O Banespa pedirá
falência de mal devedor." Esse foi o espantoso título de
jornal que causou alguma perplexidade aos menos distraídos. "Mal
devedor." Não por causa do pedido que o banco iria fazer, mas pelo
uso da palavra "mal" nesse contexto, modificando "devedor". Será
um devedor perverso, agressivo? Uma espécie de Mike Tyson irritado
e sem estribeiras? Alguém das progressistas bancadas pefelista,
pepebista, pemedebista, petebista ou ruralista no Congresso?
Talvez convenha relembrar
que a forma adequada é mau devedor ou mau pagador. Mau é
adjetivo que classifica o substantivo "devedor" ou "pagador". O contrário
de bom, que é boa forma de saber quando usar mal ou mau, como aprendemos
na escolinha de dona Olga. E mal é advérbio, que modifica
verbo, adjetivo ou outro advérbio. Usa-se mau quando no lugar dele
bom vai bem; usa-se mal quando bem fica bom no lugar de mau. Para ser
bem repetitivo, é só testar o antônimo: mal é
o contrário de bem e mau é o contrário de bom. Quem
sabe uma tabelinha grudada no computador que insiste em misturar coisas?
Teria escrito bem
o mau redator: "O Banespa pedirá falência de mau devedor."
Outro texto antológico de jornal: "Está-se há um
mês do prazo dado pelo governo para apresentar ao Congresso uma
proposta...". Bela oração. "Está-se há um
mês do prazo..." Esse há, de haver, referindo-se ao futuro,
é das coisas mais bonitas que um redator pode redigir. Claro que
ele sabe que só em referências ao passado é que se
usa há, e que em relação ao futuro usa-se a preposição
"a" desnuda. Exemplos?
"Está-se a um mês do prazo..."
"Aquele gatuno suarento,
que tem dinheiro oculto no exterior, vai candidatar-se de novo daqui a
alguns meses, em vez de ir para a cadeia."
"O gatunaço
candidata-se há anos e não perde o jeito."
Ele é assim,
o que se há de fazer? Ele e muitos, muitos outros. A lista é
enorme, de eleitos e por eleger-se. Assim que é bom. Variedade.
Os escorregões (seriam enganos?) dos redatores profissionais em
assuntos tão elementares podem ter uma das seguintes explicações,
ou mais de uma:
O dedo do digitador
escorregou; no caso de mau/mal, em vez de premir o "u" com o indicador
da mão direita na linha de cima, apertou o "l" na linha inferior
com o anular; é como se alguém confundisse feijoada com
abacaxi;
O redator (redatora)
se distraiu coçando a testa, pensando em por que a mulher dele
(marido dela) teria murmurado o nome do (a) amigo (a) naquela hora feliz
na noite anterior;
O computador, começando
a revoltar-se com a singeleza da alma humana, sabota-lhe o trabalho;
A direção
do jornal ou da revista aboliu os sistemas de revisão e conferência
e passou a exigir perfeição dos escribas, esquecendo-se
de que "herrar é umano", como escreveu alguém (Millôr?)
ou um viandante pândego, aperfeiçoando o conceito de Sêneca,
"Errar é humano"; depois retomado por São Bernardo, "Errar
é humano, perdoar, divino"; por Goethe, "Erra o homem enquanto
a algo aspira"; por Molière, "Os mais curtos erros são
os melhores".
Mas não foi Cristo, cuja morte os crédulos festejam, sim,
festejam com bacalhoadas em vez de festejar-lhe a anunciada ressurreição
– não foi Cristo que disse um dia a respeito dos enganos mais
variados, inclusive de texto: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem
o que fazem."?
Josué
Machado é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo
(Ed. Best Sellers)