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A maioria não é silenciosa, as elites é que não ouvem Rodrigo Savazoni / Lia Rangel No debate sobre mundo globalizado, dependendo do ponto de vista, educação é protagonista, coadjuvante ou platéia Leia
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A História, definitivamente, ainda não acabou. Tanto que o mundo, no início de fevereiro, dividiu sua atenção entre Nova York e Porto Alegre, para assistir a mais uma etapa dessa vez sem confronto de rua ou destempero verbal do processo de antagonismo que desenha com linhas firmes a polarização entre dois projetos de globalização. A cidade de Davos, na Suíça, deixou de sediar o Fórum Econômico Mundial em homenagem à cidade norte-americana, ainda abalada pela tragédia do World Trade Center. A capital gaúcha, pelo segundo ano consecutivo, foi a sede do Fórum Social Mundial. De 31 de janeiro a 4 de fevereiro, discutiu-se, tanto lá quanto cá, qual globalização deve ser defendida: a baseada em preceitos macroeconômicos ou a que prioriza conceitos humanísticos. Não faltaram apelos para que uma ponte fosse erguida entre as duas cidades, mas ainda não surgiu a arquitetura capaz de unir interesses tão distintos e objetivos tão distantes. Mas, para quem crê que um projeto de mundialização deve derrubar as fronteiras da educação, não há dúvida de que foi no Rio Grande do Sul que se priorizou o fim das barreiras da ignorância e a livre circulação internacional do conhecimento. Em Nova York, no Fórum da elite econômica internacional, a palavra educação não foi tema de nenhum encontro ou deliberação. Por pouco, sequer foi pronunciada. No Fórum Social Mundial (FSM), diariamente, numa maratona incessante de conferências, palestras e seminários, falou-se de ensino, alfabetização, escolas, professores e pedagogia. Mais de 50 mil pessoas, de 131 países, estavam no sul do Brasil para participar da elaboração de alternativas para a integração dos povos em um tal "novo mundo possível", fora da lógica "neoliberal". Ao todo, segundo dados oficiais fornecidos pela organização do FSM, 15.230 delegados de 4.909 organizações da sociedade civil participaram do encontro. No acampamento da juventude, reuniram-se 11.600 jovens, de 52 países. Nesta verdadeira babel tropicalista, 186 línguas foram faladas, sendo o espanhol a língua da integração entre as nações. Enquanto isso, na
capital do Ocidente, líderes políticos, empresários,
economistas e personalidades do showbiz internacional discutiram formas
de fortalecer a hegemonia ofuscada pelos atentados de 11 de setembro.
Na extensa pauta de discussões, crescimento sustentável,
o papel dos Estados na estabilidade econômica, segurança
empresarial e pública, liberdades civis e, claro, a luta internacional
contra o terrorismo. Do encontro em Nova York participaram aproximadamente
2.700 pessoas, número inferior ao de jornalistas cadastrados para
fazer a cobertura do Fórum Social cerca de três mil. Os
presentes ao encontro econômico pagaram caro para pisar no seletíssimo
hall de entrada do Hotel Waldorf Astoria. Um convidado normal, filiado
à fundação organizadora, paga uma anuidade de US$
25 mil, ou US$ 6 mil pelo evento isolado. No portal do encontro de Nova York (www.worldeconomicforum.com), uma breve visita revela que o assunto não consta das agendas anteriores. Já em Porto Alegre, o tema foi discutido pontualmente, durante todos os dias, em seminários, conferências, oficinas e encontros. No endereço www.forum socialmundial.org.br, por exemplo, a palavra educação aparece mais de 70 vezes. Pesquisando termos afins como ensino e pedagogia, esse número quase dobra. Na promoção dessa maratona educacional, três entidades se destacaram: a ONG Ação Educativa, o Instituto Paulo Freire e a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre. Segundo o filósofo francês Bernard Charlot, da coordenação do Fórum Social, essa inclusão maciça da educação deveu-se ao esforço dos organizadores do Fórum Mundial de Educação evento realizado pela primeira vez em outubro passado, também em Porto Alegre , que sentiram necessidade de divulgar os resultados do encontro para um maior número de pessoas. Segundo Charlot, um documento único, definitivo, "reunindo os princípios fundamentais de uma nova educação, destinada a suprir as necessidades básicas do cidadão", ainda será produzido pelo FSM. "Em Davos, eles estão se reunindo há 30 anos. Nós começamos nosso movimento, de fato, no último mês de outubro. É quase um milagre o que fizemos até aqui. Por isso, tenho certeza que, em menos de 30 anos, teremos um documento perfeito." O Seminário
