Salas
de aula na Espanha, França e Alemanha chegam a ter mais da metade
de alunos imigrantes, apesar do preconceito
Marroquinos, chineses,
russos, colombianos, argentinos, brasileiros, romenos, búlgaros,
equatorianos. Essa reunião de nacionalidades tão distintas
agora pode ser encontrada em várias escolas européias. No
Instituto de Ensino Médio Murgi em El Ejido, Almería, na
Espanha, cinco anos atrás só havia alunos espanhóis.
Tomás Sánchez, professor do Instituto, lembra que a inserção
de estudantes estrangeiros formou, no pátio do colégio,
uma verdadeira torre de babel. A origem desse fenômeno - que já
se faz notar também na França e na Alemanha - está
além dos limites do colégio.
Em Almería,
uma pequena cidade no sul da Espanha, mais de 10% da população
é estrangeira. Os imigrantes mudam-se para lá em busca de
trabalho na colheita de morango e levam consigo os filhos. Muitas dessas
crianças ingressam na escola sem dominar o idioma local. Essa situação
- até então inédita para os professores - é
cada vez mais comum em todo o território espanhol e serve como
amostra dos novos ! desafios impostos aos educadores europeus.
O Velho Continente
representa uma possibilidade de melhora de vida para muitas pessoas na
África, na América do Sul, no Leste Europeu e na Ásia
- regiões que nos anos 90 mergulharam em crises de ordem política,
econômica e social. Segundo os dados da ONU, já são
18 milhões de imigrantes na União Européia. Isso
sem contar os clandestinos, estimados em 3 milhões.
Os imigrantes são bem-vindos quando se fala em ocupar as vagas
de mão-de-obra barata, mas nem tanto no quesito integração
social. O crescimento da chegada de estrangeiros começou a preocupar
os governantes europeus e esteve durante todo o ano passado como um dos
principais problemas da agenda política.
Dentro das instituições
de ensino é possível ver um reflexo desse contexto. Uma
pesquisa encomendada pelo Ministério de Educação
da Espanha mapeou os imigrantes escolarizados no país e o avanço,
que já era nítido, foi comprovado. Na província da
Andaluzia, por exemplo! , havia, dez anos atrás, 3.382 estrangeiros
matriculados. Em 2002, ess e número passou para 17.099 - cinco
vezes mais. Como o crescimento de crianças nativas é bem
menos acelerado, as salas de aula ficam cada vez mais multiculturais.
Jesus Cristo ou
Alá? - Em algumas escolas, professores que nunca tiveram contato
com a cultura muçulmana estão dando aulas para alunos que
chegam do Marrocos e de outros países do norte africano. Carlos
Fuxet, que auxilia na educação desse grupo de estudantes
na Espanha, comenta que a distância de valores é maior do
que se pensa. "Muitos imigrantes querem conseguir um trabalho e abandonar
a vida escolar o quanto antes. Não podemos tratá-los como
crianças, porque já aos 12, 13 anos eles são tratados
como adultos em suas casas. Mas nem de longe se comportam como pessoas
crescidas."
Miriam Vazques, orientadora
pedagógica do mesmo grupo de estudantes, enfrenta um problema ainda
maior: "Esses meninos vêm de uma cultura machista em que a
mulher não tem voz. Muitas vezes eles não respeitam as ordens
das professoras, pois as recebem como uma afronta."
Os marroquinos são
maioria em boa parte das escolas da Espanha. Para chegar até lá,
os garotos - as meninas se arriscam em m! enor quantidade - têm
apenas de atravessar os 14 quilômetros que separam a África
da Europa no ponto mais próximo, o Estreito de Gibraltar. E muitas
vezes fazem isso em embarcações clandestinas. São
muçulmanos e na escola do país de origem aprendem francês.
Do outro lado, terão de falar espanhol e conviver com a religião
católica.
Em Paris, onde a proporção
de islâmicos também é alta nos colégios - desde
os anos 70, a França recebe pessoas da Tunísia, Argélia
e Marrocos -, não é o idioma, mas os costumes que causam
atritos. Muitas garotas querem usar, na escola, o chador (véu com
que cobrem a cabeça, respeitando a tradição secular)
e se recusam a participar das aulas de educação física.
Os professores insistem para que elas cumpram o regulamento escolar e
as associações islâmicas se manifestam contra. Vez
ou outra uma menina é afastada do colégio para se preparar
para o casamento. Mais uma vez a instituição resiste em
tolerar. Raramente chegam a um acordo.
Guetos - A
equatoriana Rosio mudou-se de Quito para Barcelona há pouco mais
de um ano. De médica pediatra passou a trabalhar na limpeza. "Ainda
não estou regularizada, não tenho escolha", lamenta.
Logo que chegou, Rosio matriculou seus três filhos num colégio
ali perto. O acesso das crianças à escola foi imediato -
encontrar vagas nos centros públicos não é um problema.
Os euros que ela e o marido ganham, entretanto, não garantem uma
vida digna. Os cinco membros da família dividem o mesmo quarto
num apartamento pequeno, onde moram outros nove equatorianos. "De
manhã, temos de pegar senha para usar o banheiro", diz ela
tentando brincar, mas sem esconder que está ali por falta de opção.
