Projeto
une experiências pedagógicas de empresa de tecnologia e entidades
do terceiro setor para combater exclusão digital
Tal como um vestibular,
Heitor Mosca, 17 anos, esperava ansiosamente seu nome na lista de aprovados
para participar de um novo programa de combate à exclusão
digital, criado pela Associação Meninos do Morumbi. Ele
acreditava que o domínio da informática e do uso da internet
iria melhorar seus estudos e facilitar sua entrada no mercado de trabalho.
Foram meses de criteriosa seleção, na qual Mosca e outros
299 integrantes da entidade foram avaliados por psicólogos e pedagogos
para ocupar as 120 vagas disponíveis. "Me sinto um privilegiado",
disse quando, enfim, passou a fazer parte do Garagem Digital.
O que Mosca não
sabia é que havia entrado em algo maior do que um mero curso de
informática. O projeto, lançado no fim do ano passado, pretende
desenvolver competências tecnológicas e individuais de jovens
de baixa renda, com idades entre 14 e 21 anos, integrantes da Meninos
do Morumbi. A empreitada sintetiza experiências educacionais de
outras duas instituições do terceiro setor, referências
em inovações pedagógicas envolvendo crianças
e adolescentes: a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança
e a Cidade Escola Aprendiz.
O Garagem conta com o aporte financeiro da HP, companhia de tecnologia
e informática, que vê o projeto como o carro-chefe da atuação
social da empresa no país. Cada parceiro é especialmente
responsável por um aspecto do projeto, de acordo com seu know-how.
A HP, por exemplo, além do apoio financeiro de US$ 250 mil, equipou
com o que há de mais moderno em tecnologia o espaço da Associação
onde funciona o programa. Durante nove meses, alunos e profissionais das
três instituições participarão de atividades
em grupo, nas quais discutirão conceitos de cidadania e capacitação
para o trabalho, enquanto elaboram o portal de música Meninos do
Morumbi. "O site contará com toda a produção artística
da associação, além de suas práticas pedagógicas.
Toda a montagem será feita por eles", explica Flávio Pimenta,
presidente da Associação.
Para se ter uma idéia do montante de trabalho, a entidade, criada
em 1996, já atendeu mais de três mil jovens, utilizando a
prática musical como alternativa às drogas e à delinqüência
juvenil. A Associação Meninos do Morumbi é reconhecida
internacionalmente por esta atuação e faz apresentações
musicais em diversas partes do mundo. Além do desenvolvimento artístico,
os integrantes contam com aulas diárias de informática,
prática de esportes e complementação escolar.
De acordo com João Ribeiro, coordenador pedagógico do Garagem
Digital, a produção do portal musical é o fim de
um longo trabalho que prioriza os quatro grandes pilares da educação
do século XXI: aprender a aprender, a fazer, a conviver e, por
fim, a ser. "Os alunos são protagonistas da construção
de seus próprios conhecimentos", afirma Ribeiro. Além da
capacitação, todos os alunos participantes recebem uma bolsa
no valor de R$ 50, como forma de evitar a evasão, e aulas de redação,
matemática, artes e fotografia.
Para ajudá-los na inovação da prática pedagógica,
a Cidade Escola Aprendiz entrou com a metodologia e com um time de educadores.
Eles estão desenvolvendo atividades com os jovens, realizando oficinas
e debates que envolvem família, profissionais da instituição
e voluntários. O trabalho é baseado no projeto Oficina de
Sites, programa que há três anos gera modelos experimentais
de educação para alunos de ensino médio das redes
pública e particular. Nele, jovens criam sites para organizações
não-governamentais.
Segundo Judith Terreiro, educadora da Aprendiz no Garagem Digital, o primeiro
passo do projeto será trabalhar com a identidade de cada um. "Alguns
vêm para cá marcados pelo preconceito. Eles não conseguirão
desenvolver seus conhecimentos sem auto-estima", explica. Primeiramente,
os jovens produzirão sites pessoais. "É um pretexto para
desenvolver a percepção individual e introduzi-los na linguagem
da web", conta. Mais tarde, aprenderão a trabalhar com softwares
mais complexos. Nessa fase, contarão com a ajuda de profissionais
da área de comunicação e webdesigners que voluntariamente
os orientarão.
Todo o processo de
produção e aprendizado será seguido e sistematizado
pela Fundação Abrinq. "Este programa tem capacidade de ser
adaptado para outras ações sociais. Em vez de música,
pode ser esporte, saúde ou dança", garante Sérgio
Mindlin, secretário-executivo do conselho administrativo da Fundação.
Segundo ele, esse novo canal de ação poderá ser multiplicado
em outras regiões do Brasil. "Há até a possibilidade
de virar política pública de combate à infoexclusão",
crê Mindlin.
O projeto, cujo nome
é uma menção à origem da HP, criada em uma
garagem de Palo Alto, na Califórnia (EUA), não deve ficar
restrito ao tamanho atual. Mais jovens e outras comunidades devem ser
incluídos nos planos de expansão. "Esse programa oferece
ao jovem de baixa renda uma oportunidade de estar em contato com a tecnologia
de informação de forma prática e funcional", acredita
Carlos Ribeiro, presidente da HP no Brasil.
O plano prevê
uma segunda garagem do século XXI, a ser erguida em regiões
carentes da zona leste da capital paulista. Uma terceira beneficiará
a população pobre da cidade de Barueri, na Grande São
Paulo, onde está a sede brasileira da multinacional. Segundo Ribeiro,
a tecnologia deve estar a serviço do bem comum. "Esses jovens sairão
daqui não apenas aptos para concorrer no mercado de trabalho, mas
integrados a várias habilidades do conhecimento e socialmente responsáveis",
afirma.
Antes que percebesse,
o jovem Heitor Mosca sentiu o peso da responsabilidade de estar em um
projeto-piloto que não o tornará apenas um usuário,
mas um jovem multiplicador de aprendizado em sua comunidade. E espera
poder ensinar aos meninos que não conseguiram entrar no projeto:
"É uma forma de retribuir."
Esta coluna é produzida por estudantes e coordenada por jornalistas
do Núcleo de Comunicação da ONG Cidade Escola Aprendiz.