Internacional de Educação, realizado na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul; a Conferência Especial destinada ao tema;
e as oficinas, que ocorreram no Fórum Social Mundial, ofereceram
um amplo mapa da realidade educacional no mundo. Os variados depoimentos,
de delegados das mais distantes regiões do planeta, foram também
necessários para mostrar a expansão das "políticas
mercantilistas" desenvolvidas pelo Banco Mundial. Maria Paula Meneses, da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique, criticou a centralização ocidental dos debates que ocorreram durante o FSM. A antropóloga, que estudou nos Estados Unidos e na Rússia, questionou a todos os presentes sobre as formas de preservação da cultura oral. "É impossível haver algo planificado e estabelecido para toda a humanidade", pontuou. "O que vamos fazer em Moçambique, onde apenas uma parcela reduzida da população fala Português, e a maioria foi criada num ambiente oral de produção do conhecimento? E toda essa cultura que Gandhi chamou de resistência pacífica ao colonizador?" Nos encontros, o que se pôde perceber é que as diferentes realidades de desenvolvimento político-econômico-social ficaram em segundo plano. Falou-se, principalmente, do livre mercado e de suas conseqüências diretas nos países do antigo terceiro mundo. Entretanto, mesmo com a dificuldade dos palestrantes em oferecer planos executivos de transformação do sistema educacional, algumas propostas foram apresentadas. Jocelyn Barthelot, canadense do Fórum Continental de Educação, sugeriu que todos os países participantes do FSM assumissem a responsabilidade de utilizar 6% do Produto Interno Bruto (PIB) em gastos com a educação e % em desenvolvimento. Intervenções
como essas, segundo Bernard Charlot, geram ainda mais discussão
e não necessariamente resolvem o problema. "Em alguns países,
no início da década de 90, investia-se mais do que 6%. Na
Bélgica, por exemplo, 7% do PIB era destinado à educação.
Seria interessante definir um mínimo, mas não se trata apenas
do orçamento, dos meios financeiros, se trata também da
formação dos docentes, das condições de trabalho",
defende. "Com a rearticulação das lutas sociais pelo Fórum
Social, a escola pública voltará a crescer, porque a história
mostra que o ensino melhora em épocas de grande efervescência
política", acredita o filósofo. "A educação, sozinha, é incapaz de mudar o mundo, mas o mundo é incapaz de mudar sem a educação." Essa frase, repetida à exaustão pela maioria dos participantes das discussões de educação do Fórum Social Mundial, soa contraditória. Principalmente porque, se a educação é incapaz de mudar, sozinha, o mundo, as discussões realizadas não deveriam ser tão pontuais, pouco propositivas e centradas apenas no tema. Essa falta de diálogo entre os intelectuais, políticos e militantes que estiveram em Porto Alegre para discutir os caminhos da educação e aqueles especializados em economia solidária, orçamento participativo, políticas públicas eficientes, saúde e alimentação, por exemplo, foi um problema crucial do Fórum. Todavia, com a afirmação do evento neste ano confirmado para ocorrer novamente em Porto Alegre em 2003 o comitê organizador do Fórum Social, em parceria com as organizações civis, estabeleceu um "calendário de lutas contra o neoliberalismo" que resultará em novos e mais constantes encontros. Além disso, no segundo semestre serão promovidas edições regionais do Fórum Social Mundial em outros países do globo. Em dezembro, por exemplo, acontece o Fórum Regional Afro-Asiático, provavelmente no Nepal. Com isso, ambientalistas, políticos, ministros franceses, presidenciáveis, prêmios Nobel, jovens, gays, lésbicas, negros, comunistas, socialistas, anarquistas, educadores continuarão a ter e pelo visto terão cada vez mais possibilidades de se encontrar e discutir o futuro do planeta. O mesmo poderá ser feito em Nova York, nos encontros do G-8, da Organização Mundial do Comércio, e em Davos, que voltará a ser sede do Fórum Econômico Mundial no ano que vem. Quem sabe, quando governantes e políticos das nações mais ricas do mundo se reunirem para pensar em novas estratégias para o futuro da humanidade, a educação entre na agenda. É possível.
