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O
meio pela metade Ambientalismo já faz parte do currículo de muitas escolas – mas, na prática, professores ainda não sabem lidar com o tema Leia
mais: Ninguém precisa ir à escola para conhecer os estragos causados pelos diversos tipos de poluição ou pelo lixo. Até o efeito estufa – que superaquece determinadas regiões do planeta – já se tornou uma expressão corriqueira. São problemas e debates incorporados ao nosso dia-a-dia. O desafio é entender as origens dessas mazelas ambientais e como combatê-las. Os adultos de hoje
não sabem administrar a herança deixada pela era industrial
e, como não conseguem limpar a casa, a esperança fica com
a próxima geração, aquela que ainda freqüenta
os bancos escolares. O mau exemplo da sociedade mostra que educação
ambiental não se aprende (ou não é ensinada) em casa.
É só observar por alguns minutos o trânsito fluir
numa rua e contar quantos papéis e tocos de cigarros são
jogados para fora dos carros. Ou ir à praia e ver onde o marmanjo
joga a lata de cerveja vazia. Então, dê uma olhada no cesto
de lixo de sua casa e repare como você também não
separa o seu próprio lixo, colocando em sacos diferentes papéis,
latas e vidros, como manda o ABC da reciclagem. Bom, você dirá,
a prefeitura não tem nenhum programa sério de reciclagem.
O fato é que quem se omite e lava as mãos na frente dos
filhos, hoje, formará mais um adulto porcalhão daqui há
pouco tempo. A questão do
lixo doméstico não é a única, nem é
o mal maior. Bastaram nascer algumas crianças sem cérebro
em Cubatão – importante pólo industrial paulista e apelidada
de cidade da morte até bem pouco tempo –, resíduos químicos
pesados chegarem às areias de nossas praias e o tempo ficar maluco
em todo o planeta para a sociedade se dar conta de que alguma coisa grave
está acontecendo, tomar algumas atitudes e cobrar providências
das autoridades. Organizações
não-governamentais de cunho ecológico nasceram e protestaram.
Na esteira dessa consciência, surgiram, então, os programas
de educação ambiental nas escolas, iniciativas que, pelo
menos, tentam eliminar algumas causas das agressões ao meio ambiente
e formar cidadãos mais combativos no futuro. Na área educacional,
a medida mais efetiva aconteceu a partir da implementação
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), instituídos
pela Secretaria de Ensino Fundamental, do Ministério da Educação,
em 1997, que passou a orientar metodologicamente a implantação
do tema nas escolas. Logo depois, a Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999,
criou a Política Nacional de Educação Ambiental.
É preciso compreender
bem esse palavrório. "Temos que tomar cuidado para não
embutir uma série de noções dentro desse conceito",
chama a atenção Eduardo Mazzaferro Ehlers, coordenador do
curso de Tecnologia e Gestão Ambiental da Faculdade Senac. "É
preciso difundir a conservação do meio ambiente, dos recursos
naturais", continua Ehlers, "mas também preparar para
a cidadania, para o convívio com outros seres. Educação
ambiental tem, hoje, uma dimensão ampla. Isso é interessante
porque abre o leque de possibilidades da educação ambiental.
Mas temos que ter cuidado com a reação a isso, para que
a educação ambiental não se torne um tema ou um termo
vazio, tão amplo e abstrato que não se consiga colocar em
prática". Em outras palavras,
educação ambiental é mais do que fazer campanha para
arrecadar latinhas na escola. Ou pedir que os alunos façam uma
redação sobre "minha cidade despoluída".