"Pelo menos estamos ganhando."
No colégio
dos filhos de Rosio, a concentração de imigrantes é
alta e isso não é coincidência. Em algumas escolas
eles não chegam a 1% e, em outras, batem os 90%. Como fez a equatoriana,
os imigrantes costumam procurar um lugar para morar próximo de
seus con! terrâneos. Formam guetos, onde preservam com mais fidelidade
a língua, a religião e os costumes nativos. Nas escolas
situadas nas proximidades dessas regiões, a concentração
de estrangeiros acaba sendo bem mais alta.
No grupo escolar do
bairro Lava Pies, em Madrid, na Espanha, 80% dos alunos são equatorianos,
aponta Amaia Camacho, integrante da ONG Assembléia para a Paz.
Segundo ela, as professoras têm grandes dificuldades para ensinar
os alunos e chegam a questionar se não deveriam trocar as aulas
de história da Espanha por aulas sobre o país de origem
da maioria das crianças.
Diante desse desafio,
os especialistas perceberam a necessidade de um novo sistema pedagógico,
que trabalhe com as diferenças e prepare os pequenos para conviver
numa sociedade multicultural. Passaram a falar, portanto, em pedagogia
intercultural, definida pela Unesco como um conceito fundamentado nos
direitos humanos, que promova democracia e cidadania. Um modelo ideal
ainda não foi concebido,! mas a falência dos conceitos antigos
pode ser percebida cotidianament e.
Crise - Mikel
é espanhol. Seu primeiro idioma é o basco. Arrate é
espanhola. Também fala basco. Curro, apesar de seus olhos e cabelos
claros, não nega sua origem quando abre a boca - traz no sotaque
carregado a herança flamenca -, é, sem dúvida, um
espanhol andaluz. Todos têm pouco mais de 20 anos e moram juntos
em um apartamento em Barcelona, a capital da Catalunha (Espanha). Onde
vivem, se fala o catalão. A comunicação entre eles
só é possível por um elemento unificador: o castelhano.
Idioma que só foram dominar quando ingressaram, ainda crianças,
na escola.
Os três jovens
fazem parte de uma mesma nação que, apesar da pequena dimensão
territorial (a Espanha cabe no Estado de São Paulo), é caracterizada
por diferenças culturais imensas. Não é por acaso
que o maior elemento unificador desse povo lhes foi apresentado numa sala
de aula - isso é o que defende Jurjo Torres, pedagogo e catedrático
da Universidade de La Coruña.
Torres defende a importância
das institu! ições de ensino na formação de
uma nação, pois reconhece que elas são fundamentais
para a socialização de um determinado mundo de valores,
assim como um idioma que contribui para a formação de uma
história comum e uma identidade coletiva. "É na escola
que se aprende a falar, ler e escrever, que se conhece a aritmética,
a história de sua comunidade, seus costumes, marcos fundamentais,
os limites de seu território. Nessa mesma instituição,
construímos a visão que temos em relação aos
outros países e povos", explica.
A presença
cada vez maior de crianças estrangeiras nas salas de aula acabou
mostrando que esse sistema de ensino está mesmo defasado. O fenômeno
também deixou evidentes as falhas de um sistema que reflete os
interesses de grupos dominantes.
"A chegada massiva
de imigrantes na Europa é um problema imprevisto. Diante dele,
a instituição escolar se apresenta desarmada, confusa e
pouco disposta. Nos referimos a uma instituição que sempre
impôs a assimilação, sen! do uniformizadora, uma máquina
de criar súditos ou cidadãos, mas, aind a assim, todos iguais,
com uma única cultura em comum", comenta Mariano Enguita Fernandez,
sociólogo e pesquisador da universidade de Salamanca.
Para Fernandez, o
desafio está em enfrentar a questão da multiculturalidade.
"A educação ideal está baseada no respeito e
reconhecimento das diferentes formas de se comunicar, das minorias ignoradas,
dos imigrantes que vêm de ambientes distintos, com outro modo de
vida e visão de mundo. Nem professores nem instituições
estão preparados para esse enfrentamento", admite o sociólogo.
As dificuldades para
lidar com a inclusão dos imigrantes aparecem nas ações
cotidianas. Em uma mesma sala convivem meninos marroquinos muçulmanos,
chineses budistas e latino-americanos ateus. E todos se submetem à
forma de pensar ocidental. Por isso, Torres chama a atenção
para a seleção do currículo. "Tudo o que se
ensina parte de um ponto de vista eurocêntrico e 'mono': monocultural,
monolingüístico, monoétnico, monoideológico.
Nega-se a diversidad! e para impor uma única cultura, a 'comum',
a de 'consenso', 'valiosa' e 'histórica'", condena o pedagogo,
dando o exemplo da invasão na China. "Quando a Europa necessitou
justificar a exploração da China, mudou a imagem do país.
