Até
o último instante Carolina Costa e Marco Antonio Araújo
Após
sete anos e meio à frente do MEC, ministro faz balanço positivo
e se mantém alheio às críticas e polêmicas
que marcaram sua gestão
Paulo Renato vai sempre
à missa e carrega santinhos e medalhas no peito. Nossa Senhora
das Graças, Agnus Dei, São Jorge e o anjo da guarda tiveram
muito trabalho com seu devoto desde janeiro de 1995, quando assumiu a
pasta da educação. Ele ainda vai precisar de ajuda, já
que lá deve permanecer em liturgia até o final do segundo
mandato de Fernando Henrique Cardoso a quem pretendia suceder, não
fosse sua pré-candidatura à presidência ter sido excomungada
em silêncio pelos mesmos irmãos de partido que se apressam
em ungi-lo um dos mais competentes quadros do PSDB. Economista de formação,
adora estatísticas e números. Estes retribuem a devoção
de forma expressiva e comungam recordes. Universalização
do acesso à escola fundamental e explosão de matrículas
nos ensinos médio e superior são algumas oblações
suas repetidas como oração. Mas Paulo Renato não
pratica a modéstia dos monges. A vaidade talvez seja seu pecado
capital. Ou a soberba. Da preguiça não o podem acusar. Deixará
uma obra. Haverá apóstolos? Ou tudo, no fim, é pó?
Educação O sr. prepara alguma novidade nesse término de gestão?
Paulo Renato Souza
Vamos levar adiante, anunciar e terminar, digamos, o trabalho feito.
As coisas importantes que fazemos hoje foram criadas nesse período,
Provão [Exame Nacional de Cursos], Saeb [Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Básica], Enem [Exame Nacional do Ensino
Médio] dão muito trabalho, mas já viraram rotina.
Tem uma novidade que vamos anunciar neste mês, um exame nacional
de jovens e adultos. Houve denúncias de fraude nos supletivos e
os Estados nos pediram que assumíssemos isso. Com o mesmo espírito
do Enem, vamos fazer um exame para que os Estados apliquem um exame de
certificação de jovens e adultos do ensino médio.
Talvez seja a última iniciativa nova do Ministério.
Educação O sr. considera os sistemas de avaliação como a grande
obra de sua gestão, aquela que vai permanecer?
PRS Há
grandes coisas que vão permanecer deste período, modificações
e coisas que foram criadas. A mais importante foi o Fundef [Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização
do Magistério], que organizou o sistema e desatou o nó da
educação.
Educação Qual nó?
PRS O
nó do ensino fundamental. Estava todo mundo no ensino fundamental.
A matrícula no ensino fundamental nestes sete anos cresceu só
11%, e a conclusão, 77%. A gente desatou o nó, botou mais
gente dentro do sistema, universalizou e melhorou o desempenho. Com isso,
desafogou o fluxo e o ensino médio cresceu 70%, o ensino superior
cresceu 70%. Acho que foi o feito mais importante historicamente.
Educação Não era um diagnóstico que os governos anteriores já
tinham?
PRS O
diagnóstico de que nós tínhamos um problema sério
no ensino fundamental começou no início dos anos 90. Em
1994, Murílio Hingel [ministro da Educação durante
o governo Itamar Franco] fez a Conferência Nacional de Educação.
Foi a primeira vez que o país discutiu o ensino básico,
porque a preocupação do MEC sempre foi o ensino superior,
e as informações de que o Brasil dispunha eram muito precárias.
Educação Não havia informações por conta da desativação
do Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais]?
PRS Até então o Inep não tinha essa função.
Quem deu a função de estatística para o Inep fomos
nós. O Inep era um instituto de elaboração e pensamento,
não tinha função de produzir essa informação
válida, e nem avaliação. As nossas taxas de repetência
eram baixíssimas, segundo as estatísticas. Aí, o
professor Sérgio Costa Ribeiro, que já morreu [em 1994],
produziu vários estudos a partir da metade dos anos 80, que mostravam
que o problema brutal era a repetência, e que a escola mascarava
aquilo. Isso começou a mudar no começo dos anos 90, a partir
da participação do Brasil numa iniciativa da Unesco, o Education
for All 9, que reuniu os nove países mais populosos do mundo que
tinham problemas com educação. Em 1994, se fez a primeira
conferência de educação, quando então assumimos
e decidimos atacar o problema. Se você olhar o Mãos à
obra, que é o programa da primeira gestão do presidente
Fernando Henrique, isso está muito claramente lá. A gente
cumpriu tudo aquilo que está no programa na área de educação.
