Geógrafo
defende renovação continuada de professor
Cristiana
Couto
Geógrafo
defende renovação continuada de professores, melhoria de
materiais didáticos e atuação social de pesquisadores
Em salas de aula,
palestras, conferências e nos livros que produz - didáticos,
além das teses, ensaios e obras -, o vozeirão eloqüente
de Demétrio Magnoli brada pela visão da geografia como uma
gramática do mundo e não mero conhecimento de almanaque.
"Aluno tem interesse de sobra quando a geografia faz sentido",
diz o professor de 42 anos, que há duas décadas leciona
nos ensinos fundamental, médio e superior. Bacharel em ciências
sociais e jornalismo pela USP e mestre e doutor em geografia humana pelo
departamento de geografia da USP, Magnoli é defensor da publicação
de livros didáticos por pesquisadores e da saída dos geógrafos
de seus gabinetes em busca de uma atuação social mais efetiva.
Finalista do Prêmio Jabuti de 1997 com O Corpo da Pátria:
Imaginação Geográfica e Política Externa no
Brasil (1808-1912), Magnoli prepara dois livros voltados para o ensino
médio (ao mesmo tempo em que começa sua livre-docência):
Ensino de Geografia do Brasil e Geografia, Paisagem e Território.
Educação
- Quais são as questões mais relevantes hoje no ensino de
geografia? Demétrio Magnoli - Destacaria três. A primeira
é o desenvolvimento das linguagens específicas da geografia
e das linguagens que ela compartilha com outros campos do conhecimento.
Isso significa ler e interpretar mapas (o que não é fácil),
gráficos e tabelas comparativas. A segunda questão importante
é o reconhecimento do espaço geográfico como um espelho
do tempo, conceito crucial para o ensino moderno. Os alunos têm
de ser capazes de, no final do ensino médio, ver em duas paisagens
as marcas impressas de tempos diferentes. Quando se observa uma ferrovia
passando por uma cidade, deve-se saber que aqueles trilhos e galpões
ao redor são reflexos de um tempo em que a cidade se organizava
em torno de trilhos. E que uma autopista em torno da mesma cidade e um
cabo de fibra óptica passando em outro ponto dessa paisagem revelam
outro tempo histórico, em que a revolução da informação
se tornou fundamental. Isso revela a interface da geografia com a história.
Educação
- E a terceira questão? Magnoli - O terceiro aspecto é a
capacidade de relacionar os conteúdos da disciplina com os fatos
da atualidade. Um problema histórico dos professores de geografia
é a competição acirrada com a mídia. Informação,
todos têm, e abundante. O problema não é a informação,
mas sua interpretação. É esse o papel da escola:
dar um sentido a essa torrente de informações. Escola não
é para informar e sim inter-relacionar, coordenar esse conjunto
de informações que a mídia proporciona.
Educação
- Como está o ensino de geografia hoje? Magnoli - Em transformação.
O ensino tradicional de geografia tem algumas características:
a descrição de paisagens, o conceito limitante de região,
contaminado pela prática da memorização, e o caráter
fragmentário, que encara o espaço geográfico não
como uma totalidade de relações. As geografias urbana, política
e física parecem funcionar separadamente. É um ensino inerte,
pois a maioria dos professores foi formada assim. Até os vestibulares,
ainda que poucos, legitimam esse tipo de geografia. Mas estamos caminhando
para um ensino que coloca como problema principal a descoberta de relações
entre classes de fenômenos (políticos, sociais, econômicos)
e que se preocupa com o desenvolvimento da leitura de linguagens. Essas
mudanças estão em todos os lugares: nos melhores vestibulares
do país, em parte dos materiais didáticos e na prática
cotidiana dos professores de superar a própria formação.
Educação
- O que é preciso melhorar? Magnoli - Falta um processo de renovação
continuada. Em palestras e oficinas se tem pouco tempo, suficiente apenas
para despertar interesse e levantar questões. É pouco. Os
Estudos Avançados da USP - via faculdade de educação
- estão começando uma série de cursos de especialização
lato sensu para professores de várias áreas, com módulos
de pelo menos 32 horas e que vão durar até o fim do ano.
É preciso mais iniciativas desse tipo. Não basta criar os
Parâmetros Curriculares Nacionais nem um novo documento que mude
o ensino. Ensino é um processo. Precisa de orientação
continuada e de bons materiais didáticos.
Educação
- Como os alunos podem se interessar mais por geografia? Magnoli - Basta
fazer um ensino que tenha sentido, que mostre relações.
Essa geografia o interessa. O que nenhum aluno tem interesse é
na "decoreba" baseada na idéia de que os conteúdos
são apenas informações sobre a paisagem - isso está
em qualquer geografia de almanaque. Alunos têm interesse de sobra.
O que acontece é que o mundo está mais complexo e a qualificação
dos jovens para o mercado de trabalho é mais sofisticada. A tarefa
da escola ficou mais difícil. Os alunos de hoje aprendem mais do
que as gerações passadas o fizeram, pois as exigências
são maiores. Talvez haja falhas em alguns aprendizados formais,
como língua e matemática, mas a diversificação
de exigências e as exigências de inter-relações
são maiores agora.
Educação
- Qual é o erro mais freqüente dos professores? Magnoli -
É imaginar que as disciplinas podem ficar iguais, que é
só colocar uma cereja em cima desse bolo e integrar eventualmente
disciplinas - sem que elas incorporem essa idéia do diálogo
interdisciplinar (que não significa eliminar o que há de
específico e singular de cada uma). É preciso ver que dentro
de geografia existe história. Isto é, também, se
intimidar diante das mudanças. O professor que teve um curso fraco
na faculdade e com base em materiais antiquados teme a idéia de
transformação.
