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Fábrica
de lobos Simulação do funcionamento de órgãos internacionais permite que estudantes exercitem o jogo das relações institucionais Leia
mais: Compreender como funcionam os órgãos multilaterais (Organização das Nações Unidas, Banco Mundial, Organização dos Estados Americanos) que regem o mundo; conhecer os interesses políticos e a cultura dos diferentes países que integram a ONU; desenvolver as capacidades individuais de oratória e tolerância. São esses alguns dos ensinamentos que os modelos de organizações internacionais oferecem aos estudantes que deles participam. Muito utilizado no exterior, principalmente nos países ocidentais do hemisfério norte, esse instrumento pedagógico aos poucos começa a ser difundido no Brasil. Exemplo disso foi a realização em Belo Horizonte, no início deste ano, do 11º Harvard World Model United Nations (WorldMUN), principal evento do gênero, promovido anualmente pela universidade norte-americana em diferentes países do globo. Durante cinco dias, cerca de 600 jovens, de mais de 50 países (Bermudas, Ghana, Argentina, Equador, Itália, Croácia, Bélgica, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Brasil, entre outros), se reuniram no luxuoso Ouro Minas Hotel para brincar de resolver os dilemas da humanidade. Discutiu-se o perene conflito entre judeus e palestinos no Oriente Médio, a criação da Área de Livre Comércio das Américas e o proclamado avanço do terrorismo no mundo, entre outros temas da pauta que rege, atualmente, o debate dos líderes diplomáticos. Ao término do encontro, os estudantes apresentaram uma lista de resoluções e, como ocorre anualmente, produziram um documento a ser enviado para a sede da ONU, em Washington, EUA. Mas nestes 11 anos em que o modelo da universidade de Harvard vem sendo realizado, as Nações Unidas nem sequer se preocuparam em dar um retorno aos jovens. O que, de fato, não importa, posto que o objetivo dos modelos não é diretamente interferir na política internacional. Pretende-se, com eles, na definição dos organizadores, desenvolver a cidadania global. Conforme Paulo Esteves,
coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC de
Belo Horizonte, instituição parceira de Harvard na promoção
do WorldMUN 2002, as simulações são instrumentos
pedagógicos. Entre outras virtudes, elas apresentam ao aluno, independentemente
de sua situação social, a face da frustração.
"Quando os estudantes simulam discussões que visam à
melhoria da humanidade em âmbitos institucionais que, na maioria
das vezes, não têm autonomia para resolvê-los, eles
tomam contato com a injustiça e percebem o quão difícil
é chegar a uma solução", afirma. Ana Paula Meireles
de Oliveira, de 18 anos, estudante de Relações Internacionais
da PUC-BH, compreende exatamente a visão de Esteves. "O pior
é que a gente discute, discute, vem um fulano e veta tudo",
desabafa a garota, referindo-se ao Conselho de Segurança da ONU,
órgão responsável pelas principais decisões
da instituição. Ana Paula não é marinheira
de primeira viagem. No ano passado, participou do Mini-ONU, modelo de
organizações internacionais criado pela PUC-BH para escolas
de ensino médio. Nos Estados Unidos, os modelos são bastante
difundidos nas high schools. Cerca de 250 mil estudantes têm acesso
a esse tipo de programa. No Brasil, a PUC mineira é pioneira na
difusão dos modelos para estudantes secundaristas. A Universidade
de Brasília realiza, há cinco anos, o Americas Model United
Nation (Amun), e a PUC de São Paulo promove, há três,
o MONU-PUC, mas ambos são restritos aos universitários.
Durante o WorldMUN, Ana Paula integrou a delegação do Chade,
ex-colônia francesa localizada na África Central. Essa é uma
realidade dos modelos: nenhum participante pode defender o seu país
de origem. Dessa forma, o aluno, antes de participar dos debates, precisa
mergulhar na realidade da nação a qual irá representar
e descobrir quais os interesses que ditam a sua política internacional.
Isso se bifurca em dois paradoxos: o país que ele representa muitas
vezes não tem interesse em modificar a situação de
injustiça, por mais que ele queira; se o país que ele representa
tem o interesse de modificar a situação, muitas vezes não
tem poder para tanto. Sendo assim, o estudante percebe que: a perspectiva
universal é vazada pela ótica dos interesses particulares;
a regra do jogo é tão importante quanto o jogo. Ou seja,
é preponderante pensar a instituição no que ela pode
ser transformada. Isso impede, segundo Esteves, que os modelos de simulação sejam apenas "fábricas de lobos". Ou seja, é inegável que eles irão formar diplomatas, analistas internacionais e políticos dispostos a manter o status quo. No entanto, neles também surgirão profissionais dispostos a alterar e melhorar a lógica do cenário internacional e das instituições que hoje existem. "Na minha visão, o atual desafio do mundo é entender como pessoas diferentes conseguem conviver em conflito, sem se matarem, tolerando umas as outras, e produzindo resultados que são do interesse geral", idealiza o professor.
Jornal feito por estudantes reproduz erros e excessos da imprensa Paulo
Esteves, coordenador do curso de Relações Internacionais
da PUC-Minas, é um entusiasta dos modelos de organizações
internacionais. Participou de alguns, promoveu outros, mas uma experiência,
revela ele, chamou a sua atenção durante a realização
do Harvard WorldMUN: um grupo de alunos da PUC-BH ficou responsável
por fazer a cobertura jornalística do evento. Para tanto, criaram
um boletim, escrito em inglês (Primal Times). Durante os cinco dias,
os jovens estudantes reproduziram os erros e acertos do que se convencionou
chamar de grande imprensa e perceberam, na pele, o poder de construção
e destruição da mídia. Conforme Esteves, esse é
um ótimo exemplo para entender o funcionamento dos modelos. Paulo Esteves
– Algumas pessoas durante a simulação perdem a noção
da realidade. O cara fica enfiado dentro de um comitê oito horas
por dia e acaba deixando de compreender a realidade. O grupo responsável
pelo boletim pertence ao curso de Relações Internacionais
da PUC. Eles têm uma editora, ou seja, eles já produzem uma
revista. Ficaram responsáveis por fazer toda a cobertura do evento,
mas não perceberam, num primeiro momento, a responsabilidade que
isso implica. Por isso, tiveram que lidar com a repercussão direta
de seus atos. Eu acho esse exercício bacana, porque permite ao
estudante descobrir quais são os limites colocados pelas próprias
instituições com as quais eles estão mexendo. Eu
posso dizer uma enorme mentira falando apenas verdades. É importante
que esses meninos estejam topando com esses dilemas agora. O que é
real e o que é ficcional? Como as pessoas entendem esse ficcional?
Mais do que você imaginar como seria uma notícia de jornal,
é você ter em mãos uma simulação dessa
cobertura e os efeitos diretos que ela produz no cotidiano das pessoas.
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