Educação
Por que obras o sr. gostaria de ser lembrado?
PRS Eu gostaria de ser lembrado por... [silêncio]...
duas ou três coisas. Primeiro a questão do Fundef. Associado
ao Fundef, a universalização do acesso ao ensino. E também
o Bolsa Escola. Depois, gostaria de ser lembrado pelo sistema de avaliação.
Educação O Provão foi idéia sua?
PRS Essa
foi. Eu, caminhando na praia lá em São Paulo, bolei. Essa
coisa da avaliação eu tenho obsessão desde o tempo
em que eu era reitor [da Unicamp]. A semente do que eu fiz está
lá. Não sabíamos quantos alunos tínhamos na
Unicamp. Aí, fiz o primeiro censo da Unicamp, fizemos a avaliação,
publicamos um anuário etc. As idéias básicas estavam
ali, mas não só do ensino superior. Não havia Enem,
tínhamos algo muito incipiente no Saeb. Fizemos algo periódico,
amplo, representativo. O censo escolar era atrasadíssimo, os dados
que tínhamos, quando fizemos o programa de governo, eram de 1989.
Hoje, estamos com dados de 2001, daqui a pouco vamos ter os de 2002. Censo,
informação e avaliação são essenciais
para formular uma proposta e levá-la adiante.
Educação Sua formação em economia determinou essa preocupação
com números e estatísticas?
PRS O fato de eu ter vindo do BID [Banco Interamericano de
Desenvolvimento] ajudou. Eu observava como era difícil as pessoas
executarem os empréstimos. Eu sonhava: no dia que eu for administrador,
quero ter empréstimos não executados. Deus me ajudou porque
cheguei aqui e tínhamos dois empréstimos do Banco Mundial,
de US$ 800 milhões, não utilizados, que iam ser cancelados.
US$ 800 milhões parados há anos... Peguei esse dinheiro,
com a componente regional construímos escolas, fizemos e tal. A
componente nacional eu usei para criar o censo, fazer avaliação,
essas coisas modernas.
Educação Como é a relação do MEC com o Banco Mundial?
PRS O problema é que as pessoas querem ver chifre
em cabeça de cavalo, e não existe chifre em cabeça
de cavalo.
Educação
Mas gostaríamos de entender a sistemática.
PRS É
uma sistemática de modernizar o sistema, informatizar, construir
escola só quando precisa, ter livro didático de qualidade.
Eles queriam fazer licitação para livro didático.
Nós explicamos que íamos fazer avaliação do
livro didático. Eles tinham aquela visão de que aqui no
terceiro mundo há corrupção em tudo e que é
preciso licitação sempre. Mostramos que o livro didático
não podia ser assim e fizemos do nosso jeito. E hoje, eu diria,
o Brasil serve de exemplo para o resto do mundo.
Educação Exemplo em quê?
PRS Sistema
de avaliação, sistema de informação, Fundef,
distribuição de recursos, avaliação do livro
didático, merenda.
Educação
O que se diz é que o Brasil está subordinado a uma
política de globalização, neoliberal, ditada pelo
Banco Mundial, em que se privilegiam estatísticas e educação
para o trabalho.
PRS Essa
argumentação é uma coisa difícil até
de responder, porque não é, porque o problema é o
seguinte: o que o Banco procura e eu vejo pelo que nós fizemos
foi uma coisa subordinada à globalização? Não,
nós fizemos coisas nossas, a nossa avaliação, o nosso
sistema de informação, pegamos o dinheiro deles, nós
fizemos. E, hoje, a política do Banco é muito influenciada
pelo que o Brasil fez. Há um reconhecimento daquilo que fizemos.
Hoje, nós influenciamos mais a política do Banco Mundial
do que vice-versa. Por quê? Porque não há país
no mundo que tenha feito mais reforma do que nós, não há
país que tenha avançado tanto quanto nós avançamos
isso dito por eles. Então, não tem ninguém que
nos dê lição, hoje. Eles [do Banco Mundial] exigem
prazos para que o dinheiro seja liberado, há esse entendimento,
e isso é moderno, isso é bom. Nós aceitamos essas
condições. Isso moderniza o país.
Educação Então não há uma política do Banco Mundial?
PRS Não
é uma política. É diferente do Fundo Monetário
Internacional porque, na área de economia, existe toda uma regra
do, digamos, "bom comportamento econômico", para que o país
tenha prestígio internacional, para que tenha uma boa avaliação
por parte das agências de crédito, para que o capital venha
para cá, para que a taxa de juros seja mais baixa. Para isso, existe
o receituário. Na educação não existe.
