Paradigma
propõe educação do corpo e do intelecto aliada à
espiritualidade
O termo holística
vem do grego holos e significa "totalidade". No Brasil, existem educadores
que, ancorados nessa palavra, sugerem uma proposta de ensino que considere
não apenas o corpo e o intelecto, mas também a espiritualidade
e a alma, defendidas por eles como dimensões intrínsecas
ao ser humano.
"Essa idéia
não é nova. Na Grécia Antiga, a totalidade do ser
já era levada em conta. Mas, a partir de Descartes, houve uma fragmentação
da realidade em corpo e alma, o que incentivou o desenvolvimento de linhas
mais materialistas", resume Ruy Cezar do Espírito Santo, professor
da PUC de São Paulo.
Segundo ele, esse
modelo começou a ser questionado no século XX, com estudos
sugerindo a retomada da visão integral do homem e a valorização
daquilo que os cartesianos haviam abandonado. "Não que a hipertrofia
da razão não seja importante. Tanto foi que chegamos a essa
tecnologia moderna, avançada, que ninguém pode descartar.
Mas hoje é fundamental retomar a unidade perdida. Não se
trata de voltar atrás, mas de dar um novo passo", afirma.
Há quatros anos, o Colégio Módulo, em Caraguatatuba,
no litoral paulista, resolveu inserir essa proposta em seu projeto pedagógico.
Atualmente, os alunos da primeira à quarta série do ensino
fundamental, além das tradicionais aulas de matemática,
português e biologia, têm holística no currículo.
O programa do curso é dividido em quatro partes: corporal, intelectual,
emocional e espiritual.
Na primeira, são
dadas orientações sobre cuidados com o corpo, em termos
de alimentação e exercícios físicos, e ensinadas
técnicas de massagem e relaxamento. Na parte intelectual, os estudantes
trabalham valores como respeito, responsabilidade e solidariedade, por
meio de redação, pinturas ou dinâmicas de grupo. Do
lado emocional, são discutidas especificamente as emoções
mais evidentes da infância, como raiva e medo, com os alunos aprendendo
a reconhecer esses sentimentos. E a parte espiritual do programa apresenta
aos estudantes formas de autoconhecimento.
"Nas escolas brasileiras,
a holística começou a ser introduzida recentemente, por
isso, cada instituição de ensino está montando seu
modelo de acordo com suas experiências e clientela. Conosco é
assim também: a cada ano revemos nosso projeto", explica Laucidéa
Agostinho Ribas Sampaio, psicóloga e professora de educação
holística do Módulo. Mas a proposta do colégio não
envolve apenas os alunos. O diretor Carlos Francisco Focesi esclarece
que todos os funcionários (porteiros, professores, administrativos)
e pais integram o processo. "Nós adequamos o ambiente para torná-lo
propício para a humanização dos nossos alunos", diz.
A professora Maria
Luiza Pontes Cardoso, autora de Educação para uma Nova Era
– Uma Visão Contemporânea para Pais e Professores (Summus,
163 págs., R$ 23), avalia que a holística surge neste momento
como um complemento ao ensino tradicional, se preocupando com a dimensão
espiritual do homem.
"Até aqui temos
privilegiado a educação profissional, cognitiva principalmente
– mais até que a emocional e a social –, deixando de lado tudo
o que diz respeito ao objetivo do ser humano, isto é, à
busca de paz e felicidade." Em seu livro, a professora contextualiza a
holística nas ciências e a especifica na educação,
indicando as diversas correntes que aplicam a proposta (leia quadro ao
lado). "Quando se fala em holismo, o objetivo não é educar
apenas o intelecto, mas também desenvolver a sensibilidade das
pessoas", esclarece Maria Luiza.
Outro defensor da
educação integral é Elydio dos Santos Neto, docente
e pesquisador do programa de mestrado em educação da Universidade
Metodista. Estudioso da psicologia transpessoal de Stanislav Grof, as
experiências de Santos Neto a respeito da consciência humana
fundamentaram sua tese de doutorado na PUC de São Paulo, em 1998.
