Reserva
ecológica prioriza educação como suporte para o desenvolvimento
sustentável
Na última cheia
do Rio Solimões, o professor Manuel João de Souza Filho
ficou dois meses em casa, no município de Tefé (AM). O mesmo
aconteceu com seus 36 alunos, que não puderam freqüentar as
aulas do Grupo Escolar Maranata, na comunidade do Barroso. O rio encobriu
mais de meio metro da escola.
A várzea do
Mamirauá (AM), onde está a pequena escola, fica no centro
do Amazonas, 600 km a oeste de Manaus. As centenas de lagos e rios que
compõem a região viram um só imenso lago, dois a
três meses por ano, quando o colossal Solimões chega a até
15 metros acima de seu nível normal e inunda florestas, casas e
escolas. É impossível andar em terra firme durante esse
período; a comunicação entre casas vizinhas é
feita de canoa.
É uma vida
dura, sem os recursos comuns a qualquer outra região. "A maior
dificuldade é o transporte. Geralmente, perco uma semana entre
receber o salário e deixá-lo com minha esposa", diz
Souza Filho. Parece exagero, mas não é: o professor sai
do Barroso num pequeno barco a motor, vai até um entreposto comercial,
onde espera até três horas pelo barco ("recreio")
que levará mais treze ou catorze horas para deixá-lo em
Tefé. Pernoita em casa e pega outro recreio até Uarini.
No terceiro dia, recebe seus R$ 340 e leva outro dia para voltar a Tefé.
Deixa o dinheiro com a mulher e, no dia seguinte, já pode embarcar
para o Barroso. Esse é o cálculo para condições
ideais, sem os freqüentes atrasos dos barcos. Isso quando Souza Filho
não dá uma justa "esticada" de 48 horas para matar
a saudade da esposa e das quatro filhas - é o único período
em que passa com a família no mês. Total: uma semana.
Nessas condições,
uma carona no barco da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
(RDSM) é valiosa. Criada em 1990 pelo governo do Amazonas para
preservar fauna e flora da região, a RDSM abrange toda a várzea,
formada pela confluência dos Rios Solimões e Japurá,
(11.240 km2 ou meio Estado de Sergipe). Trata-se da primeira reserva nesse
ecossistema do país, e integra um grupo de áreas úmidas
de importância mundial, visto que as florestas alagadas foram praticamente
dizimadas em outros continentes. A RDSM defende o desenvolvimento sustentável
mantendo a população em seu local de origem. Por isso, preocupa-se
em dar suporte à educação praticada nas comunidades.
Educação
ambiental - É pela escola que muitos conceitos de preservação
do meio ambiente entram na comunidade. "Nós apenas damos apoio
à educação convencional gerida pelo sistema público",
conta Elizabeth Lima da Gama, coordenadora do núcleo de educação
ambiental (NEA) da RDSM. O NEA dá ao professor subsídios
que vão complementar as aulas. "Minha experiência diz
que qualquer material voltado para a realidade local é apenas apoio;
precisa vir com os conhecimentos do ensino formal", acredita. Elisabeth
seleciona "textos geradores" para repassá-los aos professores
da reserva em forma de cartilhas, que inserem nas disciplinas tradicionais
(português, biologia, geografia etc.) noções de preservação
- de como se beneficiar das riquezas naturais, sem destruí-las.
Souza Filho dá
aulas para pessoas de todas as idades e agradece o auxílio dessa
cartilha de educação ambiental. De manhã, alfabetiza
alunos da 1ª série; à tarde, leciona para as demais
séries do ensino fundamental, totalizando 36 crianças e
adolescentes. À noite, é a vez dos jovens, adultos e (raros)
idosos, em séries difíceis de definir. Em aulas de todos
os níveis, a cartilha facilita a vida do mestre, relacionando conhecimento
teórico com o dia-a-dia dos alunos. Elaborada com base em estudos
específicos sobre a várzea, complementa os livros didáticos
indicados pela prefeitura de Uarini e pelo MEC.