Educação
E a educação para o trabalho, por exemplo, muito estimulada
pelo Banco Mundial?
PRS Parece
razoável que o pedagogo coloque essa questão.
Educação A principal vocação da
educação não é o desenvolvimento humano?
PRS E
o que nós fizemos? Eu fiz a reforma da educação profissional.
Eu criei mais escolas técnicas do que ninguém na história
do Brasil, escola profissionalizante. Eu fiz os Parâmetros Curriculares
Nacionais [PCN]. O que são os PCN? É a formação
integral da pessoa.
Educação Os parâmetros apresentam
dificuldades de serem implantados fora das escolas particulares.
PRS Quando
definimos os parâmetros, sinalizei o que era educação
e a formação integral da pessoa. Discuti meio ambiente,
saúde, educação sexual, cidadania, pluralidade cultural.
O conhecimento tem que ser contextualizado, é construtivista. Os
parâmetros apontam o que há de mais moderno na educação.
E é este o conteúdo para educação que nós
definimos. A dificuldade dos parâmetros é a própria
formação do professor. Quando lançamos os parâmetros,
nos demos conta de que o professor tinha dificuldade de absorver o conteúdo.
E os professores passaram a pedir ajuda para fazer, digamos, com que os
parâmetros fossem acessíveis. E aí definimos o programa
Parâmetros em Ação, um programa de debate, discussão
e capacitação, feito pelos municípios, aos quais
demos assistência.
Educação
Mas funcionou? O sr. afirmaria que os PCN chegaram à escola
pública?
PRS Está
funcionando. São 300 mil professores envolvidos nos parâmetros.
Os parâmetros estão chegando [à escola pública].
E estão sendo utilizados. O Parâmetros em Ação
está no terceiro ano do programa. Mas o que eu quero dizer, o que
eu fiz de mais importante foi, primeiro, o Fundef e a universalização
do acesso; segundo, a questão da informação e avaliação;
terceiro, os conteúdos, a avaliação de qualidade,
os livros didáticos e os conteúdos dos Parâmetros
Curriculares Nacionais.
Educação
Outra crítica comum ao sr. é que, quantitativamente,
o país avançou, os números são expressivos,
mas a qualidade ainda é o desafio.
PRS Ainda
é o desafio porque eu reconheço que nós, nesses sete
anos, não resolvemos ainda todos os problemas da qualidade.
Educação Não é possível dizer
que priorizar aspectos quantitativos foi um projeto, uma opção
consciente da sua gestão?
PRS Não,
não, não. Fizemos tudo junto, os parâmetros eu defini
no primeiro ano de governo. Avaliação do livro didático,
biblioteca do professor, TV Escola, todas essas coisas estão definidas
lá atrás, no primeiro ano de governo. Agora, o efeito que
elas têm sobre a rede é mais lento. Não é que
eu fiz uma coisa depois da outra, é que uma coisa sai mais rápida,
e a outra, mais lenta. Mas comecei as duas ao mesmo tempo, na mesma intensidade.
Os indicadores de qualidade, hoje, já mostram uma melhoria importante.
Por quê? Porque em todos os países do mundo, quando houve
processos rápidos de incorporação de jovens e crianças
à educação, a qualidade caiu. E no Brasil não
caiu. Não caiu. Nenhuma avaliação nossa mostra queda
de qualidade. Mostra melhoria ou manutenção, com essa brutal
incorporação [de novos alunos]. Quando se incorpora gente
que estava fora da escola, se está incorporando crianças
e jovens de um segmento da população que tem baixa escolaridade.
Educação
Se não há queda de qualidade, por que todas as avaliações
internacionais colocam o Brasil, sempre, em último lugar?
PRS Pois
é. Mas aí foi outra coisa. A avaliação que
eu fiz, eu quis comparar com os melhores do mundo. Botei o país
a ser comparado com os países mais desenvolvidos do mundo. Claro,
eu sabia que íamos estar em último lugar. Entramos em último
por causa da defasagem das séries. Se tomarmos os alunos na idade
e série corretas, nós estamos no meio da distribuição.
Eu sei que não estamos com educação de primeiro mundo,
mas estamos caminhando para isso. Se eu melhoro a qualificação
do professor, e a qualificação do professor melhorou muito,
então vai melhorar a qualidade, certo? Se eu melhorar a qualidade
do livro didático, e o livro didático melhorou muito, se
eu der dicionário e livro de presente para as crianças,
então a qualidade vai melhorar. Esses processos que têm a
ver com qualidade, o seu resultado, vão tomar algum tempo, ainda.