Ele deixa de ser dono de uma civilização refinada e culta
e aparece como uma sociedade infestada de drogas, miséria, corrupção
e tortura. Além de tudo, a Europa se apropriou de numerosos descobrimentos
orientais."
Fernandez evidencia
esse problema na limitação dos conteúdos apresentados
nos livros didáticos. Quando se ensina literatura, "se proclama
a glória da pátria e de heróis nacionais" -
fatos controversos para muitos alunos, como os latino-americanos. Para
eles, personagens cultuados num país podem ser grandes vilões
na história de sua terra natal.
Ele também
questiona o modo como a geografia é exposta. "Insiste-se na
imposição de limites e fronteiras. Isso não tem sentido
para crianças ciganas, que têm uma vida itinerante",
ponde! ra Fernandez. Até a matemática, uma ciência
aparentemente exata, acaba recebendo críticas, especialmente quando
unifica o sistema de pesos e medidas e o apresenta como único,
em muitas ocasiões.
Racismo - José
Marin, antropólogo peruano estudioso do assunto há mais
de 20 anos, acrescenta que a diversidade deve ser encarada como uma riqueza,
não como um obstáculo. "Essa reflexão pode nos
ajudar a combater as atrocidades do etnocentrismo ou do racismo, que nos
levou à purificação étnica na ex-Iugoslávia
ou à discriminação como ideologia política
na Europa, em pleno século XX", expõe ele.
O risco do racismo,
apontado por Marin, tem como um de seus maiores exemplos o caso da região
de El Ejido, em Almería, na Espanha, onde está o Instituto
Murgi. Em fevereiro de 2000, um grupo de moradores resolveu se vingar
do assassinato de uma jovem cujo autor supunha-se ser um marroquino. Munidos
com barras de ferros e pedaços de madeira, saíram atacando
indiscriminadamente os estrangeiros, seus carros e suas casas. Terminaram
colocando fogo na região onde moravam.
Uma pesquisa feita
com 6 mil crianças nas escolas de Barcelona, publicada no jornal
El Periódico, mostrou ! resultados alarmantes. Os pequenos foram
convidados a desenhar a imigração no seu país. Enquanto
alguns demonstraram solidariedade, outros rabiscaram na folha em branco
dizeres como "Saiam daqui" ou mesmo "Fora negros",
ao lado de um barquinho com uma pessoa dentro voltando para seu país
de origem.
A urgência das
mudanças no sistema educacional é nítida. Mas, na
prática, existem apenas experiências e tentativas isoladas.
Em El Ejido, por exemplo, foram lançadas as Aulas Temporais de
Adaptação Lingüística (Atal) para reforçar
o ensino do idioma fora do horário de aula. O professor Tomás
Sanchez foi escolhido para compor a equipe que circula por várias
escolas. "Buscamos um mediador cultural para nos ajudar no contato
com as famílias", explica, referindo-se a pessoas que possam
fazer uma ponte entre a escola e os estrangeiros.
Um dos cuidados desse
programa é não marcar as aulas nos horários de educação
física ou de atividades extras. "Não podemos comprometer
os momento! s de integração entre as crianças",
diz o professor. Ele comenta que, ao contrário do senso comum,
o nível do ensino não caiu com a presença de imigrantes
nas escolas. "Se eles têm mais dificuldades é por ainda
não dominarem o idioma ou por entrarem já na metade do curso",
defende.
Outra iniciativa interessante
é o Projeto-Piloto Mediterrâneo de Educação
Intercultural: Conto-Cartas, aplicado em dez escolas da Espanha. Crianças
de 12 anos, espanholas e marroquinas, são incentivadas a trocar
cartas, contando sobre suas vidas, suas atividades de lazer e suas crenças.
"O objetivo é se conhecerem melhor e desfazer os estereótipos
culturais", conta Pepi Soto, antropóloga da Universidade Autônoma
de Barcelona.
Contramão
- Existe, entretanto, uma linha de pensamento que caminha na direção
oposta à da educação para a multiculturalidade. Essa
corrente que ignora a diversidade na escola tem na França seu principal
representante. Leslie Limage, coordenadora de educação da
Unesco de Paris, explica que lá a idéia de reconhecer a
diferença nunca foi bem aceita: "Primeiro por causa do sistema
escolar francês, que foi solidificado no fim do século XIX
sob o princípio de igualdade. Todos têm os mesmos direitos
e deveres, o que garante a unidade nacional."
Essa visão
explica porque os termos multiculturalismo e preservação
de identidades culturais têm pouco espaço nas escolas francesas.
"O papel da escola é educar os alunos para dar conhecimento
e serem futuros cidadãos. Suas comunidades, seus costumes e suas
religiões são um problema que não cabe à escola
resolver. Então, para o bem ou para o mal, acredita-se que reconhecer
as diferenças não seja o melhor caminho", explica.
O peruan! o José
Marin discorda de Limage e alerta para o risco de se confundir integração
com assimilação cultural. "Integrar é aceitar
o que somos e nos abrirmos para conhecer o outro. Não podemos renunciar
ao que somos como preço para se integrar à sociedade. Democracia
consiste em respeitar a pluralidade e aí está o desafio",
acredita Marin.