Por
mérito do MEC ou negligência da imprensa, governo ainda pauta
maior parte das reportagens na área
Uma das melhores constatações
da 12ª edição da pesquisa Infância na Mídia
é o fato de a imprensa brasileira ter consolidado no centro das
preocupações editoriais as questões relacionadas
a crianças e adolescentes. Dentre essas temáticas – e pelo
quarto ano consecutivo – educação é campeã
em volume de matérias publicadas pelos 50 jornais e 10 revistas
de maior repercussão nacional, regularmente monitorados pela Agência
de Notícias dos Direitos da Infância (Andi).
Produzida em aliança
com o Instituto Ayrton Senna e o Unicef, a pesquisa radiografa o perfil
do noticiário, confronta os jornalistas com os resultados e, com
isso, procura contribuir para a progressiva qualificação
da cobertura.
A revista Infância
na Mídia mostra que de 75.797 reportagens, artigos, editoriais
e entrevistas publicados sobre temas do universo infanto-juvenil, em 2001,
as questões educacionais estiveram em foco em 20.923 dos textos.
Mais importante: quase 40% deles são compostos por abordagens que
ampliam o debate dos desafios sociais, revelam experiências bem-
sucedidas ou questionam a omissão do governo e dos setores sociais
ante problemas do setor.
Uma combinação
de fatores alçou o assunto ao primeiro posto no ranking. Todos
eles se conectam à eleição, pelo governo e pela sociedade,
da educação como elemento estratégico, sobretudo
no cenário de estabilidade econômica e de reorganização
do Estado vivido nos últimos anos. Condições favoráveis
propiciaram inovações, como a aprovação da
Lei de Diretrizes e Bases da Educação (de 1996), uma exigência
da Constituição de 1988.
Nesse contexto, vários
atores do terceiro setor, de empresas de comunicação, da
iniciativa privada e do governo parecem ter percebido que os índices
brasileiros de analfabetismo, evasão escolar, repetência
e escolaridade das crianças e jovens eram – e ainda são
– incompatíveis com a inserção do Brasil no mundo
"globalizado".
A partir daí,
o país passou a desenvolver um conjunto de ações
mobilizadoras. Na imprensa, foram inaugurados importantes espaços
editoriais dedicados à esfera educacional e passou-se a investir
na especialização de jornalistas. Viu-se crescer, igualmente,
a presença de enfoques sobre ações de cidadania empresarial
no meio social, com destaque na educação.
Trabalho infantil
– Em termos concretos, os resultados das 12 edições
das pesquisas Infância na Mídia elaboradas até hoje
mostram que a evolução quanti-qualitativa da temática
educacional nos veículos impressos começou a se desenhar
em 1997 – três anos após a posse do ministro Paulo Renato
Souza – para se consolidar em meados de 1999, momento em que as denúncias
contra o trabalho infantil chegaram ao pico na imprensa.
O país passou
a falar mais de educação quando se chocou com a brutal realidade
da exploração da mão-de-obra de crianças.
A imprensa começou a investigar saídas para a exclusão
social e elegeu a pauta educacional como chave nesse processo.
As políticas
públicas federais do atual governo, com repercussão mais
aguda no ensino fundamental, contribuíram para impulsionar a cobertura,
assim como o trabalho da assessoria de comunicação do Ministério
da Educação, que marcou presença forte nas redações,
mantendo a imprensa informada e atualizada sobre os programas e as ações
governamentais, e mobilizando a população para parcerias.
Essa atuação
foi motivo de reflexão no Fórum Mídia & Educação,
realizado em novembro de 1999. Na oportunidade, 150 jornalistas e fontes
de informação discutiram diversos aspectos do noticiário
na área educacional. Eles analisaram a pauta, o enfoque jornalístico,
a pluralidade (ou não) das fontes ouvidas e listaram recomendações
para aprimorar a cobertura.
Verificou-se na ocasião
que grande parte do noticiário estava sujeita aos atos do governo
federal e das secretarias de Educação – limitava-se a repercutir
fatos. Os jornalistas do MEC cumpriram muito bem seu papel de veicular
a agenda oficial. Porém, a imprensa parece ter se acostumado ao
serviço, centrando sua pauta em temas predominantemente factuais,
em prejuízo de uma cobertura mais isenta, profunda e capaz de detectar
ângulos enriquecedores.
Dados da Andi mostram
que, em 1999, cerca de 32% das matérias sobre educação,
veiculadas nas principais revistas e jornais brasileiros, foram originadas
nos órgãos oficiais; no extremo oposto, a sociedade civil
provocou a pauta em 8,6% dos casos. Em muitos aspectos, aquele retrato
ainda é válido hoje.
Mesmo com a maior
investigação de soluções na área educacional,
a imprensa continua se pautando preferencialmente no Poder Público
e dando mais voz às fontes oficiais do que à sociedade.
Embora este fato possa indicar que a mídia está fiscalizando
o Estado, o fraco equilíbrio nas fontes geralmente resulta em abordagens
com visões menos plurais, críticas e independentes sobre
os problemas sociais.
Luz amarela –
Em 2001, nos jornais, a voz do governo foi ouvida em 58,86% das matérias.
A opinião das organizações civis aparece em 31,05%
das reportagens. Os jornalistas quase não ouviram diretores, professores,
alunos e associações de pais e mestres. As fontes escolares
tiveram 4,5% de presença. Ao desprezarem a voz de quem lida diretamente
com o dia-a-dia da realidade educacional, os jornais deixam de colher
um panorama mais complexo e real dos problemas do setor. Também
espanta ver que as universidades (ouvidas em 3,4% das matérias
em 2001) estejam se alienando de seu papel fundamental de fontes de informação,
por sua capacidade de análise independente e de diálogo
com a mídia.
As pesquisas da Andi
revelam um dado ainda mais preocupante. Se em 1998 o noticiário
sobre educação aumentou quantitativamente 235% (em 1999
esse pulo foi de 84,95%, e, em 2000, atingiu 116,33%) foi em 2001 que
se registrou a menor taxa de crescimento aferida até hoje: parcos
6,65%. Esse declínio talvez se explique pela proximidade do fim
da administração do ministro Paulo Renato, fase em que costuma
haver uma natural desmobilização da equipe. Talvez a mídia
esteja desconfiada de "factóides".
É possível
que o tema tenha batido no teto das preocupações editoriais.
O fato é que a perda de fôlego no crescimento do noticiário
sobre educação acende uma luz amarela diante das redações,
das fontes oficiais e da sociedade. O alerta convoca à necessidade
de não se esquecer da importância da contribuição
da mídia para o debate de uma questão tão essencial
aos destinos do povo brasileiro.
Rubens Amador é
jornalista e editor executivo da Agência de Notícias dos
Direitos da Infância (Andi)