Educação
Ainda temos 6,5 milhões de alunos evadindo antes de chegar
ao ensino médio. Arredondando, entraram no sistema 5 milhões,
mas ouve uma evasão de 6,5 milhões.
PRS Não,
não tem evasão de 6,5, olha aqui [mostrando tabelas]. Entre
1995 e 1999, a evasão era de 4,8 milhões. Educação
Temos dados de 1999 [do Inep], são 6,5 milhões. PRS
Não, não pode ser, porque está caindo. É claro
que existe evasão ainda, mas o importante é comparar o número
de alunos total versus o número de concluintes. Ou seja, quem concluiu
o sistema realmente. E quantos estão ainda defasados na idade/série,
quantos estão concluindo na idade certa. Os dados ainda são
horríveis. Mas o que é importante não é a
fotografia, é o filme. É o movimento, entendeu? A fotografia
eu sei que é ruim ainda, mas era muito pior.
Educação
Nesses anos, sempre houve um dedo, o seu, apontado para o professor,
como se ele fosse o núcleo duro dos problemas. Quando denunciamos
alunos analfabetos na quinta série, o sr. disse que a culpa era
do professor.
PRS O
que eu aprendi é que educação é um conjunto.
É o professor, mas é também o diretor da escola,
a gestão escolar, a participação da comunidade, todas
as coisas que acabam modificando a educação. Na questão
do professor, a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação]
apontou o caminho: todo professor tem que ter nível superior. Nós
tínhamos um grande número de leigos no Brasil. Hoje esse
número é muito pequeno. Temos programas de formação
a distância, com Estados e municípios principalmente no
Centro-Oeste e no Norte , que estão atingindo um número
significativo de professores leigos.
Educação
Quantos professores foram qualificados?
PRS Eu
não tenho o número exato aqui, mas na formação
são uns 20 mil. Houve muita substituição de professor
leigo por professor formado. O Fundef, no Nordeste, tem dinheiro para
pagar salário melhor. Aí, baixamos que tem de ter concurso
público, baixamos as normas da carreira. No Ceará, os prefeitos
fizeram concursos e vieram professores de outras cidades, que prestaram
concurso, passaram e tiraram o professor local, que era leigo.
Educação
Ainda tem professor ganhando R$ 40 por mês?
PRS Não,
não tem. Não existe. Hoje, eu diria que o piso está
em torno de um salário mínimo.
Educação
Dá tempo de termos todos os professores com formação
superior até 2007, como previsto em lei? Não será
preciso prorrogar esse prazo?
PRS Eu
acho que dá tempo. O pessoal está correndo. Eu acho que
não é bom nesse momento falar em prorrogar porque senão
relaxa.
Educação
O sr. gosta da redação da LDB?
PRS Muito,
muito. Não é só a LDB, é a mudança
no quadro institucional: o Fundef é lei, a Bolsa Escola é
lei, o Provão é lei, o novo Conselho Nacional de Educação
foi conquistado na lei. Eu mudei totalmente a institucionalidade da educação
no país.
Educação
Mas o sr. provocou também a mudança do artigo 60 da
Constituição, que previa o fim do analfabetismo [em 1988,
estabelecia-se que haveria um prazo de dez anos para universalizar o ensino
fundamental e eliminar o analfabetismo adulto].
PRS Mas
o que adianta dizer na Constituição que o analfabetismo
vai acabar se ele não acabar? Justamente, ao substituir o artigo
60 pelo artigo do Fundef, estou viabilizando acabar com o analfabetismo.
Educação
Não é um prazo muito longo?
PRS Olha,
nós vamos terminar 2002 abaixo de 10% de analfabetismo. O problema
é que quando você massifica a educação você
tem que garantir manter a qualidade. E esse é um desafio aqui e
em qualquer lugar do mundo.
Educação
Mas qual é o critério adotado para definir quem é
analfabeto? O analfabeto funcional, que não lê nem escreve
bilhetes, é considerado alfabetizado para efeito estatístico.
PRS Pois
é. Agora, isso é uma coisa que não acaba, por decreto,
da noite pro dia.
Educação
Não é melhor adotar critérios mais próximos
da realidade?
