Professora
e diretora de teatro fala sobre os benefícios da arte na formação
das crianças
Nascida no sertão
da Bahia, "em meio à caatinga", Eugênia Thereza
de Andrade desde criança quis atuar como professora. "Era
uma profissão de prestígio", lembra, principalmente
para uma menina de família pobre, 11 irmãos. Mal terminou
a Escola de Teatro da Universidade da Bahia, em Salvador, veio sozinha
e decidida para São Paulo, em 1965, no início da ditadura
militar.
Eugênia começou
a dar aulas numa época em que não havia livros sobre arte-educação,
professores brigavam contra a sistematização do conteúdo
e ator era sinônimo de marginal. Mesmo assim, ou talvez por isso,
nunca mais deixou os palcos e suas cercanias, as salas de aula. "Leciono
há 36 anos", orgulha-se a diretora de teatro. Introdutora
no Brasil do método Laban de expressão corporal no currículo
escolar, Eugênia aprendeu a planejar aulas e a lidar com alunos
tímidos, exibidos ou indisciplinados. Hoje, é cautelosa
frente a um virtuoso: "Todo educador deve fazer críticas e
elogios discretos." Da mesma forma que mantém o sotaque nordestino
e as convicções marxistas, Eugênia cultiva a determinação
de que a arte transforma o ser humano e é fonte inspiradora da
liberdade.
Educação Quando você começou a dar aulas
de teatro? Eugênia Thereza de Andrade Comecei com crianças,
em 1967, na Escola Experimental Morumbi, em São Paulo (SP). Tive
intuição e lucidez de não "psicologizar",
nem transformar crianças em pequenos atores. Na época, eu
não tinha nenhum fundamento, não existiam livros, tive de
ir inventando. Depois, fui chamada por outra escola, dei aula em um ateliê.
Descobri que havia em São Paulo uma professora que dava aula de
Rudolfo Laban [1879-1958], e eu não conhecia bem o trabalho dele.
Estudei seis anos e, até hoje, Laban faz parte da minha prática
cotidiana. Juntei os conceitos de Laban com Stanislavski [russo, criador
do método de preparação para atores].
Educação Quais são os fundamentos de Laban?
Eugênia Ele foi um coreógrafo húngaro,
arquiteto de formação, que viveu no século XX e tinha
uma posição política bastante progressista. Laban
achava que dança não podia ser uma atividade somente do
dançarino. Ele estudou a essência do movimento, pesquisou
trabalhos primitivos, como ceifar, cortar lenha, bordar. E observou o
processo de desenvolvimento da criança, do gestual à maturidade.
Pesquisou por 20 anos os movimentos de dançarinos e acrobatas,
observou pessoas no cotidiano e numa linha de montagem. Ele viu que no
movimento existem alguns fatores permanentes, como energia, esforço
empregado, ritmo, trajetória, natureza da fluência se é
um gesto mais controlado ou mais livre. O estudo dele é revolucionário
e atual até hoje.
Educação Essa base é adequada para o trabalho
com crianças?
Eugênia Claro. Laban viu que qualquer movimento, seja o
de um acrobata ou de um dançarino, é decorrência de
um treino sistemático. Mas qual a diferença entre o movimento
de um dançarino e um simples gesto de cortar batatas? É
a maneira como a expressão e o repertório são organizados.
Ele queria provar que se na ação existem esses fatores,
inerentes ao gesto humano e também contidos na natureza e no animal,
então, a dança não poderia ser privilégio
do dançarino. Ele sistematizou todas as ações de
movimento para criar procedimentos para os dançarinos, para as
crianças em recreação, para quem vai fazer acrobacia
e ginástica, para operários e qualquer pessoa que queira
se beneficiar.
Educação O que é mais importante: estimular
na criança o contato com o teatro ou montar um espetáculo?
Eugênia O raciocínio do dono da escola acho que
não deve ter mudado muito era de se treinar as crianças
para fazer uma pecinha no final do ano. Quando comecei a dar aulas, já
disse que não faria isso. E a diretora da escola aceitou.
Educação Como o teatro pode ajudar no desenvolvimento
da criança?
