Há
um fato político por trás da crise de energia que a escola não pode se
furtar a debater
O governo arrola uma
lista de deveres do bom cidadão, que agora tem de economizar -
além de tempo, água e papel - energia. Empresas estimulam
metas de economia de eletricidade, famílias jantam pouco romanticamente
"à luz de velas" e em alguns lugares até já
se fala em reduzir o número de dias letivos semanais de cinco para
quatro.
Ora, frente a uma
crise dessas, como formar gerações de crianças e
adolescentes em relação à compreensão do fundamental
papel protetor coletivo a ser desempenhado pelo Estado? Como explicar
qual deve ser a finalidade previdenciária do poder público,
se essa finalidade se esvai e é remetida agora para uma absurda
espécie de terrorismo estatal, na qual se assusta o cidadão
e a cidadã? Como explicar que aquilo que se ensina nas aulas não
corresponde à realidade e que, no momento, se mostra mais como
uma imprevidência social e delinqüência pública?
A sociedade, principalmente crianças e jovens, sente-se desprotegida
e ameaçada pelo o que não compreende.
É claro que,
muitas vezes e em muitos lugares, também o poder público
é inconseqüente, mesmo quando se coloca como portador da verdade.
Ao que parece, no entanto, o Brasil acaba de inaugurar algo inédito
no modo de governar: o despotismo escurecido, que se traduz numa postura
arrogante, especialmente quando quer encontrar justificativas para a própria
negligência dos, antes, petulantes iluministas (no duplo sentido
da palavra).
Qual é o nosso
papel pedagógico em uma sociedade que, já prejudicada por
um projeto econômico deletério, resvala para um aprofundamento
dos sacrifícios da maioria despossuída? Nossa tarefa não
é desmoralizar o poder público (como se ele fosse ruim por
si mesmo), mas apontar as mazelas e mostrar que há situações
em que a cidadania precisa proteger-se e exigir de seus governantes o
cumprimento efetivo da Constituição que eles juraram obedecer
no dia da posse.
É inaceitável
deixar essa discussão passar apenas como um problema circunstancial
a ser resolvido com a orientação econômica aos nossos
alunos. Não se trata de uma simples "crise de energia",
mas, principalmente, de uma crise política de planejamento e competência,
cabendo aos educadores levar o tema para as salas de aula, pois é
urgente discutir as causas e conseqüências, de modo que não
se exploda ainda mais o futuro dessas mesmas gerações.
Nosso papel pedagógico,
é necessário repetir, não se esgota no auxílio
à redução do consumo de energia. Nas raízes
dessa situação, revela-se a incapacidade administrativa
de alguns e o desprezo pela condição de vida da maioria,
por parte de outros. Que não se coloque jamais nesse episódio
a palavra tragédia porque ele é, isso sim, um drama: tragédia
supõe a não-interferência humana, ao passo que o drama
é resultado direto de nossas ações.