PRS Tem
que ter todos os critérios. Nós temos uma taxa de 17% [de
analfabetismo]. Está certo que nós tomamos a população
de 15 anos e mais. Se não tomássemos os velhos [acima de
50 anos], teríamos uma taxa abaixo de 10%. Temos que ter critérios
que nos comparem com o resto do mundo, onde alfabetizado é quem
sabe ler e escrever. Isso não deve nos satisfazer, estou de acordo.
Não podemos nos satisfazer com ter todo mundo alfabetizado. Nós
temos que ter todo mundo escolarizado. Todo jovem tem que concluir o ensino
médio, que desenvolva a capacidade de raciocínio, de aprender,
de pensar. E é isso que nós estamos apontando.
Educação
O MEC fez pouco pelo adulto analfabeto. Não seria porque o
que interessa é criar estatísticas e pessoas qualificadas
para o trabalho e o idoso não é absorvido pelo mercado
globalizado?
PRS Olha,
mas nós estamos com 2 milhões de alunos, adultos, no Alfabetização
Solidária. Nunca houve um programa dessa dimensão no Brasil.
Educação
É um número tímido. E esse tema sempre foi tratado
de maneira assistencial, até porque a alfabetização
de adultos está fora das atribuições do MEC.
PRS O
Alfabetização Solidária foi uma maneira clara de
chegarmos a resultados com custo baixo e eficácia elevada. Tudo
bem, nós botamos só 2 milhões de adultos no programa
de alfabetização. Mas houve muitas outras experiências
no Brasil todo. Você vê que só no supletivo do ensino
médio nós tínhamos 340 mil alunos em 1995 e hoje
temos 1 milhão. Na conclusão, tínhamos 76 mil, hoje
temos 330 mil, só no ensino presencial. O nosso problema é
acabar com a fábrica de analfabetos.
Educação
Que fábrica de analfabetos é essa?
PRS Tinha
uma fábrica de analfabetos instalada no país, que era o
sistema educacional. Porque quando, no Nordeste, nós tínhamos
25% das crianças fora da escola, se estava alimentando o analfabetismo
no Nordeste. Se a criança não vai para a escola, aí
está uma fábrica de analfabetos. E os dados comprovavam
isso. Não adiantava tratar do adulto velho se eu não consertasse
o problema.
Educação Não tem uma escolha de Sofia aí, cruel?
PRS Não
tem escolha de Sofia cruel. O importante não é tanto a questão
de ter um programa de abrangência, atacar uma questão da
alfabetização de jovens e adultos, mas ter um programa de
continuidade.
Educação
Para evitar que essa fábrica de analfabetos fosse alimentada
o sr., de certa forma, desconsidera...
PRS Houve
uma opção clara pelo ensino fundamental.
Educação
Mas em detrimento...
PRS Não
em detrimento da formação. Nunca houve nada mais importante
para jovens e adultos do que nós fazemos hoje. Então, não
houve detrimento. Nós gastamos muito dinheiro com jovens e adultos
e muito mais no ensino fundamental, eu estou de acordo. Mas nós
botamos nos dois. Em 2010, não se falará mais em analfabeto
no Brasil, analfabeto funcional, se a escolaridade continuar crescendo
também.
Educação
O sr. diz que o investimento em educação vai subir
para 7% do PIB, a partir de 2010. Não é um prazo muito longo,
e 7% não é pouco ainda?
PRS Depende
do que você considera muito ou pouco. O nosso país, hoje,
se compara com países desenvolvidos de nível médio.
Acho que os Estados Unidos não devem ter muito mais do que nós
temos. Têm muito mais gasto privado. No setor público, não
têm mais do que nós.
Educação
Mas eles não precisam trabalhar com uma dívida histórica
com a alfabetização.
PRS É,
mas...
Educação
E nós precisamos.
PRS Nós
precisamos, exato.
Educação
Então por que não investir mais dinheiro?
PRS Mais
dinheiro sempre é bom. Agora, o que nós provamos é
que havia muito desperdício na educação e conseguimos,
com melhor aproveitamento de recursos, dar um salto importante. Eu diria
que se, no passado, eu importasse mais dinheiro na educação,
sem as regras do Fundef, se em vez de 25% fossem 30% para educação,
tenha uma certeza: iria aumentar o desperdício.
Educação
Se está sobrando dinheiro, por que não remunerar melhor
o professor?
PRS O
Fundef vincula 15% ao ensino fundamental e 60% com o salário do
professor. De cada real pago para o governo, R$ 0,09 vão para o
salário do professor. Se aumentar a arrecadação,
aumenta o salário. No passado não era assim. É claro
que devemos advogar por mais recursos, exigir que eles sejam aplicados
realmente na educação, e cheguem no bolso do professor,
que ele seja mais bem qualificado.
