Tratava-se
do anúncio de um evento cultural pouco importante em São
Paulo. Boa foi a frase com que o crítico se referiu por escrito
à exposição: Neste ano o evento pretende receber
milhares de visitantes. Deve ser por entusiasmo cultural que o tal crítico
animizou a exposição, deu-lhe vida, alma e vontade. Um evento
pode querer coisas? O evento pretende receber milhares de visitantes,
disse ele. Com menos do que os milhares de visitantes pretendidos, o evento
haveria de ficar irremediavelmente desolado.
Distração,
claro. Nem é grave. Se estivesse mais preocupado com a precisão
do comentário do que entusiasmado com a importância do evento,
o crítico não daria o antiestético escorregão
vernacular. Ele por certo quis dizer que os organizadores do evento o
haviam organizado tão bem e feito tão boa divulgação
que esperavam, eles, organizadores, que milhares de pessoas o prestigiassem.
Melhor
seria, portanto, ele ter escrito a frase duvidosa de outra forma. Neste
ano, os organizadores do evento esperam receber milhares de visitantes.
Ninguém pensará que os visitantes serão atraídos
pela graça e a inteligência dos organizadores, quiçá
beleza deles, e sim pelo elenco de atrações da exposição.
Ou não?
Brilho
de poliglota
Para
aproveitar a onda da festa cinematográfica do Oscar, uma empresa
fez publicar anúncio de meia página em jornal do Rio com
grandioso título: And the 'Oscar' go to... Hokkins!.
Embora
esta coluna trate de nossa amada língua, um texto monumental como
esse de meia página grita aos olhos e ouvidos até de monoglotas
convictos como o Itamar. Em que obscuro gueto do Harlem ou de Sapopemba
o amigo autor das bem-traçadas linhas supostamente anglicanas foi
descolar esse "... the 'Oscar' go to..."? Os distribuidores
de Oscar ou de quaisquer outros prêmios na terra do cowboy George
W. Bush costumam dizer "The Oscar goes to...", na terceira pessoa
do singular. O que o poliglótico redator escreveu equivale aos
versos de Adoniran Barbosa em Samba do Arnesto:
"O Arnesto nus convidô
Pru samba, ele mora no Brais.
Nóis fumo e num incontremo ninguém
Nóis fiquemo cuma baita duma reiva
Da otra veiz nóis num vai mais.
Nóis num semo tatu."
Assim que é bom: brilhar em português e também em
inglês. Inglês?
Relações
delicadas
Um simpático
repórter de rádio disse num dia destes que o trânsito
estava ruim "entre os quilômetros 45 a 60 da Rodovia dos Imigrantes".
Por que "entre" uma coisa "a" outra? Ele não
está só nesse pequeno desvio. Muitos deles, todos os dias,
distraídos, relacionam coisas dessa forma: entre uma coisa a outra.
Tem tanto sentido e graça quanto falar e escrever "Vamos de
São Paulo e Santos em uma hora" em vez de "Vamos de São
Paulo a Santos".
Seria
bom lembrarem-se todos de que tais relações ocorrem "entre"
uma coisa "e" outra. Sempre. Entre 10 e 15 anos, entre o quilômetro
20 e o 30, entre 7 e 9 horas, entre mim e ti e assim por diante.