Ele explica que o termo transpessoal significa "além do pessoal",
isto é, "parte do individual", e considera a espiritualidade, o
cosmos, o ecológico.
"Aí começa
uma discussão interessante. Dentro da educação existe
uma pergunta que parece óbvia, mas não é: ‘O que
é educar?’ Educar depende da concepção de ser humano
que você tem; se ela é estreita, minha maneira de educar
será igualmente estreita", afirma o professor.
Segundo ele, uma perspectiva
cientificista, positivista, que considera apenas os sentidos materiais
do ser humano, fornece uma concepção de educação
que é mais voltada ao trabalho intelectual. "Mas a finalidade da
educação é auxiliar as pessoas a desenvolver suas
vidas, o ‘como é que se faz para ser gente’ – indicando quais são
as dimensões da personalidade que é preciso desenvolver
para poder construir a vida individual e coletivamente", completa.
Para o professor,
emocional, moral e espiritualmente, o homem não acompanhou a evolução
científica e tecnológica. Muitas dimensões do ser
foram suprimidas em prol do desenvolvimento material que, segundo ele,
originou uma sociedade excludente. "Dois terços da humanidade não
podem consumir a tecnologia e a ciência maravilhosa que produzimos",
diz.
Apesar do discurso
envolvente dos defensores da chamada educação integral,
o tema ainda gera preconceitos. "Para muita gente, holística tem
cheiro de incenso", brinca Laucidéa. Embora o Colégio Módulo
deixe claro que não segue nenhum tipo de seita, doutrina ou religião,
alguns pais de alunos, quando vão matricular seus filhos, torcem
o nariz para o projeto pedagógico da escola. As perguntas mais
freqüentes são: "O que vai ser ensinado?", "Como a escola
vai falar de fé e religião?". Segundo a psicóloga,
à medida que essas dúvidas são sanadas, a resistência
se dilui.
"Quando falamos em
espiritualidade, não trabalhamos o catolicismo ou o budismo, mas
sim a importância da espiritualidade para ter equilíbrio
na vida. Assim como você cuida do corpo, deve estar atento à
alma, ou espírito, porque é uma energia que faz parte do
conjunto", esclarece Laucidéa. Para ela, o autoconhecimento contribui
para a educação ao tornar o indivíduo mais centrado,
concentrado e com capacidade de intelectualização mais desenvolvida.
Claudenir Belintane,
do departamento de Metodologia de Ensino da Faculdade de Educação
da USP, comenta essas idéias com um pé atrás. Diz
que ainda não é possível definir uma proposta holística
no ensino. Segundo ele, o que existem são idéias esparsas
aplicadas à educação. "O ensino tradicional foi montado
tendo como base o paradigma cartesiano. Todos os livros didáticos
seguem essa linha, que não deve ser descartada. Não se pode
fazer uma ruptura com o passado de maneira tão abrupta", avalia.
Para ele, muitas escolas usam o termo holístico apenas como estratégia
publicitária para atrair alunos. "É preciso tomar cuidado
com isso", diz.
Do outro lado, Elydio
dos Santos Neto tenta dirimir desconfianças. "Minha proposta ainda
choca a tradição universitária, que está acostumada
ao saber positivo; mas é preciso lembrar que a psicologia transpessoal
não depõe contra isso. Embora a metodologia científica
seja necessária, precisamos reconhecer também a complexidade
da condição humana."
Mas as coisas parecem
estar mudando dentro das universidades. Em 1988, quando Ruy Cézar
Martins foi apresentar sua tese de doutorado (O Renascimento do Sagrado
na Educação), na PUC de São Paulo, teve seu projeto
– que foi classificado como "esotérico" – recusado como proposta
inicial. Dez anos depois, defendeu-o na Unicamp. Um sinal de mudança
é que hoje a PUC aceita teses muito mais avançadas nessa
direção, como, por exemplo, a de Santos Neto. Recentemente,
a faculdade de educação da universidade criou uma cadeira
(O Autoconhecimento na Formação do Educador) e convidou
Martins para ser o professor titular