Está longe
a possibilidade de diálogo entre os fóruns Econômico
e Social mas há quem tente A ONU mandou para o Brasil José Antônio Ocampo, representante oficial de Kofi Annan, secretário geral da Organização das Nações Unidas. Em Nova York, Horst Koehler, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, fez um discurso surpreendente para a platéia presente. Admitiu que o Fundo cometeu erros na condução das políticas econômicas voltadas aos países periféricos e criticou os países ricos por serem "egoístas demais". O embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, ao ouvir a declaração, brincou: "Ele deveria estar em Porto Alegre." Ainda que os partidos e grupos da esquerda internacional tenham patrulhado os debates e o Partido dos Trabalhadores (PT), em particular, tenha sido acusado de fazer uso eleitoral do evento, a pluralidade de idéias e multicoloração política prevaleceram no Fórum Social, que assumiu um tom mais reformista do que em 2001. Os organizadores do encontro e, de novo, o PT tiveram uma preocupação estratégica: evitar que os debates e as manifestações pudessem ser considerados extremistas, como no fórum do ano passado, marcado pela presença das Farc, a guerrilha colombiana, da Via Campesina, e do performático francês José Bové. Este ano, essas duas
delegações estavam presentes, mas as Farc não foram
convidadas oficialmente. Até o presidente cubano, Fidel Castro,
sofreu uma operação diplomática para que não
viesse ao Brasil. Quem pleiteou a construção do diálogo entre os dois Fóruns foi o presidente do Peru, Alejandro Toledo, atentando para a necessidade de investimentos sociais na América Latina. Toledo, mesmo incapaz de competir em notoriedade com figuras do porte do ex-presidente norte-americano Bill Clinton ou do cantor Elton John, encontrou eco no discurso de grandes empresários, como Bill Gates, da Microsoft, John Chambers, da Cisco, e Steve Case, da America Online. Esses magnatas, diferentemente dos tempos em que defendiam a quebra de todas as fronteiras comerciais, levantaram questões como a preservação da segurança de suas matrizes e a manutenção da paz necessária ao comércio, seja ele livre ou não. Nesse clima, Bill
Gates condenou a "sovinice das nações ricas frente à
miséria mundial", aproveitando para posar ao lado de Bono Vox,
da banda U2. O pop star também falou em prol dos miseráveis
e pregou a ajuda direta das nações ricas em ações
como a compra de remédios baratos e de fácil produção. Levando-se em consideração o texto do escritor José Saramago lido no encerramento do Fórum Social, não será o aparente aspecto de cordeiro dos lobos de Davos que irá satisfazer os que lutam por uma outra forma de globalização. Saramago como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, a intelectual ativista indiana Vandana Shiva e a Nobel guatemalteca Rigoberta Menchu clama por uma radicalização do humanismo no mundo. "É urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo", escreveu o intelectual português. O Fórum Social Mundial não é, como pode parecer, contrário à globalização. O processo de integração entre povos e economias é considerado por todos irreversível. Estrelas do Fórum Social como o anarquista Noam Chomsky (leia mais na pág. 50), professor do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), e o arquiteto, escultor e líder humanista Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980, fazem questão de deixar claro que a globalização é o caminho natural da humanidade. Mas ressalvam sempre palavras de ordem como "a verdadeira globalização é feita para o interesse do povo" ou que a idéia humanista de mundialização é "radicalmente democrática e se presta aos interesses da maioria da população, e não aos projetos econômicos de alguns poucos". (colaborou: Faoze Chibli).