Esse complemento é
essencial em Mamirauá dada a peculiaridade do lugar. O alagamento
anual transforma a região em viveiro de animais e vegetais raros,
altamente adaptados ao ciclo das cheias. O exótico macaco uacari-branco,
por exemplo, só existe lá. A água rica em nutrientes
atrai peixes como o tambaqui e o pirarucu, que por sua vez atraem pescadores
de muito longe. Árvores características da floresta alagada,
com populações bastante reduzidas em outros locais da várzea
amazônica ainda resistem na reserva. Todos esses fatores fazem do
morador daqui um privilegiado, responsável pela conservação
da biodiversidade do ecossistema.
Um privilegiado desamparado,
sem cidadania: 30% são analfabetos; a renda média anual
das famílias é de US$ 900, e cada mulher tem, em média,
oito filhos. Um quarto das crianças de até 5 anos é
desnutrido. Enfim, indicadores comparáveis aos dos piores países
do mundo. Tudo isso apesar do "jardim do paraíso" à
volta. Desde cedo, a RDSM viu na educação a opção
mais eficaz para transformar esse caboclo ribeirinho em cidadão.
É ele quem vai denunciar a entrada de pescadores ilegais, por exemplo,
e, mais importante, vai passar a preservar, mudando de hábitos.
Projetos - Cuidando
da Comunidade é uma das maneiras de começar. Trata-se de
um projeto idealizado pelo pessoal do NEA para ensinar conceitos que podem
melhorar a qualidade de vida nas vilas. Entra pela porta das escolas.
Insere na carga horária letiva noções de higiene
corporal, saúde e nutrição e de limpeza da comunidade
(com coleta seletiva de lixo, horta escolar, jardinagem, arborização
e educação ambiental para os pescadores locais).
Na Vila do Jarauá,
uma das cinco comunidades-pólo da reserva, a coleta seletiva de
lixo acontece uma vez por semana. As crianças vão à
rua da localidade com carrinhos de mão, colhem o lixo e o separam
para venda. O trabalho é coordenado pelo assistente comunitário
de educação ambiental, Antônio Daniel de Carvalho,
o "Seu Toinho", que é também o professor de educação
ambiental. "Queremos transformar o Jarauá em comunidade-modelo",
divulga. Com 59 anos, chegou a ver os pais matarem até 18 peixes-boi
num único dia, na época em que não havia nenhum tipo
de controle e conscientização sobre a necessidade de preservação
da fauna. Resultado: há poucos dias, em meio à aula, um
menino perguntou-lhe o que era um peixe-boi, pois o animal é hoje
raro na região. "Isso é culpa de nossos antepassados,
que não souberam pensar no dia de amanhã."
Seu Toinho tem o típico
perfil do antigo professor da área da reserva, o professor leigo.
Cursou somente até a 6ª série, concluída em
1950. Pequeno produtor rural, muitas vezes tinha de interromper as aulas
no meio do ano letivo para colher mandioca, fazer farinha e vender - antes
que a água levasse tudo. Por ser um dos líderes da vila,
freqüentemente ausentava-se para ajudar na solução
dos problemas do Jarauá em reuniões
comunitárias e idas a Tefé ou Alvarães. "Agora,
dou aula apenas às sextas-feiras; consigo fazer 4,5 mil kg de farinha
e ficou melhor para mim", diz.
A nova professora
é Neliane de Pinho, 24 anos, oriunda da sede do município
de Alvarães, ao qual pertence Jarauá. Fez magistério
na capital, Manaus, e a vila é sua primeira experiência no
interior. A princípio, ficou assustada ao saber que lecionaria
para diversas séries ao mesmo tempo (2ª, 3ª e 4ª
séries à tarde e alfabetização para adultos
à noite).
"Não tive treinamento para isso", admite. Logo aprendeu
a conviver com a adversidade, mas adverte: "O que eu não faço
é dar aula à noite sem luz elétrica." A seu
ver, a falta de um gerador na comunidade impossibilita a aula de alfabetização
para a qual está escalada. Apesar de ganhar para isso um adicional
que torna seu salário alto para os padrões da região
(R$ 600), a professora diz que não cede: "Enquanto não
tiver aqui um gerador que funcione, não dou aula à noite.
