Seis
anos de saudade perene, memória viva e gratidão
Há exatos cinco
anos, de modo a lembrar com saudade e ternura um ano da partida de Paulo
Freire, acontecida em 2 de maio de 1997, foi publicado Nita e Paulo, da
Editora Olho d'Água, a mesma que antes já nos houvera brindado
com Professora sim, "tia" não e À sombra desta
mangueira, duas obras da robusta maturidade do mestre. Nesse livro, Ana
Maria Araújo Freire (a Nita) recolhe algumas crônicas do
amor vivido com o esposo Paulo Freire durante o casamento que principiara
em 1988.
No prefácio
da obra, Marta Suplicy escreveu em maio de 1998 que "a elaboração
da dor da perda é um dos trajetos mais duros a serem percorridos
pelo ser humano. A morte de um pai, uma mãe, um filho ou de um
grande amor não é substituível. Cada pessoa encontra
um canto particular para o seu choro e, aos poucos, o coração
pára de sangrar. No entanto, sempre restam feridas. (...) Quando
Nita me falou sobre um livro 'acerca do meu cotidiano e de Paulo', percebi
que ela arrumara uma forma de trazer a dor para perto, acolhê-la
e, aos poucos, estancar o sangramento e cuidar só da ferida.
Aí está,
com força, a atualidade das histórias e a essencialidade
do conteúdo: acolher a dor e vivificar a memória. A humanidade
freireana vem à tona nas histórias, especialmente em uma
curiosa cena de ciúmes (ciúmes, sim!) contada na crônica
Olhos Verdes, na qual o professor fica irado por causa de um demorado
(além da conta, pensou ele) aperto de mãos entre Nita e
Chico Buarque.
Por isso, a propósito
dessa necessária vivificação, retomo aqui as palavras
que registrei na capa do livro já naquela ocasião do lançamento.
Nita e Paulo
- Dez anos de convívio intenso, de cumplicidades gostosas, de amorosidade
funda. Uma década de reinvenção afetiva, de trabalho
compartilhado, de existência fruída em abundância.
Paulo e Nita - Duas histórias que se entrecruzaram quase meio século
antes do tempo no qual passaram a tecer a vida em conjunto.
Este livro não
poderia não ter sido escrito. Nita compreendeu que não admitiríamos
ter-nos furtado o gosto de, com ela, repartir o amor presente nos textos.
Afinal, é também o nosso Paulo Freire. Cada crônica
é quase uma oração (nada piegas) que mostra um Paulo
que sabíamos já ótimo e que, com Nita, ficou melhor
ainda.
"Meu marido",
escreve ela em muitas crônicas, tal como Paulo sempre dizia "minha
mulher" (por pertencimento afetivo). Mas, nós insistimos,
é o nosso Paulo Freire. A ele, obviamente, sempre somos gratos.
Agora, nossa gratidão a Nita, pelo amor que deu a Paulo. É
dessa forma, a nossa Nita.
Mario
Sergio Cortella
Professor de Pós-Graduação em Educação
(Currículo) da PUC/SP