Discurso de adversários
do "modelo neoliberal" de educação é rigoroso nas
críticas, mas vago nas proposições Numa manhã nublada de domingo, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, Educação reuniu os dois intelectuais. Ambos desenvolvem trabalhos acadêmicos e sociais que visam à democratização do ensino público, à inclusão social e à superação do modelo tradicional de educação, considerado "excludente". Nesta conversa, valendo-se de um conceito de Paulo Freire, eles denunciam (os problemas) e anunciam (possíveis soluções). Educação
O que representa o Fórum Social Mundial para o debate sobre educação? José Clóvis de Azevedo O mais importante é a socialização da realidade. É as pessoas tomarem contato com as diferentes realidades e com as alternativas que estão sendo formuladas. Esse processo vai, fatalmente, se desdobrar no fortalecimento de algumas propostas. Schugurensky
Sabemos exatamente qual educação não queremos. E
com um pouco menos de clareza, temos idéia da educação
que queremos. Paulo Freire falava em denunciar e anunciar. É o
que estamos fazendo: denunciando o que não queremos e batalhando
para anunciar o que queremos. E ainda há um ponto fundamental:
como iremos transitar de um lado para o outro. Estamos retornando um debate
sobre educação feito pela humanidade há cem anos
e, de certa forma, lutando pelos mesmos fundamentos da Revolução
Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Schugurensky Na América Latina existe tradicionalmente uma distinção clara entre público e privado: o que é público tem financiamento e governo públicos, e o que é privado possui financiamento e gerência privados. Nos Estados Unidos, há um modelo híbrido: as universidades públicas recebem muito financiamento privado e as universidades privadas recebem também financiamento público. Na educação básica existem, por exemplo, os cheques-escola. O governo fornece o dinheiro e as pessoas escolhem as escolas em que querem estudar. Trata-se de uma idéia que estimula a competição entre as instituições de ensino e gera extrema desigualdade entre as classes sociais. Azevedo Esse modelo foi introduzido nos Estados Unidos pelo Reagan; e o Jorge W. Bush, no início do seu governo, quis ampliar esse sistema. Ao assumir, ele anunciou que iria investir US$ 5 bilhões, mas em forma de cheque-escola. Schugurensky Nesse sistema, as pessoas não passam de consumidoras de educação. O conceito de cidadão, que tem o direito a uma educação pública e igualitária, deixa de existir. O cidadão se transforma em um consumidor de produtos e serviços educativos. Azevedo É
a educação-mercadoria. Quem pode comprar compra, quem pode
ter o melhor tem. Quem não pode, ou compra o pior ou não
compra nada. Azevedo O Banco Mundial é a agência que mais produz política educacional no mundo, e é um banco. Schugurensky Depois dos anos 80, o Banco Mundial superou a Unesco como organização internacional de políticas educativas. E a base do trabalho do Banco Mundial, bem como do FMI, é austeridade no gasto público. Isso, combinado à redução de investimento e salários no setor estatal e à promoção da privatização, resulta na destruição total do sistema educacional público. Apenas para lembrar, o Banco Mundial está estabelecido em Washington, nos EUA, onde a maioria das crianças ainda vai à escola pública. Portanto, o modelo é bom para ser exportado, mas não para ser praticado em casa. Azevedo O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que na globalização não há lugar para todos, que na mundialização existem os "inimpregáveis". Se não tem lugar para todos, o que se faz com os que sobram? (LR e RS)
Professora argentina
fala das lições que podem ser tiradas do processo de falência
do sistema educacional de seu país Ao trocar Buenos Aires por Porto Alegre, as manifestações de rua pelos anfiteatros da capital gaúcha, Marta trouxe junto o discurso firme que a faz respeitada até por adversários em seu país: "Reordenar as vontades políticas tem a ver com a reorganização do sistema educacional, com a história, com as nossas lutas. Não se pode mudar o mundo somente com a educação. Mas é essencial que as pessoas tenham acesso ao conhecimento. E entendam a miséria, a história de nosso povo, e que se informem sobre os organismos de crédito internacional. Só assim será possível compreender uma sociedade solidária para construir democraticamente uma escola que vai mudar o mundo." O número de pobres argentinos aumentou 400%, segundo dados fornecidos pela professora. No início dos anos 90, 14% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Hoje, esse número é de 49%. Quanto aos índices de escolaridade, "59% dos estudantes de até 14 anos vivem sem mínimas condições materiais". O analfabetismo está em 3% e o número de analfabetos funcionais supera a marca dos 20%. "Devido a esse processo de pauperização, os estabelecimentos