Depoimentos
de alunos portadores de deficiências visuais mostram como é
possível aprender sem enxergar
Depois de perguntar
ao menino por que ele apertava tanto os olhos, o doutor José Lourenço
tirou os óculos e os dependurou no nariz de Miguilim. O morador
do Mutum não podia acreditar. "Tudo era uma claridade, tudo
novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas.
Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores,
as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava.
Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo... Coração de Miguilim
batia descompasso."
Jovenzinhos de "vista
curta", como registrou Guimarães Rosa em Campo Geral, existem
aos milhares em todo o mundo. A cegueira infantil está presente
em países em desenvolvimento na proporção de 1,5/1.000,
segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) - o
que no Brasil corresponde a cerca de 255 mil crianças cegas.
No entanto, ainda
de acordo com a OMS, de 70% a 80% das crianças que são diagnosticadas
como cegas possuem alguma visão residual. São os casos chamados
de baixa visão ou visão subnormal. Incluem-se nesse conceito
quem é capaz de utilizar a visão para executar determinadas
tarefas, mas que possui um comprometimento da visão, com baixas
acuidade visual e percepção de luz.
O processo de amadurecimento
do órgão se estende até por volta de 9 anos de idade.
"Se a criança só recebeu a imagem de qualidade depois
dessa fase, provavelmente não terá 100% da visão",
explica Rogério Neurauter, chefe do serviço de oftalmologia
do Instituto Benjamim Constant, a mais antiga instituição
brasileira (completa 149 anos em 2003) especializada em deficiência
visual, sediada no Rio de Janeiro.
A baixa visão
e a cegueira, congênita ou adquirida, não são impeditivas
para o desenvolvimento cognitivo de uma criança. "A plasticidade
do cérebro permite, em certas ocasiões, que uma função
que você não tem seja compensada com a hipertrofia de uma
outra", explica Abram Topczewski, neurologista da infância
e adolescência do Hospital Israelita Albert Einstein.
Para que ocorra a
aprendizagem, os pais e professores precisam estimular o desenvolvimento
de outros sentidos. É mítica a idéia de que esse
desenvolvimento seja automático. Não é porque uma
criança possui deficiência visual que terá um ouvido
mais apurado ou o tato excelente. "Conheço crianças
cegas que não foram educadas adequadamente e que têm as mãos
duras: não querem mexer, não querem pegar. Aí, de
fato, elas não aprendem", lamenta Mara Olímpia Siaulys,
fundadora da ONG Laramara, de São Paulo - entidade especializada
em deficiência visual que presta atendimento gratuito a famílias
carentes cujas crianças tenham cegueira ou baixa visão.
Com os outros sentidos
despertos, a criança está apta para aprender como qualquer
"vidente", como os especialistas referem-se aos que enxergam.
"É tudo uma questão de técnica de ensino",
defende Virgínia Hogan, pianista brasileira radicada nos Estados
Unidos há 11 anos. A concertista, renomada internacionalmente,
ficou conhecida por ter desenvolvido, nove anos atrás, um método
de aprendizagem de piano clássico para cegos.
"Percebi que
existem muitos pianistas populares cegos, mas clássicos são
poucos. Porque os populares arranjam tudo, não tocam exatamente
o que está na partitura. Mas o clássico tem de memorizar
e decorar tudo o que está na partitura", explica.
Para criar seu método,
Virgínia gravou 600 trabalhos clássicos para piano (o programa
básico para pianista erudito) e contratou um webmaster para ajudá-la
no uso do computador. A técnica consistia em fazer a leitura de
cada peça bem devagar, mas por completo: sem fragmentar nos sons
de mãos, pedais e dinâmica. A cada acorde gravado, parava-se
por um ou dois segundos.
A audição,
de fato, dá conta de ensinar os sons. O tato consegue ensinar as
texturas, os formatos de coisas pequenas. O olfato também fornece
informações igualmente importantes para reconhecer ambientes.
Baseada nessas possibilidades, a aprendizagem não apresenta entraves.
"Para criança com visão normal, a gente vai do concreto
para o abstrato. Para a cega, é a mesma coisa", coloca Hsu
Yun Min, pedagoga da Laramara.
A principal técnica,
apontam os especialistas, é partir do conhecimento das partes do
corpo. Com isso, aparece a oportunidade de introduzir muitos conceitos
como tamanhos, proporções, formas e cheiros. O conceito
serve também para se conhecer os animais: "Às vezes,
a família não leva a criança cega ao zoológico.
Mas tem que levar: lá tem cheiros, sons de pássaros cantando,
calor de bichinhos e movimentos que podem ser percebidos", ensina
Hsu.