Ainda mais na alfabetização, em que você tem de pegar
na mão do aluno. O pessoal acha que é frescura, mas eu acho
que não é possível." Até essa entrevista,
a prefeitura de Alvarães havia mandado três motores diesel
para gerar energia. E o terceiro motor estava lá, parado, sem peça
de reposição para funcionar.
Outra comunidade-pólo
de Mamirauá, a Betel, reserva mais um exemplo. A vila teve de mudar
recentemente por causa da erosão do terreno onde estava assentada.
Com o auxílio da assistente de educação ambiental
Dora Lisboa de Brito, moradora da localidade, os ribeirinhos planejaram
a nova comunidade - onde seria cada casa, que distância haveria
entre elas etc. "Agora, na Nova Betel, todas as casas têm sua
horta, e os lugares comuns ganharam jardins e arborização",
comemora Elizabeth Gama. Segundo ela, o trabalho todo começou com
mães de crianças em idade escolar.
As comunidades-pólo
têm exatamente esse papel na implantação da RDSM.
São cinco, com influência em outras sete, totalizando doze
comunidades trabalhadas em educação ambiental. Nelas, o
trabalho da equipe da reserva é mais presente. Fazem parte dos
23 assentamentos situados dentro da área focal - "laboratórios"
em que a RDSM desenvolve seus métodos. Todos são unânimes
em dizer que a quantidade de peixes aumentou depois que a RDSM começou
a atuar. Mas nem todos cooperam, algumas comunidades mais arredias às
novas regras chegam até a "alugar" lagos próximos
para grandes barcos pesqueiros de Tefé e Manaus. Isso em troca
de mantimentos básicos cedidos pelos "peixeiros", como
café, açúcar, carne enlatada, arroz, feijão,
leite em pó.
Capacitação
- Aproveitando sua experiência como educadora, Beth Gama pôde
colaborar na solução de um problema que atinge várias
regiões carentes do país, e também as cidades do
médio Solimões: a capacitação dos professores
leigos, como Seu Toinho, figura que deixa de existir legalmente em 2002.
As prefeituras estão correndo para treinar seus mestres até
dezembro deste ano. Alvarães e Uarini juntaram-se para diminuir
as despesas de capacitação dos professores. Atualmente,
são 60 acabando de concluir o quinto módulo do programa
de formação, que equivale ao término do ensino fundamental
(muitos deles tinham menos do que a 4ª série). O sexto ao
décimo módulo correspondem ao ensino médio com formação
para o magistério. O professor intercala dois meses dando aula
em sua comunidade com dois meses aprendendo em Alvarães. "Ao
fim do curso, o professor estará capacitado legalmente para lecionar
da 1ª à 4ª série do ensino fundamental",
afirma Beth. A professora é autora do projeto do consórcio
entre os dois municípios e de todo o programa do curso na região,
pela proximidade com a secretaria de Educação de Alvarães.
Ela é também
assessora na secretaria, responsável pela escolha dos livros a
serem utilizados na sede e nas comunidades pertencentes à cidade.
"Isso ajuda muito o trabalho na reserva, pois nos livros de geografia
e ciências, por exemplo, priorizo os que tratam de meio ambiente
e ecologia", explica. Segundo ela, escolas de outros municípios
e mesmo estaduais do Amazonas solicitam os livros para suas bibliotecas.
"Apesar de também quererem dar ênfase à preservação
da natureza, essas secretarias adotam outros livros por considerar que
se trata de um assunto novo e difícil de trabalhar. Mas mostro
que dá para inserir conceitos de preservação da natureza
em qualquer disciplina, desde que haja abertura para isso."
A RDSM desenvolve
ainda outro projeto que pode incrementar o aprendizado das questões
ecológicas. Trata-se do Centro Itinerante, espécie de escola
flutuante que será construída sobre enormes toras de madeira
que bóiam na água, podendo ser levada para qualquer comunidade
dentro da reserva. O centro terá sala de aula, laboratório,
computação e instrumentos para taxidermização
de animais e vegetais da reserva. Terá também aulas de jardinagem
e horticultura.