Economista
da Unicamp alerta: diploma não garante mais o emprego, mas sem
ele fica ainda mais difícil
Márcio Pochmann,
professor da Unicamp, mostrou há alguns anos a face pouco conhecida
e até perversa do sistema escolar e do modelo econômico
brasileiros. Suas pesquisas no Instituto de Economia provaram estatisticamente
que o desemprego afeta pessoas de todas as idades e escolaridades. Mais:
um diploma, seja ele de curso médio, técnico ou superior,
não é atualmente garantia de emprego. Cresce cada vez mais
o número de pessoas qualificadas em busca de uma vaga no mercado
de trabalho. Jovens recém-formados encontram-se em situação
ainda pior. A concorrência pelo primeiro emprego é maior
que a disputa pelo vestibular. Existem programas de trainee, por exemplo,
que atraem mais de 30 mil pessoas para poucas vagas. O trabalho do economista
Márcio Pochmann foi uma bofetada para muitos analistas e principalmente
governantes , que vinculavam o desemprego à falta de escolaridade.
O grande culpado? A globalização, segundo ele, que empurra
para os países da periferia o ônus do trabalho braçal,
enquanto as nações ricas usufruem os melhores cargos da
elite pensante. Com rigor acadêmico, as análises e posteriores
explicações de Pochmann nas mais diferentes mídias
e nos seus inúmeros livros atraíram a atenção
dos políticos. Atualmente, Pochmann é titular da Secretaria
de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São
Paulo. É ocupando essa cadeira que ele admite que "a administração
municipal pouco pode fazer para reverter o fantasma do desemprego".
Educação Quem é o vilão do desemprego?
Márcio Pochmann Existem dois grandes e importantes movimentos.
Em primeiro lugar, houve uma nova divisão internacional do trabalho,
que exige mais capacitação e favorece mais a gestão
do que a execução. Essa nova maneira de ver o trabalho pode
ser percebida nos países portadores de novas tecnologias. Países
com baixo índice de investimento em novas tecnologias são
responsáveis por
maior desemprego e maior precariedade nas condições de trabalho.
Os países ricos, ao contrário, têm menor desemprego
e demanda por postos de trabalho com maior qualificação.
As grandes decisões, o pessoal estratégico, de pesquisa,
estão nas matrizes nos países desenvolvidos. Por aqui montam
as fábricas para o pessoal operacional. É a lógica
da globalização.
Educação Então o desemprego não é
fruto da falta de escolaridade?
Pochmann Exatamente. Essa tese se generalizou a partir da constatação
da realidade dos países desenvolvidos. Não serve para nós,
brasileiros, nem para os países latino-americanos e africanos.
Nessas regiões, os postos de trabalho disponíveis, de maior
demanda, são os mais simples. Vou lhe dar um exemplo marcante:
nos anos 90, as ocupações que mais cresceram no país
foram as de empregada doméstica, vendedor ambulante, profissionais
de limpeza e, por último, as de segurança. Não foram
as atividades que demandam mais capacitação, como muitos
apregoam.
Educação Mas a globalização e a abertura
comercial não pressionam as empresas a capacitarem a mão-de-obra?
Pochmann Não, são as inovações tecnológicas
que pressionam a demanda por maior qualificação. Mas não
vemos esse esforço de treinamento de forma generalizada no Brasil.
Até porque 85% dos investimentos em novas tecnologias estão
concentrados nos países membros do G7, ou seja, as nações
mais industrializadas. Isso gera uma divisão de trabalho heterogênea
em todo o mundo.
Educação E qual é o segundo motivo para o desemprego?
Pochmann Ele decorre justamente da pressão por mais qualificação,
mas não influencia a demanda de trabalhadores. No Brasil, não
ocorreram grandes mudanças tecnológicas que exigissem maior
capacitação. As empresas pressionam por maior capacitação
no momento de contratar um funcionário devido a um fenômeno
de grande oferta. Cresce a oferta de mão-de-obra, aumenta o desemprego.
E aí as pessoas com menos capacitação são
expulsas do mercado e a preferência na admissão recai nas
com mais escolaridade. Mas perceba o seguinte: isso não acontece
por uma necessidade específica de qualificação e
sim como uma estratégia de recrutamento. Como o desemprego é
grande, um simples anúncio atrai milhares de candidatos. Para simplificar
o recrutamento, a empresa aumenta as exigências de qualificação,
até para cargos pouco complexos. É um fenômeno que
atinge todos os países com oferta abundante de mão-de-obra.
Hoje, um office-boy em São Paulo deve ter, no mínimo, segundo
grau completo. Não que o diploma de nível médio seja
importante para exercer suas funções, mas porque tem até
candidato universitário disputando a vaga.
Educação O Brasil passou por mudanças tecnológicas
importantes em alguns setores, como o de telecomunicações.
Isso não demanda qualificação?
Pochmann Não disse que não existe alguma pressão
por inovação tecnológica no Brasil. Ela existe em
determinados segmentos. Mas demanda 100 mil postos de trabalho num universo
total de 69 milhões de ocupações. Houve uma demanda
de qualificação, mas não de pessoas capacitadas.
Educação A associação entre inserção
no mercado de trabalho e aumento da escolaridade está errada?
Pochmann Temos, atualmente, mais pessoas capacitadas, escolarizadas,
mas tal crescimento não acompanha a oferta de trabalho. Se a tese
de que o diploma gera emprego fosse verdade, o salário médio,
hoje, seria maior do que há 10 anos. E não é isso
que verificamos.