Educação
Quando o sr. pleiteava candidatura à presidência da
República, imaginava aumentar os gastos em educação?
PRS Eu
colocava um binômio educação e crescimento econômico,
nessa ordem.
Educação
O sr., como presidente, não aceleraria a adoção
dos 7%?
PRS Por
que não? Depende muito da circunstância, porque não
depende só do governo federal, depende muito dos Estados e municípios.
Educação
Há município que não consegue gastar 25% na educação.
Isso não é para deixar qualquer cidadão perplexo?
PRS Mas isso não deve deixar ninguém perplexo.
Você pega município, muito pequeno, por exemplo, Paulínea
[SP], Camaçari [BA], que têm refinarias. Eles têm uma
receita brutal e pouca população. Não têm onde
gastar.
Educação Por que não pôr dinheiro
em computador, teleconferência, ensino de ponta?
PRS Mas não adianta. Pode botar o que quiser. Vai lá
em São Caetano [Grande São Paulo], entra numa escola, tem
tudo. Tem uma base de arrecadação brutal, indústria
automobilística e meia dúzia de crianças. Além
disso, é uma população que está tendo pouco
filho. Com o Fundef, pegamos dinheiro de um para botar em outro. São
Caetano deve perder, por ano, R$ 50 milhões para o fundo estadual,
por causa do pequeno número de alunos.
Educação O Fundef é idéia de quem?
PRS É uma idéia a quatro mãos. O pensamento
original foi do Barjas Negri, que hoje é ministro da Saúde.
Educação O sr. sabe de algum país que
importe o que está sendo feito aqui no Brasil?
PRS O pessoal da França e Espanha nos disse que adoraria
fazer o Provão, mas eles não têm condições
políticas. Há muito olhar para o Brasil e muita surpresa,
inclusive, com as coisas que nós conseguimos.
Educação
Os PCN são inspirados mesmo nos espanhóis?
PRS Os PCN tiveram inspiração espanhola e colombiana.
O sistema de avaliação teve muito das fundações
de avaliação norte-americanas. O sistema de avaliação
mais geral, do ensino superior e da pós-graduação,
teve muito do modelo inglês. Tem também muita experiência
alemã, francesa, buscamos inspiração em outros países,
mas com nossos critérios e mecanismos.
Educação O sr. disse que aumentou o acesso de alunos pobres, negros e índios
ao ensino superior. Como, se eles não têm condições
de pagar escolas particulares e não cresceu o acesso à rede
pública?
PRS A matrícula no ensino superior aumentou.
Educação O ensino superior privado, pago, responde
por 67% das vagas, segundo a consultoria Ideal Invest.
PRS Mais ou menos 65%, eu acho que é. A matrícula
no ensino superior cresceu 62%, de 1994 a 2000. A população
não cresce 62% em seis anos. Quem entrou no ensino superior, esses
62%, foram os mais pobres, que estavam fora. Se a classe média
e a classe alta já estavam no ensino superior e aumentou a matrícula,
é porque pessoas de outras classes sociais ascenderam ao ensino
superior.
Educação Com todo o respeito, dizer que negro,
pobre e índio estão na universidade é...
PRS Está aumentando sua participação
e, no futuro, vai aumentar mais ainda porque, hoje, eles estão
chegando no ensino médio.
Educação Mas precisa abrir vaga na universidade
pública para atender a essa demanda.
PRS Ou criar mecanismos de financiamento.
Educação
E não tem nenhum em vista.
PRS Tem
sim. Tem 200 mil alunos inscritos no Fies [Financiamento Estudantil].
Agora, precisaria ter 500 mil.
Educação
O modelo de gestão e financiamento do ensino superior está
quebrado, o sr. mesmo diz. E essa conta que não fecha é
antiga, morte anunciada.
PRS Não, não, não senhor. Caiu a ficha
agora, aqui, olha aqui [mostrando relatórios do MEC]. Eu fiz um
balanço das universidades federais, que dizem que é o meu
calcanhar-de-aquiles...
Educação O sr. teria uns quatro calcanhares-de-aquiles,
segundo algumas pessoas.
PRS Olha
aqui, aqui está toda a política, o que nós fizemos
nesse período, novas matrículas nas universidades federais,
concursos, investimentos em bibliotecas e informatização.