Tem que abrir a cabeça da criançada, mostrar que todos somos
responsáveis em todos os momentos de nossa vida. Fazer analogias
entre o que acontece no mundo e na nossa esquina. Comprovar que o efeito
estufa não é algo distante que atinge apenas alguns países
longínquos. "Todas as pessoas podem fazer educação ambiental", defende Ana Flávia Borges Badue, consultora em programas de comunicação e educação ambiental, ligada ao projeto desenvolvido no Mosteiro Zen, em Morro da Vargem (ES). "Além das maneiras formais educativas, existem também formas eficazes de influenciar o comportamento de pessoas que estão a nossa volta. Quando adotamos um hábito ambientalmente saudável – em relação a nossa saúde, e a tudo o que nos cerca – estamos fazendo educação ambiental, ao estimular e influenciar, com nosso exemplo, outras pessoas a mudarem também de comportamento." Segundo a pesquisa
O que o Brasileiro Pensa Sobre Meio Ambiente, Desenvolvimento e Sustentabilidade,
realizada em 1997 pelo Ministério do Meio Ambiente, Instituto de
Estudos da Religião (Iser) e Museu de Astronomia e Ciências
Afins, 95% dos entrevistados consideraram que a educação
ambiental deveria ser obrigatória nas escolas. De fato, o conceito
tem sido adotado em muitos colégios como disciplina opcional. Os
maiores entraves acontecem na rede pública, onde professores e
coordenadores pedagógicos carecem de capacitação
específica na área, além do fato de que essas escolas
não têm recursos financeiros nem estrutura apropriada para
o planejamento e exercício das atividades, de acordo com o que
propõem os PCN. "A preocupação
ambiental perpassa, hoje, vários setores da sociedade e se reflete
no ensino e na escola", garante Ehlers. "A preocupação
já existe, só que, obviamente, as escolas particulares estão
na frente por terem recursos, condições e abertura no projeto
pedagógico. A maioria tem dificuldades. Apesar de reconhecer internamente
a importância, não sabe como traduzir a teoria em resultados
práticos." Se a escola pretende
estar em consonância com as demandas atuais da sociedade, é
necessário, segundo os PCN, que trate de questões que interferem
na vida diária dos alunos, contribuindo para a formação
do cidadão participativo, plenamente reconhecido e consciente de
seu papel na sociedade. A definição oficial de educação
ambiental, do Ministério do Meio Ambiente, diz mais ou menos a
mesma coisa: "Educação ambiental é um processo
permanente, no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência
do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, valores, habilidades, experiências
e determinação que os tornam aptos a agir – individual e
coletivamente – e resolver problemas ambientais presentes e futuros."
"A escola tem
que achar o caminho dela. Precisa trabalhar com conteúdos que façam
diferença na vida de cada criança", recomenda Maria
Lúcia Barciotte, coordenadora do projeto Consumo Responsável
e Qualidade de Vida, ou o Prolata, do Sindicato de Estamparia de Metais
do Estado de São Paulo (leia mais à pág. 42). "Temos
que começar discutindo o que é qualidade de vida",
diz. Maria Lúcia também acha o ensino transversal importante:
"Esse conceito pode ser trabalhado por professores de geografia,
ciência, matemática, história etc. Isso ajuda a criança
a desenvolver a criatividade e o nível de informação.
Atende plenamente ao objetivo da proposta de educação ambiental."
Eduardo Ehlers é
mais cético quanto à transversalidade, por acreditar na
dificuldade de o professor integrar disciplinas: "No ensino médio,
esta dificuldade é mais ampla porque o professor tem um conteúdo
específico a ser ministrado." O tema ainda é uma novidade
para alguns docentes, embora exista interesse das direções
e coordenações em inserir o assunto na grade curricular.
Na opinião de Ehlers, o problema maior são aquelas escolas
que não têm recursos para contratar um profissional de educação
ambiental ou não têm na sua grade um professor que atue com
isso. "Fica difícil trabalhar como um tema transversal."
Ainda quanto à
importância da interdisciplinaridade na educação ambiental,
o ex-deputado paulista Fábio Feldmann tem uma certeza: "Só
assim é possível fazer com que os estudantes entendam que
são os principais protagonistas para a existência de uma
política ambiental." Autor da Lei de Política Nacional
do Meio Ambiente e relator do texto constitucional que obriga a inclusão
da educação ambiental no ensino, Feldmann acredita que há
muito por fazer para que as escolas encarem os estudos ecológicos
como parte do projeto pedagógico do ensino. "Essa exigência
interdisciplinar acaba colocando em cheque certas premissas da educação
tradicional e gera uma insegurança muito grande nos professores",
pondera. Atuando como professora
de prática de ensino e estágio em educação
ambiental, Maria Inês Araújo percebeu as dificuldades dos
alunos em aplicar a dimensão ambiental. Hoje, docente licenciada
de ciências biológicas, defendendo tese de doutorado em educação
ambiental, Maria Inês observa que está havendo um aumento
na procura por cursos, encontros e congressos com a finalidade de discutir
questões ambientais. "Músicas, novelas, teatro, revistas
em quadrinhos, programas infantis estão preocupados em inserir
essa temática. Os meios de comunicação, com campanhas
informativas ou denúncias, ajudam a criar uma consciência
ambiental. É impossível ignorar a situação
em que chegamos. Já estamos enfrentando o problema da água,
da energia, da violência, da fome. O planeta está à
margem de um colapso." Educação
ambiental, na visão de Maria Inês, é um processo educativo,
contínuo, que visa a construção e compreensão
do conhecimento, o resgate e a reconstrução de valores éticos,
o respeito às diferenças culturais, a sustentabilidade e
a transformação social. Maria Inês se detém na finalidade dos PCN e não no conteúdo: "É uma boa iniciativa, mas que precisa estar em constante avaliação e, mais do que isso, buscar sustentação em uma política nacional de formação de professores. Não me refiro a cursos pontuais e desarticulados de capacitações, mas a uma política com princípios na formação contínua, em exercício e na reconstrução da identidade profissional. Acredito que só com uma boa formação de professores os PCN serão mais bem utilizados."
