O suposto fim das
ideologias foi decretado há mais de dez anos, quando da queda do
Muro de Berlim. Alguns, eufóricos, decidiram que aquilo era o fim
da História, com letra maiúscula e tudo o mais. Confundiram
o fracasso retumbante do modelo comunista soviético com a vitória
definitiva do capitalismo e das leis de mercado. Vaticinaram como anacrônica
a divisão entre direita, centro e esquerda. A humanidade, enfim,
teria atingido o Consenso, mais precisamente em Washington.
Não é
bem assim. O que o vertiginoso século XX ensinou é que nenhuma
utopia pode ser construída sobre o sacrifício de vidas humanas
e que os homens são radicalmente diferentes entre si. Daí
a concluir que o mundo em que vivemos é o melhor possível
vai uma enorme distância, equivalente à que existe entre
o conformismo e a indignação.
A esquerda tem um
problema grave, gravíssimo: não consegue transformar discursos
inflamados e críticas avassaladoras em ações concretas.
A direita, por sua vez, perdeu a capacidade de justificar em palavras
a perversidade da realidade que ela sustenta. E o centro tem um insolúvel
conflito de consciência: como ficar no meio disso tudo?
Novidade, se existe,
é o grau de complexidade da sociedade em que vivemos. De fato,
nunca foi tão difícil separar heróis de vilões,
sonhos de pesadelos. Tudo indica que as convicções se tornarão
esforços de pessoas perplexas, mas cheias de ímpeto e coragem.
Erros previsíveis serão cometidos na busca de acertos insondáveis.
Ainda não sabemos
que mundo é possível ou provável, a ser aceito ou
desejado. Ao Norte, homens poderosos precisam de simplicidade. Ao Sul,
homens simples necessitam de poder. Na Terra, faltam sabedoria e humildade.