Bird
– acusado de interferir na política educacional do MEC – garante
que seu trabalho é combater a pobreza no mundo
Quando os críticos
da política de educação do governo federal soltam
o verbo, um de seus alvos favoritos é o Banco Mundial e o que consideram
como postura intervencionista da instituição – e conseqüente
subserviência do MEC – nas diretrizes orientadoras da política
educacional brasileira. Governo e representantes do banco negam e apresentam
números que consideram expressivos. Nada, contudo, que diminua
a desconfiança ideológica dos que enxergam nessa relação
um jogo em que, para o Brasil, vai sempre sobrar o papel de perdedor.
"O Banco Mundial,
atendendo aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos e da Europa,
conduz uma política de divisão internacional em que os países
latino-americanos não têm acesso à ciência e
tecnologia competitivas. Nos tornamos apenas uma plataforma de montagem
de automóveis e eletrodomésticos, sem gerar conhecimento,
e o governo federal, representado pelo ministro Paulo Renato, pactua e
implementa essa política do Banco Mundial", acusa, Roberto
Leher, presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições
de Ensino Superior (Andes).
"O banco definiu
para o mundo subdesenvolvido políticas públicas de enxugamento
da máquina do Estado em todos os setores, inclusive educação.
Isso significou, para nós, redução dos quadros da
escola e eliminação de cursos, principalmente os profissionalizantes",
aponta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação
Pública no Estado do Paraná (APP), Romeo Gomes de Miranda.
Por seu lado, o banco
diz ter como função apoiar o desenvolvimento social e econômico
sustentável para a redução da pobreza no mundo e,
especificamente no campo da educação, sempre tem defendido
não realizar nenhum tipo de ingerência nas políticas
de ensino federal, estaduais e municipais.
"O papel do banco
nos processos, em todos os níveis educacionais, é o de auxiliar
na discussão dos temas, buscar alternativas para o financiamento
de projetos e, finalmente, ajudar a incluir as populações
excluídas a um sistema educacional de qualidade", explica
a chefe da área de desenvolvimento humano do Banco Mundial para
o Brasil, Maria Madalena dos Santos.
Atuação
– "Além dos financiamentos para projetos, o banco tem
forte atuação em assistência técnica, pesquisa,
disseminação de conhecimento, de boas práticas e
troca de experiências entre países", esclarece. "Nesse
contexto, o banco reconhece que a educação é um instrumento
fundamental na luta contra a pobreza, e nossa atuação tem
se concentrado no apoio à inclusão das populações
historicamente excluídas pelos sistemas educacionais – por razões
culturais, de gênero, de renda ou de raça –, visando à
universalização da cobertura da educação primária."
Hoje, o Banco Mundial
tem atuação em 100 países, cujas populações
somadas ultrapassam 4,7 bilhões de pessoas. Nesses locais, entre
os quais o Brasil se inclui, as estatísticas apuradas revelam os
enormes desafios a serem enfrentados no combate da pobreza, rumo à
inclusão social: 3 bilhões de pessoas vivem com menos de
US$ 2 por dia, e 1,3 bilhão vivem com menos de US$ 1 por dia; 40
mil pessoas morrem todos os dias de doenças que poderiam ser evitadas;
130 milhões nunca tiveram a oportunidade de freqüentar uma
escola; e 1,3 bilhão nunca tiveram água limpa para beber.
Para dimensionar o
trabalho exercido pelo banco, considerado a maior fonte ao desenvolvimento
e de combate à pobreza no mundo, basta informar que US$ 16 bilhões,
provenientes de recursos de 181 países-membros da instituição,
são emprestados anualmente aos seus países-clientes.
E quais são
as condições necessárias para um país obter
um empréstimo do Banco Mundial? Para entender este procedimento,
é preciso conhecer um pouco sobre a estrutura do banco, que é
composta por cinco instituições afiliadas, independentes
e inter-relacionadas entre si, todas presididas por James D. Wolfensohn:
Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird),
Associação Internacional de Desenvolvimento (AID), Corporação
Financeira Internacional (IFC), Organismo Multilateral de Garantia de
Investimentos (Amgi) e Centro Internacional para Acerto de Divergências
relativas a Investimentos (Ciadi).
"O Bird proporciona
empréstimos e assistência para o desenvolvimento a países
de rendas médias com bons antecedentes de crédito. A AID
tem papel importante na missão do banco, que é a redução
da pobreza. A assistência da AID concentra-se nos países
mais pobres, aos quais proporciona empréstimos sem juros e outros
serviços", explica o documento descritivo do grupo.
A IFC, por sua vez,
tem o objetivo de promover o crescimento no mundo em desenvolvimento mediante
o financiamento de investimentos do setor privado e a prestação
de assistência técnica e de assessoramento aos governos e
empresas. "Em parceria com investidores privados, a IFC proporciona
tanto empréstimos quanto participação acionária
em negócios nos países em desenvolvimento", relata
o documento.