Educação Mas aumentar o número de universitários,
não é um ponto positivo para o país?
Pochmann É notória a expansão do sistema
universitário, mas associada à quantidade e não à
qualidade. É um gargalo para o futuro. Nível médio
não interessa mais, por exemplo, então as empresas começam
a exigir nível superior. Aí o número de diplomados
em faculdades também é grande e as empresas passam a exigir
formação em universidade de primeira linha, pós-graduação.
Não que isso vá fazer alguma diferença significativa
na função a ser desempenhada. Cursar uma faculdade de segunda
linha não quer dizer nada, não é necessariamente
desabonador. É apenas outro critério de corte por abundância
de mão-de-obra.
Educação Que setores aumentaram a demanda por novas
vagas?
Pochmann Principalmente as ocupações no setor de
serviços e os vinculados à concentração de
renda. Ou seja, aumentou o número de empregadas domésticas,
seguranças, personal training, essas coisas.
Educação E o setor industrial?
Pochmann Alguns setores se destacam, como o das telecomunicações.
Ali houve modificações tecnológicas importantes,
mas é uma porcentagem de contratações pequena dentro
da imensidão de nosso país.
Educação Onde a escola entra nisso? Qual o seu papel
e sua responsabilidade em diminuir o desemprego?
Pochmann A escola deixou de ser o passaporte para o emprego,
como foi no passado. Num passado pouco distante, as empresas colocavam
seus funcionários na universidade. Hoje, os recém-formados
fazem fila nas portas das empresas. Existem programas de trainee que atraem
mais de 30 mil pessoas para menos de uma dezena de vagas.
Educação Quer dizer que estudar não vale mais
a pena?
Pochmann A educação é cada vez mais necessária
para conquistar um posto de trabalho, mas não para manter o emprego.
No município de São Paulo existem mais desempregados de
nível universitário do que analfabetos. O primeiro grupo
totaliza 45 mil pessoas, e o segundo, apenas 24 mil.
Educação As faculdades procuram focar seus cursos nas
demandas do mercado, com cursos de curta duração para formar
determinadas especialidades que as empresas exigem hoje. Não é
um caminho correto?
Pochmann Os ingleses costumam dizer que a educação
tornou-se um estacionamento. Quando o tráfego pára, você
estuda, volta ao banco escolar. O ensino universitário não
tem a ver necessariamente com uma futura ocupação. Evidentemente,
é melhor fazer um curso qualquer que ficar parado em busca de um
emprego que não chega. O erro de muitas dessas ofertas das faculdades
é associar o curso a uma ocupação. A educação
não gera postos de trabalho.
Educação Qual é a alternativa?
Pochmann A solução do desemprego passa pelo estímulo
ao crescimento econômico e sustentável do país. Devemos
crescer mais do que 5,5% ao ano para gerar postos de trabalho compatíveis
com a demanda.
Educação O senhor saiu da academia e agora possui um
cargo na administração pública. O que se pode fazer
para amenizar o desemprego?
Pochmann Não abandonei a universidade. Estou licenciado
da Unicamp, mas continuo lecionando, acompanhando projetos de pesquisa.
A geração de emprego depende da política federal.
O que podemos fazer, e estamos fazendo no nível municipal, é
tirar algum contingente de pessoas de uma situação precária
e postergar a entrada de jovens no mercado de trabalho. Temos aqui em
São Paulo dois projetos: o Renda Mínima, para crianças
e jovens até 15 anos; e o Bolsa-Trabalho, para jovens de 16 a 18
anos.
Educação Quanto isso custa?
Pochmann Gastamos, no ano passado, R$ 52 mil. Atendemos 110 mil
famílias em 2001 e, neste ano, pretendemos beneficiar 300 mil famílias.
Educação O empreendedorismo pode ser uma saída
para a falta de oportunidade no mercado de trabalho?
Pochmann Pode ser para uma pequena parcela da população.
Nem todos possuem espírito empreendedor. De cada dez pessoas, sete
não têm no sangue o empreendedorismo. Ele depende de uma
cultura que nem todas as pessoas têm. Sem falar na grande quantidade
de novos negócios que não dão certo.
Educação O que mudou no mercado de trabalho em São
Paulo?
Pochmann No livro, discuto a evolução do trabalho
na cidade de São Paulo, da escravidão, passando pela industrialização,
até chegar ao estágio atual, de prestação
de serviços. Mudou muita coisa. Primeiro, o fato de São
Paulo ser uma cidade global, onde as principais decisões de investimentos
no Brasil acontecem. Temos várias sedes de bancos, indústrias,
escritórios regionais de multinacionais. Decisões sobre
o destino de 300 milhões de pessoas passam por São Paulo.
Apesar da escassez de trabalho por aqui, somos responsáveis por
diretrizes econômicas que afetam milhões de trabalhadores.
Educação O Fórum Econômico Mundial, ocorrido
em Nova York, e o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, trouxeram
alguma proposta enriquecedora para o assunto?
Pochmann Não acompanhei detalhadamente os dois fóruns,
mas analiso o seguinte: o ponto alto do Fórum Econômico Mundial
foi o entendimento sobre a natureza da pobreza e o reconhecimento dos
países ricos do papel que lhes cabe no processo. Mas não
gerou uma declaração de compromissos. Já o Fórum
de Porto Alegre teve mais declarações de compromissos, mas
os agentes responsáveis por esses compromissos não estavam
lá, e sim em Nova York.