de ensino passaram a ser instituições de apoio", lamenta. "Hoje, na Argentina, freqüentar aulas significa poder comer." De qualquer forma, assim como no Brasil, o acesso à escola foi universalizado: 97% das crianças têm acesso ao ensino básico "mesmo que este tenha deixado de ter qualidade". A situação dos professores também é ruim, na avaliação de Marta: "Além dos salários baixos e da frustração profissional, os docentes têm de conviver com a ingerência do governo, que no ano passado chegou a decretar feriado escolar de semanas devido à falta de verba para a manutenção das escolas. Há 15 anos não temos um ano letivo completo na Argentina." "Esse processo de sucateamento do sistema educacional argentino se deve à transferência das responsabilidades administrativas do governo federal para as províncias", explica. Durante o período militar (1978 1983), as escolas primárias passaram a ser geridas pelos governos locais. Em 1992, atendendo às indicações do Banco Mundial, o Estado também transferiu o controle das escolas do ensino médio e das instituições de formação dos docentes para as instituições regionais. "Essa mudança ocorreu num momento de ajustes e cortes financeiros, sem que o orçamento necessário para manter as escolas fosse redistribuído para as diferentes localidades", critica. Mais recentemente, um outro processo teve início, a implantação das escolas autônomas, que funcionam com gestão privada e financiamento público. A professora e sindicalista sugere como alternativa para a reconstrução do sistema educacional argentino a implantação de uma política pública que defenda os interesses da maioria da população. E aos professores pede que deixem de perpetuar suas práticas pedagógicas nocivas: "Ou eles estimulam o fracasso, porque acreditam que todo miserável é um fracassado, ou agem com complacência, porque têm pena dos menos favorecidos. As crianças não precisam nem de maltrato nem de compaixão. Necessitam de escolaridade plena, alimentação adequada, estímulos adicionais e de um Estado que lhes oferte uma escola pública de qualidade, com estratégias pedagógicas, curriculares e didáticas bem definidas." Marta Maffei pretendia permanecer no II Fórum Social Mundial até o encerramento para ouvir as histórias que seus colegas de outros países também tinham para contar. Mas, após 43 anos de profissão, não possuía os cerca de US$ 30 que a companhia aérea cobrava para alterar a data da passagem. Não reclamou de ter de voltar antes: "Estou preocupada com meu país." (LR e RS)
Noam Chomsky, principal
estrela do Fórum Social Mundial, dá sua visão sobre
o uso ideológico do conceito de globalização Na coletiva de imprensa que abriu a conferência "Um mundo sem guerras é possível", Noam afirmou que "parte das lutas ideológicas é roubar terminologias". Assim como no livro 1984, de George Orwell, onde os dicionários de Novilíngua não continham palavras supostamente revolucionárias como "esperança", o sistema de construção de pensamento do Ocidente, que também predomina no resto do mundo, tenta evitar que as pessoas pensem com liberdade. Segundo Chomsky, o que hoje é conhecido como "globalização" é apenas um tipo específico dela, boa apenas para um grupo e não para os povos em geral. "Os trabalhadores começaram a globalização há muito tempo. Os maiores sindicatos são internacionais. Isto é que é a globalização, feita para o interesse do povo. Este é o verdadeiro fórum da globalização; o antiglobalização está acontecendo em outra parte do mundo", provocou, referindo-se ao Fórum Econômico Mundial, realizado em Nova York. Chomsky já escreveu que o conceito de globalização, em si, é neutro. Significa simplesmente a integração internacional e independe de suas conseqüências, sejam boas ou más. Ele explica que os maiores grupos econômicos ocidentais, entretanto, têm interesse em dar um significado um pouco mais restrito a essa terminologia. Para eles, "globalização" é uma integração concebida em benefício do poder privado e do fluxo livre de capital, que impede a ação do Estado em benefício dos povos e que produz desemprego ao mesmo tempo em que aumenta as tarifas dos serviços privatizados. Com essa definição consagrada, então, aqueles que se opõem a esse tipo de desenvolvimento econômico podem ser chamados de "antiglobalizantes", como vem ocorrendo de fato. "Então se pode chamá-los de primitivistas que querem voltar à Idade da Pedra para prejudicar os pobres, ou insultá-los de outras tantas maneiras que nos acostumamos a ouvir." Políticos e publicitários sabem que um sistema de propaganda bem focado e bem-feito funciona com eficácia. Ainda assim, admira-se Chomsky: "Não deixa de ser surpreendente que suas vítimas o aceitem, e não deveriam. Nenhuma pessoa em seu juízo seria contrária à globalização. A questão é em que forma adotá-la."
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