condições de oferta, agora temos o Provão. Isso
cria um novo critério para que as instituições se
mantenham no mercado. Como elas correm o risco de ser fechadas caso não
apresentem bom desempenho, há maior controle da qualidade. Mas
o fato é que, pela condição econômica das pessoas
que teriam acesso ao ensino superior, essa expansão pela via privada
não está sendo suficiente. Ela tem um limite, que é
justamente a capacidade desse pequeno grupo de arcar com os custos dos
estudos.
Educação
- De que forma o governo pode estimular essa expansão?
Corbucci -Estamos fazendo um trabalho sobre as políticas
federais de educação na década dos 90 e constatamos
que, após a criação do Conselho Nacional de Educação,
no fim da gestão Itamar Franco e começo do governo Fernando
Henrique, o processo para o reconhecimento de novos cursos e instituições
ficou mais acelerado. Não vou entrar no mérito se houve
ou não um rebaixamento de critérios para reconhecer uma
universidade. Mas posso dizer que houve uma aprovação muito
mais intensa nos últimos anos do que no começo da década.
Educação
- Todo esse crescimento não deveria estar ocorrendo no setor público?
Corbucci -Isso é o que todo mundo gostaria. Menos as instituições
privadas. O melhor dos mundos teria universidades públicas para
todos. Mas não existe essa tendência, principalmente no âmbito
das federais. O que tem ocorrido é um aumento da oferta de vagas,
mas não na mesma proporção das privadas. Isso acontece
porque nós temos 52 universidades federais e, como não há
aumento do número de instituições, o crescimento
do número de vagas nesse setor é vertical. Portanto, há
um limite desse aumento. Já as privadas, como são inúmeras,
crescem horizontalmente, ou seja, há uma expansão do número
de escolas.
Educação
- Já que não há possibilidade de expansão
do ensino superior público, qual seria a solução?
Corbucci -Uma das possibilidades para que ocorra a ocupação
dessas vagas ociosas na esfera privada seria uma política mais
agressiva do Programa de Financiamento Estudantil (Fies). Essa é
uma saída que poderia ser encontrada no curto prazo. O Fies atende
apenas 10% do total de alunos matriculados no sistema privado. Ampliando
a abrangência do atendimento desse programa, seria possível
diminuir as vagas ociosas.
Educação
- As universidades públicas têm aproveitamento total de suas
vagas?
Corbucci - Nessas instituições, 96% das vagas oferecidas
foram preenchidas por estudantes em 1999. Pode-se até dizer que
havia uma capacidade ociosa dentro das universidades públicas que
foi sendo eliminada com o passar do tempo. Mas sabemos que na área
federal não houve contratação de professores nos
últimos anos. Portanto, se está ocorrendo aumento do número
de matrículas, com a mesma capacidade instalada, há melhor
aproveitamento e ganho de produtividade dessas instituições.
Educação
- Foi dito que a não-ocupação das vagas no sistema
privado não ocorre por falta de demanda. Como está a procura
por vagas?
Corbucci -A demanda existe e está um pouco acima da oferta.
Em 1999, mais de 3,3 milhões de candidatos inscreveram-se em vestibulares
no Brasil, ante 904 mil vagas oferecidas. A média é de 3,7
candidatos/vaga. Mas esse número não significa que mais
de 3 milhões de pessoas estejam pleiteando uma vaga na universidade,
porque há candidatos que se inscrevem em mais de um concurso. Nos
próximos anos, a tendência dessa procura é aumentar
porque há um crescimento muito grande do ensino médio, que
também está relacionado à universalização
do ensino fundamental. Tendo melhor produtividade, os níveis de
ensino anteriores ao superior vão pressionar a demanda por uma
vaga nas universidades.
Educação
- O estudo também questiona a tese segundo a qual o estudante das
instituições públicas tem renda superior ao aluno
da universidade particular. Em quais aspectos esse mito é desfeito?
Corbucci -Público ou privado, mais de 70% dos matriculados
no ensino superior pertencem ao grupo dos 20% mais ricos. A idéia
que muitas vezes se divulga na imprensa, até para desqualificar
a instituição pública, é que lá estariam
os filhinhos de papai, enquanto na particular estariam as pessoas que
têm de trabalhar. O fato é que os dois sistemas concentram
os indivíduos com melhores condições de vida na sociedade.
Isso não significa que nas públicas não estejam os
melhores dos melhores. E é claro que estarão, pois, entre
aqueles que têm uma situação econômica semelhante,
o diferencial será a capacidade intelectual. Além disso,
se o estudante tiver de escolher entre uma escola privada, com menor qualidade,
e ainda ter de pagar por isso, ou uma pública, é claro que
ele vai ficar com a última opção.
Educação
- Por que apenas 5% de brasileiros entre 18 e 24 anos, a idade ideal para
cursar uma universidade, estão efetivamente matriculados no ensino
superior?
Corbucci -No Brasil, quando o indivíduo ingressa no ensino
médio, muitas vezes já chega com a idade defasada. Existem
pessoas com 18 anos ainda cursando o nível médio, quando
o ideal seria que estivessem no superior. Há também a questão
do abandono, pois muitos nem chegam a concluir o ensino fundamental. E,
quando concluem o fundamental, não terminam o médio e logo
não têm chance de ir para a universidade. Com isso, ocorre
um processo seletivo, que começa nos níveis anteriores.
Além disso, sabemos que boa parte da população brasileira
vive em áreas rurais. Esses praticamente não têm como
horizonte uma universidade. Na melhor das hipóteses, terminam o
nível médio. Todos esses aspectos diminuem o número
de pessoas que seriam potenciais demandantes de ensino superior. Isso
contribui para que apenas 5% da população entre 18 e 24
anos esteja matriculada nas universidades. Os outros 95% ou não
estão estudando ou estão em outro nível de ensino.
Nessa mesma faixa etária, também temos muitas pessoas fazendo
cursos preparatórios para vestibular ou algumas que até
já concluíram o ensino superior. Por isso, a porcentagem
é muito baixa. Mas esse dado não é totalmente preciso,
porque usamos o Censo Escolar do MEC de 1991. Provavelmente, se tivéssemos
os dados de 2000, o número seria um pouco melhor, entre 6% e 7%,
o que também não é muito diferente.
Educação
- Como a produtividade do sistema privado, medida pelo número de
concluintes ao ano, pode ser afetada pelo desaquecimento da economia?
Corbucci -Acontece que, quando as pessoas não têm
dinheiro para custear o ensino superior privado, muitas vezes elas têm
de trancar a matrícula ou estudam menos disciplinas e, com isso,
prolongam a duração do curso, diminuindo o número
de concluintes a cada ano.
Educação
- O que a pesquisa concluiu a respeito da pós-graduação
no país?
Corbucci -A pós-graduação brasileira é
fundamentalmente feita no setor público, com mais de 85% das matrículas.
Isso ocorre principalmente nas instituições federais e estaduais
paulistas. Essa concentração no sistema acontece porque
a pós-graduação requer um corpo docente qualificado
e uma infra-estrutura que depende de altos investimentos que não
dão retorno financeiro, pois são de natureza social. Não
é uma tendência no setor privado. Construir uma sala de aula
e colocar profissionais lá dentro para formar em cursos de graduação
é muito menos caro do que investir em laboratórios e contratar
professores doutores.
Certamente, no sistema
privado isso teria um custo que para o aluno seria muito alto. Logo, a
tendência é de que a pós-graduação continue
prevalecendo no sistema público. Mas isso tem um lado muito importante
que é justamente a necessidade de requalificar os quadros de professores
das instituições privadas.