Vamos investir R$ 548 milhões. Hospitais universitários,
novos fundos de pesquisa, portais de acesso. Isso aqui é o que
foi feito, veja aqui... O número de matrículas nas federais,
em 1980, era de 316 mil; em 1989, foi para 310 mil, caiu; em 1994, subiu
um pouquinho, 357 mil. Foi nesse período que expandiu, nós
expandimos isso, era uma coisa estagnada. O mestrado cresceu 60% no total;
doutorado, 90%.
Educação
Mas o nível das teses é baixíssimo, por conta
da necessidade que o MEC gerou de o professor titulado valer mais.
PRS Necessidade
que a lei gerou. Nesse período, as federais se transformaram no
principal segmento da pós-graduação no Brasil. Não
era. Nós estávamos formando, em 2000, quase 6 mil doutores.
Eu não posso, inclusive, acelerar os concursos, porque não
tem gente. E eu quero botar na universidade gente concursada, doutorada.
Quando assumimos, tínhamos apenas 15% de doutores no sistema, hoje
estamos com 22%. A remuneração docente, veja como era em
1994 e quanto é em 2002.
Educação
109% de aumento. Mas ainda...
PRS Ainda
é baixo, eu sei, mas qual foi o governo que aumentou o salário,
com uma inflação muito baixa, em 109%?
Educação
Ainda assim o governo do sr. foi marcado por greves.
PRS Eu
não fui marcado. Todos os governos foram marcados por greves. Eu
fiquei muito tempo no ministério e tomei duas greves. Greve a cada
dois anos nas federais era norma. Meu filho entrou numa federal em Viçosa,
dois meses depois estava em casa.
Educação
Seus filhos formaram-se na rede particular ou na rede pública?
PRS Ensino
fundamental e médio foi em escola particular.
Educação
O sr. acha demagogia quando jornalistas perguntam se filhos de políticos
estudaram em escola pública ou privada?
PRS Infelizmente,
nós temos, toda a classe média, e os políticos são
todos classe média, a prática de botar o filho na escola
particular.
Educação
Quer dizer, a escola pública é ruim mesmo?
PRS Não
é que é ruim, tem muita escola pública boa, você
veja no Enem, no Saeb, tem muita escola pública boa.
Educação
Se no Brasil quem tem dinheiro pagasse a universidade pública,
resolveria o problema do financiamento superior?
PRS Não,
não resolveria o problema.
Educação
A questão da gratuidade na universidade pública no
Brasil ainda dá coceira no sr.?
PRS Esse
é um tema que vai ter que se discutir no futuro muito claramente,
na medida em que as classe média e alta chegam até a universidade
pública. Os mais pobres estão chegando e a opção
que eles têm, em geral, é a particular. E esse povo é
que vai se rebelar, que vai exigir financiamento, bolsa, crédito.
Aí vamos ter que repensar isso.
Educação
Um dos seus quatro calcanhares é que estão sendo abertos
muitos cursos superiores, todos pagos.
PRS E
os novos são melhores que os antigos. O ensino superior do nosso
país, depois de anos de estagnação, começou
a crescer. E eu quero que ele cresça mais. E qualquer cidadão
do nosso país, que não seja um reacionário, tem que
querer que ele cresça mais. Agora, crescer com qualidade. Se eu
deixasse o sistema se expandir na base anterior, sem avaliação,
eu estaria de acordo com a crítica. Mas eu criei o sistema de avaliação.
Educação
O sr. acha que é possível tornar mais rigorosa a abertura
de cursos?
PRS Não,
eu acho que está num ponto bom, é flexível, tem permitido
a expansão e permite uma coisa muito importante, a interiorização
dos cursos. O número de instituições pequenas, novas,
que são criadas no interior, é fantástico.
Educação
O sr. não preferiria estar abrindo mais vagas nas universidades
públicas?
PRS Eu
preferia estar abrindo mais vagas públicas se houvesse recurso
para isso.
Educação
Qual é o tamanho dessa dívida?
PRS Não
é o problema do tamanho da dívida. Os países latino-americanos
em geral Argentina, Peru, México optaram pela massificação
do acesso por meio da universidade pública, e a qualidade acabou.
Massificou, cai a qualidade. Não tem jeito.
Educação
Mas massificar, no ensino privado, não garante qualidade.
PRS Mas
por isso eu criei a avaliação. Nós fizemos uma opção,
nos anos 70, de preservar as públicas, criar ali a pós-graduação,
a pesquisa, e preservar qualidade. E isso é o que eu acho que é
correto, são a espinha dorsal do sistema. E elas formam os professores
das demais, elas avaliam as demais, elas têm os melhores, elas fazem
a pesquisa que o Brasil precisa.