Já a descrição
do Amgi revela que a instituição ajuda no estímulo
de investimentos estrangeiros nos países em desenvolvimento por
meio de garantias a investidores estrangeiros contra prejuízos
causados por riscos não comerciais. Ou seja, o Amgi garante investimentos
contra riscos como mudanças de regras legais ou regulatórias
dos setores que receberão os aportes de recursos.
Para colocar este
objetivo em prática, o Amgi ajuda tecnicamente esses países
a divulgarem informações sobre oportunidades de investimento.
Por fim, diz o documento de apresentação do Grupo Banco
Mundial que o Ciadi fornece o local e a oportunidade para negociação
e arbitragem entre governos e investidores internacionais, mediante anuência
de ambas as partes.
As linhas de crédito
mais utilizadas pelo Brasil dentro do Grupo do Banco Mundial partem do
Bird e da AID. O critério de concessão de empréstimo
pela AID, segundo as diretrizes formais da instituição,
leva em consideração os países com renda anual média
per capita de US$ 1.506 ou menos. Na prática, porém, os
créditos são concedidos a países com renda anual
média per capita de US$ 895 ou menos. Para os países com
renda anual média per capita abaixo de US$ 1.506 também
existe a possibilidade de receber empréstimos compostos por recursos
do Bird e da AID. Os recursos exclusivos do Bird estão disponibilizados
para os países com renda anual média per capita acima de
US$ 5.445.
Mas pobreza não
é o único critério para a concessão de créditos
ou empréstimos. Além de exigir que o país receptor
dos recursos seja membro da instituição, quando há
a solicitação dos financiamentos, esse país precisa
apresentar pesquisas sociais e econômicas que justifiquem a necessidade
dos investimentos. Cada procedimento para o acesso aos recursos é
definido em assembléia de diretores do banco, com representação
de todos os países-membros.
Antes de firmar o
acordo de financiamento, Banco Mundial e governo definem critérios
de conteúdo do projeto, metas, planejamento, implementação
e mecanismos de monitoramento da execução e de atendimento
das metas previstas. O Banco Mundial garante, porém, que os objetivos
a serem atingidos pelos projetos são estipulados pelos próprios
proponentes do empreendimento, enquanto as negociações envolvem
apenas a estipulação de metas e de índices a serem
atingidos.
Além das exigências,
o país tomador do empréstimo também tem de colocar
a mão no bolso para a implementação do projeto. Segundo
a instituição, normalmente é preciso haver contrapartida
de 50% dos recursos.
As condições
de financiamento dos empréstimos são baseadas em juros da
taxa interbancária de Londres (Libor), hoje na faixa de 4% ao ano.
O período de amortização da dívida varia,
segundo a instituição, mas a média está em
torno de 15 anos, incluída neste caso a carência de três
a cinco anos para o início dos pagamentos.
Histórico
– A fundação da instituição se deu em
1944, durante a Segunda Guerra Mundial, em Bretton Woods, Estado de Novo
Hampshire (EUA). Em princípio, as políticas do banco buscavam
a reabilitação dos países pós-conflitos, com
reestruturações econômicas voltadas para o desenvolvimento
econômico. O primeiro empréstimo reflete bem esta inclinação,
com a concessão de US$ 250 milhões para a França
ser reconstruída em 1947.
Na década de
80, o Banco Mundial amplia um pouco mais sua rota de atuação,
ao passar a abordar questões macroeconômicas e de refinanciamento
de dívida dos países entre suas prioridades. Novos rumos
da economia mundial também obrigaram a instituição
a colocar as questões sociais e ambientais entre suas preocupações.
No Brasil, a presença
do banco foi marcada a partir de 1949, ao conceder seu primeiro empréstimo
no valor de US$ 75 milhões para a área de energia e telecomunicações.
Na história, mais de 345 operações de crédito
foram realizadas no país, com soma aproximada de US$ 30 bilhões,
distribuídas entre os setores de agricultura, combate à
pobreza rural, transporte urbano, desenvolvimento urbano, saneamento básico
e recursos hídricos, meio ambiente, transportes e energia, administração
econômica e financeira e educação e saúde.
Hoje, 54 projetos brasileiros contam com financiamento do Banco Mundial,
totalizando aproximadamente US$ 5,32 bilhões. Desses, as ações
da área educacional em implementação somam financiamento
de US$ 666,63 milhões.
Os números
mostram claramente que, de forma proporcional, os recursos aplicados em
educação são restritos, quando considerada a somatória
dos investimentos. No entanto, a instituição argumenta que
os financiamentos neste setor vêm crescendo nos últimos anos
e, além disso, é necessário lembrar que o banco também
custeia outras áreas, como saúde, combate à pobreza
rural, saneamento básico e meio ambiente.