Escolas e ONGs se unem pela qualidade de vida Diversas ONGs se engajaram no trabalho de educação ecológica. O programa do Pólo de Educação Ambiental da Mata atlântica – Mosteiro Zen, em Morro da Vargem (ES) –, dá suporte ao planejamento das atividades das escolas públicas. Foi fundado pelo mosteiro budista, órgãos públicos, Companhia Vale do Rio Doce e Aracruz Acelulose, em 1992, na época da ECO-92, para conservar e preservar importantes áreas remanescentes da Mata atlântica.
As dificuldades de
implantação foram semelhantes às encontradas em outras
escolas: "O maior obstáculo foi conseguir um tempo complementar
para os professores se dedicarem à capacitação, diante
da sobrecarga que já possuem para cumprir outras tantas exigências
curriculares." No caso do projeto do Mosteiro Zen, a saída
foi o engajamento dos professores e diretores de escolas. Os resultados compensaram
as barreiras, destaca Ana Flávia: "A partir de um diagnóstico
ambiental e da discussão de problemas locais, os alunos e professores
colaboraram em um plano de ação para contribuir com o desenvolvimento
sustentável da região." Outro projeto que
ganhou repercussão foi o Prolata, iniciativa do Sindicato de Estamparia
de Metais do Estado de São Paulo e Cia. Siderúrgica Nacional
(CSN). Em parceria com a Secretaria de Educação do Estado
de São Paulo, o Prolata vem desenvolvendo um projeto inovador na
área de educação ambiental nas escolas. Até
o momento já realizou 180 oficinas, envolvendo 3 mil professores
e 100 mil alunos da capital e do interior de São Paulo. Nas oficinas,
voltadas para as redes pública e privada, são discutidas
questões de reciclagem de embalagem e educação ambiental.
No ano passado, a
entidade lançou uma série de materiais didáticos.
"Para preservar o meio ambiente é necessário informação
que resulte em melhor qualidade de vida para você, para o seu semelhante
e para as futuras gerações", ensina Roberto José
Reis Pinto, coordenador de marketing do Prolata. Nas escolas, o tema
educação ambiental é cada vez mais comum nos currículos
ou em atividades extracurriculares. O colégio Santa Maria optou
por desenvolver projetos para cada faixa etária. Cada um com desafios
de cuidar, limpar, plantar e replantar numa praça da comunidade,
e, ainda, coleta seletiva de lixo. "Foi um trabalho planejado e interdisciplinar",
conta Nanci Airoldi, coordenadora de ensino fundamental. "Esperamos
atingir o aluno de forma global, trabalhando conceitos, procedimentos
e atitudes que o façam sentir-se como agente desencadeador de ações
que terão efeitos no planeta e não apenas no seu entorno."
Nesse sentido, o aluno é desafiado a buscar alternativas para os
problemas do lixo no colégio, para a diminuição do
volume de lixo diário e para a conservação do não-desperdício",
relata a coordenadora.
No Colégio
Magno, um dos objetivos da educação ambiental é envolver
as disciplinas. Para isso, foram criados espaços que favoreçam
o trabalho integrado. Um exemplo é o núcleo ambiental, onde
existe uma sala de artes, um observatório astronômico e os
laboratórios com aquários de água doce. "Água,
energia e consumo são exemplos de temas que são trabalhados
em diferentes disciplinas e que interferem diretamente no cotidiano dos
alunos", relata Fernando Louzada, coordenador pedagógico.