Educação
Por que é tão difícil fechar faculdades ruins?
PRS Mas
não é tão difícil. Meu objetivo não
é fechar faculdade. Tivemos já várias faculdades
que perderam seu reconhecimento. Agora é automático: tem
mau desempenho no Provão e na análise da situação
de ensino, automaticamente é descredenciado. Foram 12 [cursos descredenciados,
dependendo de homologação do CNE] na primeira leva, teve
uma universidade que perdeu a autonomia [Universidade Iguaçu [RJ]].
Claro, ela entrou na justiça e tal, mas estamos brigando.
Educação
O sr. acredita que uma escola privada que vive da mensalidade vai
ser rigorosa na avaliação, que o lucro não vai ser
o principal objetivo da instituição?
PRS Há
muita instituição privada de boa qualidade e todas elas
estão melhorando. Os novos cursos estão melhores, se saem
melhor na avaliação que os das antigas. As particulares
estão melhores, já nascem no espírito da avaliação,
já nascem tendo que dar conta.
Educação
Da concorrência. Tem uma lei de mercado.
PRS Da
concorrência também. Tem uma lei, não de mercado por
causa do preço da mensalidade, mas até pela qualidade. Quando
eu ponho no jornal a avaliação de todas as faculdades, o
aluno sabe quais são as boas, quais são as ruins.
Educação
Como é que está a relação com o CNE [Conselho
Nacional de Educação]?
PRS Está
boa, muito boa.
Educação
Mas não há lobby no CNE, interesses?
PRS Há
lobby, há interesse, porque eles têm representação.
Quando eu nomeio um conselheiro do setor privado eu procuro pessoas ligadas
a várias instituições, para não ter o dedo
de uma instituição só. Se você olhar o que
aconteceu no ensino superior do país, houve duas instituições
que cresceram nesse período, sem dúvida, a Estácio
de Sá e a Unip. Cresceram porque são agressivas. Mas o sistema
se desconcentrou brutalmente, isso é, para mim, grande satisfação.
Educação
Por que o MEC não adotou o software livre nos computadores
das escolas públicas?
PRS Não
adotamos primeiro porque não é livre.
Educação
Mas não é pago, é código aberto, sem
custos.
PRS Paga,
sim senhor. Está aqui a carta da Conectiva [o ministro não
encontra o documento], que é a representante da Linux [software
livre], e a carta que ela deu para o Estado do Paraná é
mais cara, cobrava mais [pelo suporte técnico, não pelos
softwares] que a Microsoft. Quem decide que sistema usar são os
Estados. O MEC compra os computadores que têm um sistema ou outro.
Se o Estado pedir os dois sistemas, nós compramos. Nós fomos
discutir isso lá no Congresso.
Educação
Então a gratuidade do software livre é um mito?
PRS É
um mito. Na verdade, acho que tem que haver concorrência do sistema.
O problema é que os Estados preferem, a maioria preferiu, a Microsoft.
Nós compramos o que for pedido, não tem problema.
Educação
Houve a acusação de que seu irmão fez tráfico
de influência para a Microsoft.
PRS Ah,
aquilo foi uma baixaria. O meu irmão, ele prestou serviços
como advogado para a Microsoft no passado. Ele inclusive se desentendeu
com a Microsoft e tem ação na Justiça. Ele não
tem nada a ver com a Microsoft, ao contrário. Então é
uma baixaria. Eu estou processando algumas pessoas por isso [o site No.,
que tem coluna em Educação, e o Jornal do Brasil].
Educação
Qual a crítica mais injusta que o sr. recebeu durante o seu mandato?
PRS A
de ter sucateado as universidades federais.
Educação
E qual a crítica mais justa?
PRS A
justa? De não ter feito a autonomia das federais.
Educação
Por que não foi feita?
PRS Porque
eu não consegui consenso entre o governo e os reitores, e as universidades.
Educação
Que recomendação gostaria de dar ao seu sucessor, se
o sr. não continuar no cargo?
PRS Não,
não serei eu.
Educação Não desejaria?
PRS Eu
acho que o Serra será eleito presidente, mas o problema é
que já estou aqui há oito anos. Tem que ter uma renovação,
alguém que veja outras coisas que eu não estou vendo, que
faça coisas novas.
Educação
Qual a recomendação ao seu sucessor?
PRS Eu
acho que a questão principal que ele deve acertar é o financiamento
do ensino superior, como garantir essa expansão.
Educação
E seus projetos pessoais?
PRS Eu
pretendo ter uma atividade privada nos próximos anos e depois,
eventualmente...