Está evidente
que nestas próximas eleições os candidatos majoritários
vão se apresentar com discursos muito parecidos. Mais do que a
maturação de um hipotético consenso nacional sobre
os problemas do país, isso significa que programas de governo passaram
a ser uma camada fina e superficial, um adendo pelo qual não será
possível identificar a coloração dos postulantes,
suas intenções, nossos eventuais destinos.
Candidatos de oposição
elaboram plataformas sem rupturas. Situacionistas, por sua vez, levantam
bandeiras típicas de quem está fora do poder. Um claro fenômeno
de marketing político, esse assemelhamento intencional, longe de
ser uma vantagem, é um retrocesso para a democracia. A distinção,
a pluralidade, o confronto de idéias são a própria
razão de ser do processo eleitoral. Se não há diferenças,
prescinde-se da escolha, tanto faz. O único aspecto determinante
passou a ser a imagem que os candidatos conseguem construir, em sintonia
com as demandas imediatas do imaginário popular. Gatos e lebres
saltitam pelo mesmo bosque.
Muito já se
falou e escreveu sobre as conseqüências de deixar a cargo de
publicitários a tarefa de comunicar ao eleitor propostas de governo.
Futuros presidentes e governadores são tratados como mercadorias
expostas nas prateleiras da cidadania. Mas isso já é um
fato, aparentemente, irreversível. São as novas regras do
jogo, goste-se ou não.
Ao cidadão,
cabe entender que aumentou o grau de dificuldade na hora de definir seu
voto. Por mais semelhantes que sejam, quando no poder, os verdadeiros
(e ocultos) interesses vão prevalecer. Quem não conseguir
enxergar além da propaganda, do simulacro, corre o risco de vir
a ser governado por alguém vagamente familiar, mas que se revelará
um estranho. Um engano.
PS: Nesta edição,
convidamos todos os pré-candidatos à Presidência da
República a expor suas idéias em artigos, que podem ser
lidos a partir da página 30. O pré-candidato do Prona, Enéas
Carneiro, declinou do convite.