Outra ação semelhante acontece no Colégio Santo Américo. Para a quinta série, o conteúdo programático do colégio aborda o tema do lixo. Depois de várias pesquisas e palestras, os próprios alunos montaram páginas falando do tema na internet (www.csasp.g12.br). Na última Semana do Meio Ambiente, a escola coletou 11 toneladas de lixo. "Os resultados obtidos são surpreendentes nos alunos na faixa de 10 e 11 anos", afirma Maria Emilia Cavalcanti Vieira, supervisora de Ciências. "Quanto mais cedo implantamos a idéia, mais tempo teremos para amadurecê-la e melhorá-la." (JMR)
O progresso de mãos dadas com a natureza. Essa é a imagem que indústrias responsáveis buscam ao conciliar o crescimento econômico e social com o equilíbrio ecológico. E procuram transmitir o conceito para toda a comunidade. O Sesi, entidade sustentada pela indústria, produziu em 1998 um conjunto educativo formado por revistas e CDs com temas ligados à ecologia. A coleção Sesinho – que aborda também outros assuntos educativos – foi distribuída para todas as unidades de educação infantil do Sesi, formada por uma rede de 180 unidades (72 mil alunos). "Nosso objetivo foi oferecer aos professores mais um recurso didático para poder abordar a questão da ecologia", destaca Belmira Cunha, gerente do projeto Sesinho. "É um tema de cidadania com o qual a criança precisa se inteirar desde cedo", complementa. Iniciativas para gestão
ambiental crescem nas empresas, envolvendo novas tecnologias e treinamento
dos recursos humanos. A Declaração de Princípios
da Indústria para o Desenvolvimento Sustentável, elaborada
pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), recomenda
em seu primeiro artigo "promover a efetiva participação
proativa do setor industrial, em conjunto com a sociedade, os parlamentares,
o governo e as organizações não-governamentais no
sentido de desenvolver e aperfeiçoar leis, regulamentos e padrões
ambientais". Ou seja, a responsabilidade é de toda a sociedade,
que deve unir esforços em prol da qualidade de vida. "A CNI considera
essencial que as indústrias, fundamentadas no conceito de desenvolvimento
sustentável, desenvolvam suas atividades compromissadas com a proteção
do meio ambiente, a saúde, a segurança e o bem-estar dos
seus trabalhadores e das comunidades", ressalta Carlos Regazzi Filho,
técnico da Unidade de Gestão Empresarial da CNI, avaliando
em franco crescimento o atual estágio de responsabilidade ambiental
nas empresas. A preservação
do meio ambiente também está entre os principais valores
da Alcan Brasil, empresa especializada na indústria do alumínio,
com filiais nas cidades de Utinga, Aratu, Ouro Preto, em Minas Gerais
e Mauá e Pindamonhangaba, em São Paulo. Em 2000, a unidade
de Mauá recebeu certificado ISO 14001 expedido pelo órgão
certificador ABS (American Bureau of Shipping – Quality Evaluation) dos
EUA. A iniciativa extrapola os muros da empresa e busca a conscientização da comunidade. O programa A Sociedade do Amanhã, implantado em 1997, objetiva estimular a educação ambiental desde cedo, formando gerações futuras mais responsáveis e envolvendo treinamentos constantes de professores, motivação e comprometimento de inúmeros alunos. Em parceria com os
governos municipais, estaduais e escolas particulares, o programa de educação
ambiental da Alcoa consiste em uma metodologia de ensino específica
para alunos da primeira à quarta série do ensino fundamental,
estruturada para criar a consciência sobre a preservação
ambiental junto às crianças e reforçar o conceito
de que o desenvolvimento e o respeito à natureza podem caminhar
lado a lado. "Muitos problemas
ambientais, que à primeira vista parecem complicados, podem se
tornar de simples solução, desde que haja algum investimento
em educação ambiental dentro da companhia e na comunidade
vizinha", defende Lênia Ribeiro de Souza Vieira, engenheira
civil sanitarista com mestrado em saneamento e meio ambiente pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Este investimento,
dentro das empresas, se transforma num completo programa educacional incluindo
material didático-pedagógico e pode ser adotado com eficácia
e ser adaptado às necessidades de qualquer organização,
com simplicidade e baixo custo. "A educação ambiental
conduz os profissionais a uma mudança de comportamento e atitudes
em relação ao meio ambiente interno e externo às
organizações", destaca Lênia. "A educação
nas empresas tem um papel muito importante, porque desperta cada funcionário
para a ação e a busca de soluções concretas
para os problemas ambientais que ocorrem, principalmente, no seu dia-a-dia,
no seu local de trabalho, na execução de sua tarefa, portanto,
onde ele tem poder de atuação para a melhoria da qualidade
ambiental dele e dos colegas", comenta. Lênia ressalta
ainda que, nas indústrias, a educação ambiental é
um instrumento eficaz no controle da poluição. "Nesses
empreendimentos, o controle da poluição deve começar
no processo, estando também parte desta responsabilidade nas mãos
dos trabalhadores, pois os mantêm envolvidos diretamente na produção."
Infelizmente nem tudo são flores no complexo e pragmático mundo dos negócios. Algumas empresas, principalmente as que trabalham com produtos químicos, costumam qualificar os problemas de poluição e agressão à natureza com o curioso termo "passivo ambiental". É mais que uma definição. Remete o problema ao passado, e a solução para o futuro. Alguém precisa fazer a lição de casa. (JMR) |
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