Depois que a empresa
da Roseana Sarney e do marido, Jorge Murad, recebeu a visita da polícia,
o jornal comentou a confusão. O comentário começou
com um gordíssimo período: "São Luís
– A Lunus Serviços e Participações, empresa da governadora
Roseana Sarney e de seu marido e gerente de Planejamento Jorge Murad que
a Polícia Federal invadiu há dez dias, em busca de documentos
que ligassem o casal aos desvios de recursos da Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), é apenas uma peça
de um intrincado jogo de xadrez que envolve negócios entre amigos,
parentes e grupos empresariais instalados no Estado."
Primeiro, estado,
divisão territorial interna, escreve-se com minúscula; no
caso se refere a Maranhão. O substantivo comum maranhão,
aliás, significa "mentira engenhosa, intriga, fofoca".
Segundo, o adjetivo
intrincado é variante de intricado; valem, portanto, as duas formas.
Terceiro, no textículo maranhense, a abundância de dados
intercalados mata o fôlego de qualquer um.
Quarto, nessa maranha
(confusão), tem-se a desairosa impressão de que a Polícia
Federal invadiu o Jorge Murad e não a sede da empresa. O que seria,
no mínimo, deselegante. Quinto, faltam vírgulas que separem
o aposto Jorge Murad. Aposto, como sabemos todos, amplia e explica o sentido
de um termo. Exemplo?
"O marido de
Roseana Sarney, Jorge Murad, imolou-se no altar do amor." O aposto
brilha sublinhado, assim como Murad brilhou na explicação
dada sobre os papéis e a bufunfa encontrados no escritório
da empresa dele e de sua senhora e rainha. Foi a sétima e penúltima
explicação da moçada maranhuda. Um verdadeiro maranhão.
É preciso ficar
claro que, quando o aposto se refere a um só elemento, tem de aparecer
isolado por vírgulas explicativas dessa singularidade. É
o que ocorre no muradiano exemplo acima. Portanto, no emaranhado textão
maranheiro, o aposto teria de vir necessariamente entre vírgulas,
para que se caracterizasse o doutor Murad como único marido e único
gerente de Planejamento da então governadora Roseana Sarney, a
única no Brasil a ter como sobrenome um apelido – Sarney. Por lá
também passou o Epitácio Cafeteira, outra glória.
Outro exemplo: "O
presidente da República, Fernandenrique Cardoso, governa sempre
para o bem da maioria da população." Fernandenrique
Cardoso é aposto isolado por ser o único presidente atual
do Brasil. E aposto sem vírgulas?
No texto original,
com o aposto sem vírgulas que isolem o doutor Murad e o cargo que
ocupava no proficiente governo maranhense, dá-se a entender que
há outro marido e gerente – cousa censurável por aqui.
Portanto, quando a
coisa (no bom sentido) for singular, merecerá figurar entre vírgulas
esclarecedoras de sua singularidade. Deixando de ser singular, perderá
o direito às vírgulas. É o que ocorrerá com
Fernandenrique quando descer do pedestal.
"O ex-presidente
da República Fernandenrique Cardoso pode orgulhar-se de que, em
seu governo, os bancos tiveram mais lucros do que em nenhum período
da história do mundo."
Josué Machado é jornalista e autor do livro Manual da
Falta de Estilo (Ed. Best Sellers)