"Só
a justa medida do tempo dá a justa agudeza das coisas" Raduan Nassar,
em Lavoura Arcaica
O legado que a era
FHC deixará para a história do Brasil ainda está
em construção. Mas já é possível antever
que, nesse espólio, estarão emaranhadas muitas contradições.
A depender do inventariante, poderá se consagrar um político
modernizador ou um personagem pálido – mas nunca um estadista.
Porque Fernando Henrique Cardoso, completados seus oito anos de governo,
entregará um país mais pobre do que recebeu, embora com
um futuro tão rico quanto o que sempre teve. Até para os
que alegarem que poderia estar pior, sobrará a dura resposta de
que pouca coisa avançou.
Grande parcela do
país já gastou os elogios possíveis às privatizações
e ao suposto controle inflacionário. Afinal, a sociedade não
colheu os frutos da anunciada estabilidade econômica. Os sacrifícios,
conhecemos todos, inclusive os que virão. Resta saber que sonhos
podemos ainda acalentar, se não para nós mesmos, para nossos
herdeiros.
Quando se fala de
utopias (mesmo as "possíveis", na melancólica definição
de nosso presidente), a educação se impõe, por natureza
de ofício. Educam-se crianças para o amanhã e adultos
para dias melhores. Educar é um ato que carrega, em si, esperança
no futuro e certeza no agora. Não há governo que desanime
na expectativa por um país mais culto. Quanto à convicção
de estarmos mais bem preparados para o presente, cabe um exame minucioso
do que foi feito no passado recente.
Paulo Renato Souza
foi por muito tempo considerado o melhor dos ministros do atual mandato.
Coube a ele responder pelas poucas iniciativas sociais de um governo marcado
por intervenções macroeconômicas e impopulares. Só
recentemente (mais precisamente quando do início da disputa sucessória
ao Palácio do Planalto), foi ofuscado pelo Ministério da
Saúde e suas campanhas de massa, não obstante epidemias
e hospitais sucateados.
O fato é que
o Ministério da Educação pode, sim, ostentar avanços
e obras. Qualquer pessoa honesta há de reconhecer que o MEC entrega
um quadro nacional melhor do que há oito anos. O próprio
ministro se apressa em elencar seus feitos, o principal deles a universalização
do acesso ao ensino fundamental, conquistado por políticas públicas
e ações institucionais como o Fundef. Outras obras podem
ser lembradas: a implantação dos PCN, o sistema nacional
de avaliação e a expansão de matrículas nos
ensinos médio e superior.
Para cada uma dessas
conquistas, são muitas e implacáveis as críticas
a serem feitas. O gritante descaso com a qualidade, o genocídio
cívico imposto aos adultos analfabetos, a privatização
das universidades, o desmonte do ensino técnico, a subserviência
ao ideário neoliberal e globalizante, a falta de coragem em enfrentar
a indústria do ensino superior privado, a inépcia no combate
à exclusão digital, enfim, a opção compulsiva
por efeitos estatísticos descolados da realidade nacional impedem
que Paulo Renato entre para a história como um político
revolucionário, ou mesmo como o homem que equacionou o déficit
educacional deste país.
Mas, qualquer que
seja o seu sucessor, herdará um cenário menos inóspito,
mais profissionalizado, tendo à disposição números,
levantamentos, censos e diagnósticos amealhados durante quase um
decênio de trabalho do Inep – resgatado durante sua gestão.
Em contrapartida, aquele que vier depois terá o desafio de emprestar
dignidade às salas de aula. Há muito por fazer. Se deixar
saudades, será por incompetência de quem o suceder. Um risco
que corremos, tenham certeza, em tempos tão desprovidos de estadistas.