Programa de arte-educação ensina jovens de São
Paulo a transformar a cidade em uma imensa galeria de arte a céu
aberto
Nada é mais
latente em Ricardo Correia dos Santos, 19 anos, do que sua vontade de
ser artista plástico. Sabe que é difícil, mas isso
não é novidade para ele, que já passou por apertos
maiores. No começo do ano, saiu em liberdade assistida da Fundação
do Bem-Estar do Menor (Febem), instituição em que viveu
por um ano. Hoje, Ricardo é artesão e constrói luminárias
feitas com folhas de coqueiro. "Quero trabalhar com tela", sonha.
O que ele começa
a perceber é que, de certa forma, já ganhou tela e tintas
para pintar. Ricardo e outros 49 jovens foram selecionados para participar
do Agentes da Cidade, programa de arte-educação criado pela
ONG Cidade Escola Aprendiz em parceria com a Secretaria do Estado da Juventude,
Esporte e Turismo, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, o Instituto
Ayrton Senna e a Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A
idéia é fazer dos jovens protagonistas de intervenções
estéticas no espaço público. Ou seja, enquanto Ricardo
planeja o que fazer com as "tintas", o projeto oferece a "tela":
muros, praças, parques, becos, enfim, a cidade de São Paulo.
O programa conta com
uma equipe de profissionais que ensina técnicas de intervenção
artística. Divididos em quatro grupos, os jovens assistem a aulas
práticas sobre o uso de mosaicos, grafite e escultura. "São
aulas que desenvolvem o senso estético e mostram os materiais com
que eles podem trabalhar", explica Eymard Ribeiro, coordenador do
projeto. Segundo ele, mostrar as possibilidades de criação
é o primeiro passo do trabalho.
Juntamente com essa
capacitação, há um trabalho socioeducativo baseado
na metodologia da Cidade Escola Aprendiz. Nessa fase, os participantes
incorporam valores de cidadania e desenvolvem a capacidade de serem sujeitos
de transformação do meio social. Segundo Eymard, o programa
une todos os conhecimentos adquiridos pela ONG em quase cinco anos de
trabalho. Aprender um ofício, portanto, não é o único
objetivo do programa. Mesmo sendo predominantemente artístico,
a idéia é que eles saiam aptos a refletir sobre outras formas
de atuar em prol de mudanças. "Eles se tornarão empreendedores
de novas iniciativas", afirma Eymard.
Não é
fácil organizar tudo isso. Os grupos de trabalho foram detalhadamente
analisados. O processo de seleção reuniu jovens de diferentes
classes sociais e vivências. Além da proporcionalidade de
homens e mulheres nas turmas, a diversidade de repertório cultural
na composição do grupo é um dos dados marcantes do
projeto. São jovens em liberdade assistida pela Febem, grafiteiros,
alunos de escolas públicas e privadas. Para o artista-plástico
Sergio Fabris, um dos monitores do programa, essa mistura só traz
benefícios: "A vivência de cada um agrega novos valores
ao trabalho."
Ao ser questionado
sobre a dificuldade de se trabalhar em um grupo tão misto, Fabris
é categórico: "Existe uma barreira preexistente de
trabalhar com aquele que é diferente, mas com o convívio
percebe-se que isso é imaginário. Estão todos no
mesmo nível."
Além do aprendizado,
os participantes recebem benefícios para comparecer às oficinas
- entre vales-transporte e vales-alimentação, é dada
a eles uma bolsa-auxílio de R$ 105 -, o que minimiza a evasão.
"Nesse formato, o programa pode ser adaptado como uma política
pública para a juventude. Os garotos aprendem, melhoram a estética
da cidade e ainda recebem uma renda", argumenta o jornalista Gilberto
Dimenstein, diretor da Cidade Escola Aprendiz.
No começo do
ano, o então secretário da pasta Juventude, Esporte e Turismo
do Estado de São Paulo, Gabriel Chalita, aceitou a empreitada.
Para ele, se trata de um conceito revolucionário de educação,
no qual o jovem tem consciência do espaço em que ele vive.
Hoje, secretário estadual de educação, Chalita planeja
incorporar a iniciativa aos novos programas de sua secretaria. "Acredito
que a escola deve ser um centro de luz no meio da comunidade."
Uma das idéias
é que aos fins de semana as escolas possam abrir as portas também
para esse programa. "Para a escola isso vai ser muito bom. Quando
o jovem recupera o espaço em que estuda, ele se sente dono da escola,
sente que ele pertence a ela e a escola pertence a ele", afirma Chalita.
Por isso, todas as
ações são relatadas pelos monitores e participantes.
Os relatórios vão ajudar a sistematizar o projeto para replicá-lo
mais tarde, em outros lugares. Segundo Eymard Ribeiro, esse é um
passo importante para multiplicar a iniciativa. "Não estamos
atrelados às secretarias, por isso, outros grupos podem adaptá-lo
em suas cidades."
Por enquanto, os 50
jovens já têm como meta realizar quatro grandes intervenções
na cidade. Embora apenas uma já tenha sido definida, no Parque
Vila Lobos, zona oeste, eles já receberam uma importante proposta.
Um dos eventos mais badalados de arte em São Paulo, o Casa Cor,
irá revitalizar um casarão na avenida Pacaembu e convidou
um grupo do programa para participar dos trabalhos.