Eugênia No processo educacional, o contato com as linguagens
expressivas tem um caráter lúdico, é a realização
da fantasia da afetividade. Para a criança, todo mundo de quem
ela gosta é bonito. As razões estéticas dela são
do mundo afetivo. Já que eu dava aula, o teatro e a expressão
corporal tiveram objetivos educacionais. É importante estimular
a imaginação, organizar o pensamento que é abstrato,
como o teatro e, antes de qualquer coisa, ter disponibilidade para o
corpo, fazer aquilo sem o caráter de exibição ou
competição.
Educação Como foi a experiência de dar aulas
de teatro durante a ditadura?
Eugênia Eu me candidatei à Escola Experimental da
Lapa. Ela foi muito importante porque resistiu à ditadura. Lá,
dei aula para filhos de industriais e meninos que vinham da favela. Quando
comecei um trabalho lá, os alunos já tinham aulas de expressão,
além de artes plásticas e música. Mas a diretoria
tinha decidido que ou alguém fundamentava aquilo ou eles tiravam
as aulas. As escolas não eram obrigadas a seguir o currículo
da Secretaria, elas faziam o próprio currículo. E o que
estava sendo dado na Experimental da Lapa era algo de muita liberdade,
mas de uma liberdade equivocada, um laissez faire [deixe fazer]. Não
havia livros de teatro para a educação. Fui observar a atividade
ali mesmo e sistematizar. Na Experimental da Lapa, teatro tinha prestígio,
eu tinha carga horária igual a português e matemática.
Educação Como você avaliava os alunos?
Eugênia A promoção dos alunos não
era por nota, eram conselhos que decidiam. Precisei de ajuda para me organizar,
achava que não era possível sistematizar o conteúdo.
É uma limitação que nós, artistas, temos,
de achar que com planejamento não tem criatividade, já que
tudo tem de ser espontâneo. Destacaram uma pedagoga muito capaz
para me ajudar a organizar e sistematizar. Foi ótimo, virei professora
de arte, sei fazer planejamento. No começo, fiquei com receio,
mas ela falou: "Eugênia, seu trabalho é valioso, eu
não vou mexer." Tenho tudo documentado.
Educação O contato com a arte na escola é uma
necessidade ou uma opção?
Eugênia Acho que arte, literatura, história, música
são necessidades vitais. Não é para ocupar o tempo,
ser um enfeite ou, como dizem pais e educadores, "cabeça vazia,
oficina do demônio". Os pais me procuravam no estúdio
dizendo: "Quero que meu filho fique ocupado, sem tempo livre, é
para gastar energia." Isso é uma visão muito tosca
do ser humano. Uma pessoa precisa ter tempo livre. Para fazer o quê?
Nada. Para ficar pensando. Mas daquele tempo para cá mudou muito
o comportamento das crianças. Eu nunca tinha visto criança
ansiosa. Hoje é comum. Muitos pais colocam um excesso de atividades
para os filhos, mas não vejo melhora.
Educação Há crianças que não gostam
de teatro?
Eugênia Muitas. Existem várias formas de expressar
esse não querer: excesso de timidez, negação, agressividade.
Sempre tive uma postura de não usar recursos de sedução.
Uma criança com um mínimo de saúde mental não
aceita, mesmo que seja criada em um ambiente de chantagem. Não
é bom nem pressionar, nem seduzir. Assim, a criança vai
participar de alguma maneira. Não se participa só fazendo.
Ela vê, num determinado momento dá opinião, em outro,
sorri; depois, você chama para colar um papel. Quem dá aulas
para criança tem que ter a capacidade de dispor de si para entrar
em contato com o outro. No mesmo nível.
Educação Como se identifica em uma criança o
talento para teatro?
Eugênia Talentosa é aquela pessoa que destoa, que
tem respostas originais, seja nos gestos, no que ela fala ou nas soluções
que ela dá. É papel do educador não colocar expectativa
sobre essa criança. Acho que todo educador deve fazer elogios discretos
e reprovações discretas. Esse é o segredo para se
desenvolver uma atividade expressiva. É um ambiente não
competitivo, de aceitação. Tem que haver aquele espaço
no qual o indivíduo não aceita porque é bonitinho
aceitar, não é uma coisa caridosa. Também é
preciso lidar com as competições que surgem, as necessidades
de afirmação.