"A área
de desenvolvimento humano, que inclui educação, saúde,
nutrição e combate à pobreza, é, hoje, a maior
área de atuação do banco em todo o mundo, com aproximadamente
US$ 2,5 bilhões ou 23% de nossos empréstimos no ano fiscal
de 2001. No Brasil, a instituição tem apoiado projetos educacionais
desde 1971, totalizando quase US$ 2 bilhões em financiamentos para
o governo federal e diversos Estados", informa Madalena.
No Brasil, Madalena
enfatiza que, nos últimos sete anos, a instituição
tem auxiliado os esforços do governo federal para expandir a cobertura
do ensino fundamental. "Nesse contexto, o documento que regra a atuação
do Banco Mundial no Brasil, definido em conjunto com o governo brasileiro,
especifica que o banco deve centralizar a sua atuação no
Brasil em projetos educacionais, especialmente no Nordeste", observa.
A estratificação
dos projetos que receberam financiamentos ao longo dos últimos
anos na área de educação e que estão em atividade
são o Projeto Escola Novo Milênio, com recursos de US$ 90
milhões; o Projeto de Educação da Bahia, US$ 69,6
milhões; o Projeto de Melhoria na Educação Básica
no Estado de Minas Gerais (PróQualidade), US$ 150 milhões;
o Fundo de Fortalecimento da Escola II (Fundescola II), US$ 202 milhões;
e o Projeto de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(PADCT III), US$ 155 milhões.
Entre os convênios
já assinados com diversos Estados, Madalena diz que os projetos
são caracterizados por "metodologias participativas, descentralizadas
e transparentes, que dão autonomia às administrações
escolares para tomar as decisões mais adequadas para o melhor desenvolvimento
dos alunos".
Um dos projetos de
atuação mais ampla financiado pelo banco é o Fundescola,
implementado pelo governo federal. Em recente entrevista para o Boletim
Técnico, publicação do Fundescola, Madalena explicou
que o objetivo principal nessa atuação era fortalecer a
escola pública. "No caso do Ceará, os recursos do acordo
irão ampliar as ações do modelo Fundescola para outras
áreas onde não há financiamento. Não são
coisas concorrentes. Ao contrário, o Fundescola serve de modelo
para que os Estados ampliem aquelas ações para a totalidade
dos municípios, principalmente os mais pobres", afirma.
Além da presença
nesses projetos, a chefe da área de desenvolvimento humano do Banco
Mundial para o Brasil defende ainda os trabalhos executados em outras
vias educacionais do país. "Essa experiência prática
adquirida está à disposição de todos os países-membros
para informar suas políticas educacionais, conforme solicitado",
explica. Isso se aplica ao Brasil com a experiência internacional
que técnicos em diversas áreas do banco têm trazido
ao país nos últimos anos, como também os estudos
de experiências desenvolvidas por aqui e que foram adaptadas a outras
realidades externas.
"Um exemplo dessas
práticas são os sistemas de monitoramento e avaliação
do ensino fundamental (Saeb), médio (Enem) e superior (Provão),
cuja experiência desenvolvida pelo Brasil desperta o interesse de
pesquisadores e instituições internacionais, como a Universidade
de Harvard", comenta.
Projetos sociais,
como o Bolsa Escola, qualificado pela instituição como inovador,
já encontram aplicação em outros países como
Equador e Colômbia. "O Brasil realizou grandes e fundamentais
avanços na área educacional nos últimos anos e ainda
há desafios adiante, como a melhoria na qualidade do ensino. Nós,
do Banco Mundial, esperamos contribuir conforme necessário para
o desenvolvimento da educação no Brasil", declara.
Educação
tem merecido, inclusive, um destaque especial do grupo em sua política
de comunicação com a sociedade. Na internet há, inclusive,
uma chamada para "10 coisas que você nunca soube" sobre
o Banco Mundial. A primeira delas é relacionada à educação
e dá conta que, desde que o primeiro fundo da instituição
para educação, iniciado em 1963, a instituição
já forneceu US$ 30 bilhões entre créditos e financiamentos,
distribuídos por 164 projetos de 82 países.
Esses recursos foram
aplicados em projetos com enfoque principal na educação
fundamental. A inclusão de segmentos excluídos da população,
como o acesso à educação por meninas em alguns países
da Ásia e África, também mereceu atenção
especial do Bird. "A experiência internacional fez com que
os projetos educacionais financiados pelo banco contem cada vez mais com
mecanismos de participação comunitária e processos
descentralizados de tomada de decisões, nos quais as próprias
comunidades determinam as prioridades educacionais de suas escolas",
comenta Madalena.