Como ensinar o que
são estrelas, céu, ruas paralelas, geometria e outras coisas
que só a visão parecem explicar? Nesse caso, as vivências
não-visuais dos outros sentidos são insuficientes. Sônia
Salomon, psicopedagoga e autora de Deficiência Visual - Um Novo
Sentido de Vida (Editora LTR, 184 págs., R$ 30), lembra que é
a linguagem o instrumento usado para fornecer esses conceitos. "Existem
idéias abstratas mesmo para quem enxerga. A energia atômica,
por exemplo, que só é explicada pela reflexão e pela
linguagem, mesmo para videntes. A pessoa cega também vai transitar
por aí."
Enxergar não
nos torna capazes apenas de formar representações visuais
na cabeça. Tampouco nos proporciona somente a independência
e segurança para fazer atividades como caminhar ou comer. Enxergar
permite o desenvolvimento motor. A criança começa a ajustar
a postura por conta do que vê ao olhar para a mãe, ao procurar
objetos, quando ouve um som e direciona a cabeça à procura
da fonte do ruído. Isso encaminha o normal posicionamento de partes
do corpo, especialmente da coluna e do pescoço.
"A criança
que não tem visão tende a ficar muito rígida, como
um bloco. E isso desestimula outros movimentos. É preciso ensiná-la
a usar o corpo, mesmo que ela não veja", diz Márcia
Silva, fisioterapeuta da Fundação Dorina Nowill.
Ao lado da fisioterapia,
exercícios de orientação e mobilidade são
fundamentais para a prevenção ou correção
de eventuais defasagens ou desvios motores. Um dos trabalhos dessa área
é ensinar técnicas que possibilitem o uso da bengala, mas,
antes dela, muitas outras têm de ser aperfeiçoadas, especialmente
aquelas que permitam ao deficiente visual aprender a captar informações
do ambiente com o uso de outros sentidos.
Muitos portadores
de deficiências visuais têm resistência quanto ao uso
da bengala. O mesmo acontece com a escrita Braile - composta por seis
pontos em relevo, que formam 63 combinações possíveis
para letras, números, sinais matemáticos, pontuação,
notas musicais etc. Para os cegos, essa leitura é feita por meio
do tato, com o toque com a ponta dos dedos. Para os videntes, parece impossível
detectar a diferença entre uma combinação e outra.
Por isso, quem enxerga aprende o Braile olhando para as letras e não
as tocando.
Quanto mais pessoas
souberem o Braile, mais aceita essa criança irá sentir-se.
Daí a importância do aprendizado dessa escrita pelos pais.
Na sala de aula, os
cuidados despendidos com crianças portadoras de baixa visão
são bastante específicos. Elas não podem ter a mesma
abordagem pedagógica das videntes, tampouco a das cegas. Esquecer
que elas enxergam pouco é o mesmo que ignorá-las como alunos,
uma vez que algumas preocupações são necessárias
para que elas consigam realizar atividades simples como ler a lousa ou
escrever dentro das linhas do caderno. Da mesma forma, também é
um erro desprezar essa capacidade visual, mesmo que ela seja apenas um
resíduo.
"É preciso
tirar da baixa visão o maior proveito que o resíduo visual
pode dar", diz a fisioterapeuta Márcia Silva. Para isso, algumas
dicas são fundamentais. É importante que haja uma preocupação
com a intensidade de luz que incide sobre a criança com baixa visão
- há os fotofóbicos, como os albinos e, por outro lado,
os que precisam de mais luz para captar o campo visual. Essa criança
também não pode sentar-se longe da lousa, mesmo que seja
mais alta do que a maioria dos colegas.
Aceitação
- Alguns pais recebem a notícia da deficiência do filho de
maneira aparentemente tranqüila. Mas os especialistas explicam que
essa resposta automática pode ser artificial e nem é tão
saudável assim. "Sem dúvida, os pais têm que
passar por um processo de luto da criança perfeita que não
veio", endossa Tatiana Maria Sanchez, psicóloga da Fundação
Dorina Nowill.
Se em casa a maioria
dos pais fica impactado com o surgimento de um membro da família
com deficiência visual, o mesmo acontece com os professores, quando
sabem que terão de ensinar alunos cegos. "Não suporto
olhar para ele", "Não tenho formação para
isso" e "Me sinto incompetente" são as queixas mais
comuns.
Sonia Salomon contesta
a aceitação imediata desses alunos como uma reação
natural. A psicopedagoga diz que a sensação de despreparo
e de incompetência que acomete os professores é legítima.
"É importante ter alguém que dê continência,
que dê ouvidos às reclamações e dúvidas
desses professores. Porque, afinal, quem não sente o impacto? Se
há essa aceitação instantânea, o tratamento
fica superficial", pondera.
Na rede estadual de
ensino de São Paulo foi implantado um sistema de sala de recursos.
Nelas, fica um professor especializado em deficiência visual, apto
para ensinar, com metodologia e técnicas especiais, conceitos que
os alunos cegos ou de baixa visão não tenham compreendido
em sua sala de aula.