Educação Como trabalhar o estímulo, então?
Eugênia Quando você reforça o elogio para
aquele que é criativo, você planta uma semente de estereotipia.
Porque existe na criança o desejo de que, ao se expressar, ela
seja amada, que é o desejo do homem. Se você elogia em excesso,
ela passa a repetir aquilo. Isso é comum, com desenho, por exemplo.
A família diz "que bonito que você fez". Para ser
aceita, então, a criança começa a repetir aquele
desenho. O elogio é necessário, mas é preciso conversar
também com aquele que teve dificuldade. Os meus alunos que tinham
mais talento não foram os que, necessariamente, seguiram carreira
artística. Existem pessoas muito criativas que fazem coisas com
intenção de serem lúdicas, de brincadeira. Sem o
caráter de exibição.
Educação
É difícil lidar com a timidez das crianças?
Eugênia É muito mais fácil dar aula para
uma pessoa tímida. Eu adoro. A timidez não é defeito,
é uma característica de personalidade. A maioria dos tímidos
é expressiva.
Educação Muitas crianças querem ser artistas,
não por vocação, mas atraídas pela expectativa
de fama e sucesso. Eugênia Acho isso uma tragédia. Veicula-se um
modelo que diz que ser artista é uma coisa fácil, não
é um ofício. Identifica-se talento como uma desinibição,
como uma capacidade de se expor com facilidade, quase uma não-vergonha,
um despudor. É gravíssimo. A busca da fama a qualquer preço
é uma deformação que me preocupa. Meninas posam nuas
e acham que isso é um trabalho artístico como outro qualquer.
Precisa aparecer alguém, com suficiente clareza, lucidez e coragem
para dizer: "Não é artístico, se você
quer tirar a roupa, tire. Agora, você ficar com a genitália
de fora não vai te ensinar a fazer Ofélia [personagem de
Shakespeare]". Se num filme ou numa peça é preciso
ficar nua ou fazer uma cena de sexo com violência, você está
fazendo um papel. Eu acho que o exercício de ser artista, principalmente
no teatro, exige muita lucidez. Quando um pai me encaminha seu filho porque
está passando mal, eu primeiro encaminho o garoto para terapia.
Educação O que motiva esse apelo pelo sucesso rápido
e a qualquer preço?
Eugênia Eu quis ser professora porque, para mim, era um
trabalho de muito prestígio. Hoje, com um salário desses,
que criança quer ser professora? Ela quer ser apresentadora de
TV, ficar rica, ter carro, ser loira todos são loiros. É
tão grave, que meninas se submetem a cirurgias plásticas,
verdadeiras mutilações da alma, no desespero de atingir
um corpo idealizado pela mídia. É um país que tem
uma crise de identidade muito grande.
Educação É possível trabalhar com alunos
indisciplinados?
Eugênia Eu dava aulas numa escola de freiras "modernas".
Existia uma madre, muito repressora, que colocou teatro porque fazia parte
do que ela julgava ser moderno. Eu dava aulas na educação
infantil e um dia cheguei para fazer bichos. Conversava com cada uma das
crianças, perguntava de que bicho elas gostavam, se já tinham
ido ao zoológico, a um sítio, se conheciam os bichos de
desenhos e fotografias. Elas imaginavam o que dizia o bicho, depois imitavam,
descreviam sentimentos. Tinha um menino, o Andrezinho, que era um terror.
Na hora de escolher o bicho, ele disse: "Eu quero fazer um caralho."
Sentei bem perto dele, as crianças riam porque sabiam que era um
palavrão. Eu disse: "Andrezinho, me diga, seu caralho é
de que tamanho?" Ele disse: "Ah, tia, o meu é assim,
tipo uma onça." Fui construindo o bicho com ele. Quando fomos
colocar os bichos em seu habitat, perguntei: "O seu caralho vai habitar
onde?" Ele disse: "Oh, tia, não quero mais que ele se
chame assim."