Relembrar
as idéias de Paulo Freire é imprescindível
Quatro anos já
se passaram desde que, no final da madrugada de 2 de maio de 1997 (uma
sexta-feira, dia chamado de veneris no calendário romano da Antiguidade,
em homenagem a Vênus, deusa do Amor), aconteceu a morte do corpo
de Paulo Freire. Quatro anos sem ouvir, de viva voz, o Mestre nos alertando
para os riscos da complacência política e da conivência
ingênua.
Quatro anos sem escutar,
dito por ele mesmo, um verbo que preciosamente inventara: "miopisar".
Em
Paris, em 1986, ao
receber o Prêmio Educação para a Paz, da Unesco, disse:
"De anônimas gentes, sofridas gentes, exploradas gentes aprendi
sobretudo que a paz é fundamental, indispensável, mas que
a paz implica lutar por ela. A paz se cria, se constrói na e pela
superação de realidades sociais perversas. A paz se cria,
se constrói na construção incessante da justiça
social. Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de
educação para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das
injustiças, o torna opaco e tenta miopisar as suas vítimas."
Miopisar! Deixar míope,
dificultar a visão, distorcer o foco. Isso nos lembra a conjuntura
atual da república brasileira, na qual muitos daqueles aos quais
cabe constitucionalmente a tarefa de proteger a justiça, a democracia
e a cidadania, fraturam a honradez e a legitimidade social, impondo, mais
do que uma ilusão de ótica, uma ilusão de ética.
É a transformação em "normal" de uma opaca
ética do vale-tudo, do uso privado dos recursos públicos,
do exercício da autoridade legislativa para tungar benesses particulares,
da outorga judiciária para obter a locupletação exclusiva.
*Professor de pós-graduação
em Educação (Currículo) da PUC-SP.
É claro que a incúria, a má versação,
a prevaricação, a fraude e a negligência são
temas cotidianos e recorrentes durante toda a nossa história, mas
não precisam continuar sendo. E, só não o serão
mais se não os considerarmos como inevitáveis, naturais
ou, até, "normais". A novidade, porém, é
que, no momento em que há mais divulgação e mecanismos
legais de defesa contra tais desmandos e tresvarios, parece que o espaço
pedagógico não vem tocando muito nesses temas (que não
são nada transversais ou oblíquos e, sim, centrais e primordiais).
Paulo Freire ficaria
fraternalmente irado! Irado com o entorpecimento que acomete muitas e
muitos de nós que atuamos em educação; ele com certeza
brandiria a pedagogia da indignação contra a eventual demora
em transformar esse contexto nacional eticamente turbulento em um tema
gerador diário de nossa reflexão na comunidade escolar,
de modo a favorecermos a rejeição ao fatalismo e à
cumplicidade involuntária. É provável, também,
que nosso saudoso educador pernambucano nos relembrasse que "a melhor
maneira que a gente tem de fazer possível amanhã alguma
coisa que não é possível de ser feita hoje, é
fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se eu não fizer
hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje o que hoje não
pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã o que hoje também
não pude fazer".