Não
existe paz individual e solitária; não existe um ser humano
sem os outros
Violência. Não
dá para não pensar sobre isso, e, pior, a preocupação
vem emergindo nestes anos como uma aparentemente invencível fatalidade.
É imprescindível não invisibilizar o assunto no interior
das escolas, pois, hoje, violência não é mero "tema
transversal". Por isso, há três anos fiz uma reflexão
na revista Linha Direta, da qual, pela triste atualidade, recupero agora
um trecho.
"A violência
é tema aterrorizante em nosso cotidiano; poucos deixam de ter alguma
experiência (própria ou próxima) com ela, sejam os
assaltos e latrocínios, sejam os seqüestros (relâmpagos
ou não) e as ameaças à integridade física
e patrimonial, nas casas, escolas e ruas. A mídia se refestela;
mesmo levando em conta sua tarefa de informar e alertar, é preciso
lembrar que há tempos não havia um assunto tão sedutor.
Violência é notícia; má notícia, mas,
infelizmente, e, por isso mesmo, mais atraente. A mórbida relação
pânico–salvação (fundamento, também, de algumas
religiões e vários partidos políticos liberticidas)
invadiu as preocupações da população; mostra-se
o fato, instaura-se o pânico, anuncia-se a salvação.
Diagnóstico
mais comum para a situação? Falta de firmeza e excesso de
impunidade. Terapias recomendadas (algumas delirantes, outras demagógicas
e, muitas, equivocadas): pena de morte, presídios em profusão,
truculência policial, abrigos de ‘segurança máxima’
para menores, diminuição da maioridade penal etc.
Ora, todas as formas de violência mencionadas precisam ser combatidas
e extintas; são inaceitáveis e merecem urgência no
enfrentamento de suas causas e na prevenção de seus efeitos.
Porém, não são as únicas, não estão
sozinhas; as demais (e as há em grande quantidade) são obscurecidas
por aquelas que vêm tendo destaque exclusivista. Essas outras violências
(contra os corpos e as mentes) favorecem (mas não tornam justas)
as que estão em evidência."
No mesmo ano, outra
reflexão, na revista Família Cristã: "Quem já
não disse (às vezes silenciosamente) ou, até, bradou
em alta voz: Paz! Eu quero paz; quero ficar em paz. Eu só queria
um pouquinho de paz!?
Porém, não existe paz individual e solitária; não
existe um humano sem os outros. Ser humano é ser junto. É
necessário negar a afirmação liberticida de que a
minha liberdade acaba quando começa a do outro. A minha liberdade
acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é
livre, ninguém é livre.
Se alguém não
for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem
ou mulher não for livre da discriminação, ninguém
é livre da discriminação. Se alguma criança
não for livre da falta de escola, de família, de lazer,
ninguém é livre. Por isso, é preciso que à
paz (para que ela se efetive) se acresça a justiça. E o
que é justiça? É todos e todas terem paz." Essa utopia
ainda vale? Precisa valer.
Mario Sergio Cortella é professor de pós-graduação
em educação (Currículo) da PUC-SP.