Ao escrever sobre
cidadania e liberdade, Paulo Freire nos alerta: "Desconfiarei também
daqueles que venham me dizer, à sombra desta árvore, que
tu já chegaste, porque estes que te anunciam ingenuamente, antes
te denunciavam."
A propósito
dessa admoestação freireana, e provocado pelas eleições
gerais em 1998, quando também era ministro Paulo Renato Souza,
escrevi na revista PUCViva de agosto daquele ano um resumo rearticulado
de alguns artigos sobre política educacional (que houvera antes
publicado na imprensa), dando a ele o título de A Educação
Brasileira e A Sedução dos Incautos. Agora, com o mesmo
ministro e movido pela mesma provocação, faço uma
síntese daquele artigo, tendo em vista a infeliz permanência
de muitos dos distúrbios outrora presentes.
Cada vez mais se fala
em educação no Brasil. Tem-se, às vezes, a sensação
de que só agora foi descoberta a importância dessa área
para a vida nacional. Não são poucos os artigos, entrevistas
e manifestações de pessoas que, historicamente atadas às
elites brasileiras, hoje defendem com ardor a necessidade de o país
escapar dos seus péssimos indicadores educacionais.
Qual seria a razão
dessa súbita "conversão" a uma das teses mais
fortemente propugnadas pela parcela da sociedade civil ligada às
causas cidadãs? É provável que a explicação
mais plausível seja uma só: oportunismo. Oportunismo político,
na medida em que as eleições gerais no Brasil produzem sempre
um fenômeno: a ira momentânea e aparente contra a desigualdade
social; oportunismo econômico, dado que a idéia de igualdade
de oportunidades educacionais, desvinculada da igualdade econômica,
acaba por camuflar as disparidades reais; oportunismo ideológico,
pois a apropriação de propostas presentes nas concepções
socialmente progressistas geraria uma suposta identidade de intenções
entre minoria e maioria.
Na prática,
nosso país tem presenciado, nos seus 500 anos de fundação,
uma tentativa tenaz de "pedagocídio". Tem havido um esforço
sistemático para aniquilar as possibilidades de efetivação
de uma escola pública democrática e de qualidade, a partir
da qual – mas não exclusivamente – se possa sedimentar uma cidadania
plena.
Esse esforço
de destruição do patrimônio público positivo
nas áreas sociais não é acidental. Está fincado
nas mais profundas raízes da crença na ressurreição
do "social-darwinismo" e na sobrevivência política
de parte das elites predatórias movidas por um fanatismo também
liberticida, escondido sob a capa da modernidade e do discurso triunfalista.
Por isso, e, antes
de mais nada, para não cairmos no ardil sedutor que a estranha
e cínica unanimidade retórica comporta, é preciso
romper com uma expressão perigosa – e falsa – muito utilizada atualmente
(inclusive por pessoas do campo progressista das lutas sociais): o resgate
da cidadania.
Ora, não é
possível resgatar o que nunca existiu; como trazer de volta algo
que jamais esteve presente entre nós? Abandonar essa palavra-de-ordem
equivocada é compreender que o embate central e prioritário
deve ser a construção da cidadania.
Para tanto, é
preciso começar por um desmonte de alguns mitos que envolvem o
debate sobre a educação brasileira atual, dado que o ardil
dos mitos leva à distorção das metas. O primeiro
deles é a oposição entre ensino particular e ensino
público, na qual se indica o público como sinal de má
qualidade. Essa questão não é séria. A verdadeira
questão é escola boa X escola ruim e, boas e ruins, as temos
em ambos os campos. Assim, é uma bobagem ficar muito neste debate
porque ele só interessa àqueles que pretendem continuar
com a exclusão da maioria da população ao acesso
a alguns serviços sociais que o Estado tem de prestar por obrigação.
Outro mito é
a relação quantidade/qualidade. Ora, a qualidade na educação
passa, necessariamente, pela quantidade. Em uma democracia plena, quantidade
é sinal de qualidade social e, se não se tem a quantidade
total atendida, não se pode falar em qualidade. Afinal, a qualidade
não se obtém por índices de rendimento unicamente
em relação àqueles que freqüentam escolas, mas
pela diminuição drástica da evasão e pela
democratização do acesso.
No nosso país
houve um aumento gradativo da presença da população
na escola fundamental nos últimos 30 anos e, se hoje já
atingimos taxas superiores a 95% da faixa etária constitucionalmente
obrigatória (de sete a 14 anos de idade), a questão maior
continua sendo a da permanência e a da distorção idade/série
(50% de distorção, e, para um ensino fundamental de oito
anos, os que conseguem concluí-lo levam, em média, quase
11 anos).
Os dados de algumas
pesquisas ficam muito tíbios na medida em que se conta apenas a
matrícula inicial e não a permanência e a saída.
Na prática, de cada 100 crianças que entram na primeira
série do ensino fundamental, apenas 30 chegam até a oitava
série. Portanto, a presença dessa população
na escola é muito distorcida e as taxas de evasão têm
chegado cruelmente a mais de 25% do total.
Isso significa que
a idéia de que o país já tenha resolvido o problema
da quantidade (fato alardeado por alguns pesquisadores) e que, portanto,
agora é a hora de cuidar da qualidade, é uma falácia.
Estamos falando até o momento apenas sobre crianças e adolescentes.
E os adultos? Temos 43 milhões de analfabetos adultos – 18 milhões
de analfabetos totais e 25 milhões de funcionais –, segundo uma
composição das análises do Unicef, Cenpec e Ação
Educativa.
Por fim, um terceiro
mito: o da suficiência de recursos financeiros. Não são
poucos os que argumentam que os orçamentos públicos são
suficientes para as nossas necessidades educacionais, mas são desperdiçados.
Para solucionar o problema, bastaria uma maior racionalização
e controle administrativo, pois já gastamos por volta de 4% do
PIB em educação.
Considerando nosso
atraso acumulado historicamente na educação, mesmo que houvesse
a quebra de mecanismos de desvio, ainda assim os recursos não bastariam.
Nenhum governo sério que assuma o nível federal pode trabalhar
com a questão educacional no país e com a consolidação
de condições dignas para a escola se não fizer uma
previsão de gastos paulatinos que atinja 10% do PIB em educação
nos próximos 10 anos.
É evidente
que medidas como essas não ocorreriam sem a fratura de privilégios
que têm levado a uma privatização do Estado no Brasil.
É necessária a vontade política e a legitimidade
democrática para superarmos os atuais patamares de "apartheid
social".