Nos últimos
meses de 2002, após o resultado do segundo turno das eleições,
Luiz Inácio Lula da Silva terminava seus discursos admitindo conhecer
as expectativas que existiam sobre seu governo. Dizia saber que não
podia errar. No discurso de posse, subiu o tom e garantiu: "Eu não
vou errar."
A verdade é
que erra e continuará errando - pelo menos no que diz respeito
ao uso da língua portuguesa formal. Já errou muito mais,
a ponto de constranger alguns ouvidos mais sensíveis. Muitos ainda
se lembram dos "menas", "percas" e do uso constante
de um impróprio "de que" de Lula.
Na escola da vida
que cursou, o presidente nunca foi reprovado por um "s" a menos
ou uma concordância errada. O problema é que na escola tradicional
essa anistia ainda não chegou. Aliás, nem no mercado de
trabalho: quem escreve ou fala com erros crassos tem menos chances de
conseguir uma vaga numa empresa.
Com a vitória
de Lula nas urnas, professores começam a se perguntar o quanto
a fala do funcionário público número um influenciará
negativamente na sala de aula. Pelo que se pôde perceber até
agora, a interferência de Lula na escola é a mesma que teve
FHC ou qualquer outro presidente: nenhuma.
Mas há uma
armadilha por trás dessa polêmica. Estudiosos do português
são unânimes ao defender a existência de uma língua
viva, aberta a regionalismos, estrangeirismos e neologismos. E tolerante
à flexibilidade de regras gramaticais e sintáticas. Sob
esse aspecto, o que faz diferença na formação do
indivíduo é a convivência em comunidade, com amigos,
pais e professores.
A discussão
a respeito do uso de um português culto pressupõe uma rigidez
gramatical que tornaria a língua quase impronunciável. Mais,
parte da idéia de que só existe uma língua correta,
o que tornaria gramáticos e lingüistas seus juízes,
capazes de arbitrar a respeito de seu uso adequado.
Há várias
línguas possíveis. A melhor delas é a que mais ajuda
na comunicação. Disso, Lula entende muito bem. A! ponto
de convencer 55 milhões de brasileiros a votarem nele.