Maria Christina Nassif,
pedagoga da Fundação Dorina Nowill, foi professora de sala
de recursos. Ela diz que o principal problema é que o professorado,
via de regra, não assume o aluno como sua responsabilidade. "É
difícil você conseguir que o professor entenda que aquela
criança pode ser atendida na classe comum. Eu sempre coloquei na
cabeça do professor que o aluno é dele, não meu.
Eu era só apoio."
O professor da sala
de recursos também deve ser responsável pelo ensino do Braile
e pela transcrição do material didático convencional
para o Braile. O problema é que isso demora e, muitas vezes, os
alunos deficientes visuais ficam alguns meses sem o material. "Seria
importante que esse material viesse em disquete, porque aí a transcrição
para Braile seria automática", diz Solange Mota, pedagoga
da Laramara, que também tem experiência em sala de recursos.
"As faculdades
estão formando profissionais obsoletos", condena José
Armando Valente, do departamento de multimeios do Instituto de Artes da
Unicamp. O professor, que também é coordenador associado
do Núcleo de Informática Aplicada à Educação
da Unicamp (Nied), explica que o surgimento do computador permitiu que
o deficiente visual estabelecesse relação com o mundo e
manifestasse com independência seus conhecimentos e dificuldades.
"Até hoje, os cegos foram tratados como 'caixa-preta'. Ninguém
sabia detectar o que eles sabiam ou pensavam. Com o computador, o sujeito
pode exteriorizar o que pensa e o que sabe", explica Valente.
Hoje, o aluno cego
pode usar o computador para fazer trabalhos escolares, navegar na internet
ou mesmo ler textos. Há impressoras que permitem a impressão
em Braile do trabalho digitado no teclado comum. Da mesma forma, o aluno
pode imprimir em tinta para entregar os trabalhos escolares.
Além das impressoras,
também é preciso adaptar o computador, instalando programas
específicos que fazem a leitura de tela em voz alta e que dispensam
o uso de mouse. Entre eles, estão o gratuito DOS-VOX, brasileiro,
e o JAWS, que custa por volta de US$ 600.
O que os olhos
não vêem - "Ver não é um fenômeno
do olho, não é uma questão física, é
uma interpretação. Você é quem decide o que
você está vendo", define o cineasta e fotógrafo
Walter Carvalho, co-diretor de Janela da Alma, documentário brasileiro
sobre o olhar.
"Tem muita gente
que enxerga bem, mas não vê. Tem muito cego com os olhos
sãos", acredita Carvalho. Ele exemplifica: "O [George
W.] Bush, por exemplo, não enxerga mais. Ele nem usa óculos,
de tão boa que é a mecânica visual dele. Mas para
a interpretação da vida, ele é completamente cego",
opina o paraibano, que não "enxerga" tão bem quanto
o presidente norte-americano em razão de 7,5 graus de miopia. Walter
Carvalho tem pavor de ficar sem óculos.
Há quem não
tema por tão pouco. Ainda jovem, a professora Ethel Rosenfeld perdeu
a visão devido a um tumor cerebral líquido, extraído
por meio de uma pulsão. Dias depois, Ethel teve um derrame, ficou
cega, perdeu os movimentos do pescoço para baixo e as sensibilidades
tátil e térmica. Aos 15 anos, depois de muito acompanhamento
especializado, ela recobrou os movimentos totalmente. Mas as imagens nunca
mais voltaram.
"Fiquei com grande
parte do meu nervo óptico afetada, 100% cega. Mas foi voltando
minha percepção de vultos e de alguns contrastes. Mantive
essa visão até uns oito, dez anos atrás. De repente,
apagou geral", recorda.
Mesmo depois de tantos
anos sem enxergar, Ethel sentiu o impacto de perder o resíduo visual.
Foi essa mudança na vida da professora e consultora de deficiência
visual que a fez largar a bengala e procurar a companhia de um cão-guia
no Guide-Dog Foundation for the Blind, nos Estados Unidos. Foram 25 dias
de treinamento e adaptação ao Gem, um cão-guia profissional
da raça Labrador que ela considera como filho.
Ethel foi pioneira
nessa experiência de ter um cão-guia no Rio de Janeiro, o
que causou muita polêmica nas tentativas de entrar em espaços
públicos, acompanhada de Gem.
Ethel mora sozinha
num apartamento no Flamengo. Leva uma vida normal. Sabe tricotar, namora,
cuida do seu cão e também trabalha intensamente como consultora
e coordenadora do Programa de Capacitações da Fundação
Municipal Lar Escola Francisco de Paula (vinculada à Secretaria
Municipal de Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro), em que orienta
cursos de sensibilização a motoristas e cobradores de ônibus
para que atendam melhor à população de portadores
de deficiência. Ver novamente? "Só por curiosidade.
Ia ser estranho, mas até que eu pagaria para ver."