Educação
- Por que alguns alunos chegam à universidade com falhas graves
de geografia? Magnoli - Eles chegam com falhas graves em todas as disciplinas.
Isso tem relação com a estrutura do ensino fundamental e
médio que temos no Brasil há décadas. No caso da
geografia é porque, durante muito tempo, ela não fez sentido.
Se a geografia só serve para fazer prova porque é "decoreba",
a melhor atitude do aluno é esquecê-la depois da prova: isso
é uma atitude racional e o aluno não deve ser criticado
por isso. O que precisa ser criticado é o discurso que ele recebeu.
Mas se a geografia é vista como uma gramática do mundo,
um instrumento para decifrar relações, então ela
passa a ter sentido e o aluno vai se apropriar desse conhecimento, porque
ele é fundamental para as outras disciplinas e para sua vida.
Educação
- Quais os temas atuais da área que mais têm despertado interesse
dos alunos? Magnoli - Globalização e suas conseqüências;
as mudanças macroeconômicas do Brasil, como o processo de
abertura econômica, privatizações, sua inserção
no Mercosul e discussões regionais como a da Alca; conflitos políticos
contemporâneos; impactos ambientais das atividades econômicas
(agricultura, construção de hidrelétricas), este
último, um tema inter-relacional.
Educação
- Como os temas transversais ajudam o ensino de geografia? Magnoli - Uma
das coisas positivas dos PCN é procurar mostrar aos professores
como se realiza diálogos entre disciplinas. A lista desses temas
não é importante. O que vale é que a idéia
do diálogo entre as disciplinas seja incorporada à prática
pedagógica. Quando essa idéia for incorporada, não
vai ser necessário que nenhum documento oficial faça uma
lista de temas, porque qualquer professor vai saber fazer a sua, adequada
à sua escola e região.
Educação
- O que deve ser melhorado nos livros didáticos? Magnoli - A primeira
coisa é melhorar a relação do professor com o livro:
este não deve ser entendido como uma receita do curso, o professor
não deve fazer uma cópia de seu índice. O livro é
uma plataforma com base na qual é preciso criar uma aula. Seu curso
deve ter uma série de outros elementos: livros paradidáticos,
materiais de áudio, jornais, revistas, estudo do meio. A segunda
questão é o livro em si. Há uma série de erros
conceituais na maioria dos livros didáticos. Eles têm de
se modernizar, em conceitos e conteúdos - os autores têm
de estar por dentro do que hoje se produz na universidade - e devem ser
atualizados do ponto de vista de competências e habilidades. Não
basta desenvolver conteúdos, é preciso desenvolver a competência
de leitura de uma linguagem. A principal leitura dos professores não
é de livros acadêmicos, ensaios ou teses. Isso é leitura
de uma elite. A principal leitura é o livro escolar. E o Brasil
precisa mudar a forma de ver os livros didáticos. Na França
ou Espanha, livros escolares são escritos por acadêmicos
e essa atividade é vista como muito importante. Aqui, é
vista como uma atividade menor. É preciso criar uma ponte entre
pesquisa e ensino. A universidade precisa assumir sua responsabilidade
integral pelo ensino e ver o livro como uma parte de sua atividade.
Educação
- Como o governo pode ajudar a construir essa ponte? Magnoli - O MEC começou
a fazer avaliações dos livros didáticos. Só
que essa experiência começou errado, ao se criar uma comissão
de avaliadores do próprio MEC. Depois o MEC avançou, e atribuiu
às universidades a avaliação dos livros. Falta melhorar
mais: atribuir essa avaliação não a uma, mas a várias
universidades, pois é preciso que haja cruzamento de avaliações,
e de ideologias, para que o próprio avaliador seja avaliado. É
preciso criar um campo de debate sobre os livros didáticos.
Educação
- Quais as áreas de atuação do geógrafo? Magnoli
- Hoje, as áreas de ensino perdem procura. Mas o trabalho do geógrafo
é amplo. Envolve decisões locacionais de empresas, que precisam
de um parecer de geógrafo; em órgãos governamentais
como IBGE, que é dominado por economistas e deveria ter mais geógrafos;
em órgãos de planejamento regional como a Sudene, por exemplo.
Mas isso depende um pouco de os geógrafos se mexerem e provarem
que a geografia é necessária e socialmente importante, em
vez de apenas produzir pesquisas, também importantes, que circulam
somente no meio universitário.
Educação
- Sua posição, então, é de que a geografia
está numa fase de pesquisa de gabinete? Magnoli - A geografia universitária
no Brasil tem uma atuação social muito restrita. Basta ver
que, nos últimos cinco, seis anos, tivemos duas grandes conferências
da ONU - uma sobre assentamentos humanos e outra sobre população
- que deveriam ter gerado vasto debate nacional, mas tiveram participação
de pouquíssimos geógrafos. Uma parte da desvalorização
social da geografia é culpa dos geógrafos.
Educação
- Como o senhor vê o Brasil depois dos dados do último Censo?
Magnoli - O Brasil se modernizou com uma velocidade muito grande. Essa
modernização transparece na urbanização, na
metropolização, na difusão do trabalho assalariado
e na dissolução do trabalho familiar agrícola. Reflete-se
nas estruturas demográficas, na redução acelerada
do crescimento populacional em todas as classes sociais, na existência
de famílias menos numerosas e no crescimento das cidades médias,
que estão se transformando em grandes cidades. Esse conjunto de
transformações, a "modernização",
também gera exclusão social. É esse binômio,
modernização e exclusão, que os dados do IBGE refletem.
E o curso de geografia do Brasil, é em grande parte, a discussão
desse binômio. Os dados do Censo são umbelo material para
discussão em sala de aula.