Programa capacita
adolescentes para desenvolver projetos sociais em suas escolas e comunidades
Sandoval Rodrigues,
18 anos, nunca imaginou que um dia sairia da sala de aula para ajudar
a resolver os problemas de vazamento da escola em que estuda. Aluno da
Escola Estadual Padre Anchieta, zona leste de São Paulo, Sandoval
sempre conviveu com os constantes vazamentos que infiltravam suas paredes,
causando danos à infra-estrutura. Cansado dessa situação
e preocupado com o racionamento de água com que a região
sofre todos os anos, ele, juntamente com os seus colegas, desenvolveram
um projeto para solucionar os problemas hidráulicos da escola e
ainda conscientizar os demais alunos sobre o desperdício de água.
Isso só foi possível com a ajuda do Programa Aprendiz Comgás,
uma parceria entre a Companhia de Gás de São Paulo (Comgás)
e a Cidade Escola Aprendiz.
Criado no final do
ano passado, o programa ensina jovens a pôr em prática seus
próprios projetos de transformação social, sejam
eles consertar o encanamento da escola, discutir saúde, sexualidade,
violência e drogas, reformar uma praça ou então melhorar
uma biblioteca. "A idéia é desenvolver em cada jovem
competências e habilidades coletivas e individuais indispensáveis
para atuar na sociedade, promover a cidadania e preparar-se para a inserção
profissional", afirma Antenor Vaz, coordenador-geral do Programa
Aprendiz Comgás.
A primeira turma de
"aprendizes Comgás", composta de 62 adolescentes de ensino
médio de escolas públicas e particulares dos bairros Brás,
Mooca e Pinheiros, é responsável por 17 projetos que abordam
os temas artes cênicas, cultura, arte, lazer, ecologia urbana, intervenção
de espaços públicos e comunicação. Durante
seis meses, os jovens recebem orientação de uma equipe especializada
e participam de oficinas específicas que possam contribuir para
a mobilização de suas comunidades, organização
da equipe e captação de recursos para a implementação
dos trabalhos. "Os projetos são baseados nos problemas que
os estudantes encontram em sua comunidade. Eles querem mudar o que consideram
errado, transformando assim a realidade", afirma Vaz.
O processo de capacitação
envolve quatro estágios. O primeiro visa a trabalhar a identidade
de cada estudante, com questões relacionadas à auto-estima,
medos, realização pessoal e convívio social. A segunda
etapa do trabalho consiste na oportunidade de o grupo opinar e questionar
suas propostas de trabalho. Já o terceiro estágio propõe
a aquisição de habilidades de gestão, em que os "aprendizes
Comgás" aprendem a elaborar projetos e a articular parcerias
com a comunidade. Por fim, na última fase, cada grupo participará
de oficinas específicas de acordo com a sua proposta de ação.
Para a educadora de
meio ambiente Alessandra Bizerra, a relação que os aprendizes
estão tendo com a comunidade é fundamental, pois muitas
vezes eles têm vontade de agir e não sabem como. "Aos
poucos, os adolescentes criam vínculos com o espaço e as
pessoas e vão se reconhecendo, se identificando", acrescenta
Alessandra. Rodrigues sabe muito bem o que isso significa. Com seu projeto
em baixo do braço e acompanhado por um monitor do Aprendiz Comgás,
ele visita empresas, escolas e lojas interessadas em ajudar. "Já
consegui apoio de arquitetos e agora estou buscando cursos de qualificação
para aperfeiçoar meu trabalho", orgulha-se. O futuro "encanador"
procura patrocinadores que possam ajudá-lo na obtenção
de ferramentas e na continuidade do projeto. "Nossa idéia
é ajudar, além da escola, entidades que precisem do nosso
serviço gratuito", imagina Rodrigues.
As atividades de cada
grupo são supervisionadas por um monitor que tem a função
de facilitar o trabalho em questão. De acordo com Clésio
de Lima Sabino, um dos seis monitores do programa, durante o processo
de capacitação, os monitores ajudam à discussão
dos projetos, à pesquisa e à negociação de
parcerias, entre outras.
Os adolescentes também recebem acompanhamento dos professores da
escola em que estudam. Periodicamente, educadores e monitores do programa
reúnem-se com os professores das 11 escolas parceiras para avaliar
a dimensão do trabalho e o rendimento escolar dos alunos participantes.
Segundo Antenor Vaz,
a perspectiva é de que essa ação venha a colaborar
para a melhoria do ensino. É por isso que o enfoque metodológico
das oficinas oferecidas aos alunos está baseado no "aprender
fazendo". "A escola tem descoberto quanto ela está isolada
da comunidade. Assim, o Programa Aprendiz Comgás surge justamente
como um parceiro na busca de uma nova maneira de produzir o conhecimento,
em que o jovem é co-autor", explica o coordenador- geral do
programa.
Outro fator que deve
ser levado em consideração é o caráter multiplicador
do programa, lembra Paulo César Nunes de Souza, diretor-administrativo
da Comgás. "As habilidades adquiridas pelos adolescentes são
repassadas para seus amigos e suas famílias. Com isso, criamos
uma grande rede de informação e conhecimento, que poderá
ser útil mais tarde", garante. Vaz diz ainda que, mesmo após
o período de capacitação, os jovens irão receber
uma consultoria constante do Aprendiz Comgás, para que possam dar
continuidade aos projetos implementados.
Um exemplo disso é
o projeto Diga Não à Apatia, que quer lançar uma
campanha nas escolas sobre a importância do voluntariado. O grupo
produzirá um documentário que levará os alunos a
debater o tema. "A princípio, iremos trabalhar com três
escolas, mas pretendemos levar esse trabalho adiante mesmo depois de sairmos
do programa", diz Júlia Marina Casali, 17, aluna do Colégio
Oswald de Andrade. Ela se orgulha com a possibilidade de realizar algo
que lhe dê prazer e receber incentivos para isso. "No programa,
aprendi que as pessoas confiam no meu potencial. Você deixa de ser
vista somente como um problema e passa a fazer parte da solução."
Para Fernando Rossetti,
coordenador-geral da Cidade Escola Aprendiz, o Aprendiz Comgás
sintetiza o que é uma boa educação para o jovem no
século XXI. "Esse programa reúne tudo o que aprendemos
em termos pedagógicos nos nossos três anos e meio de vida,
que é a possibilidade de o jovem aprender sem ter de ficar sentado
em uma sala de aula", afirma. É importante, conta Rossetti,
que o jovem sinta que o 'fazer' dele tem uma repercussão social.