Educador
e consultor de empresas conclama os professores a estimular o prazer pelo
aprendizado e mostrar que estudar não precisa ser chato
Especialista em marketing
industrial, diretor da consultoria JCTM, fundador do Ateliê Tempo
& Espaço, escritor. José Carlos Teixeira Moreira tem
um currículo extenso, de fazer inveja a muito executivo. Já
trabalhou em grandes empresas, como Perkins Enginer, Nibco Corporation
e Falk Sund Strand, mas é como educador que ele prefere ser lembrado.
Filho de mãe professora, Teixeira Moreira foi um aluno inquieto,
que gostava de sentar "no fundão" e ficar rabiscando
invenções mirabolantes nas últimas páginas
dos cadernos. Buscou na escola um refúgio para o tédio que,
segundo ele, assola muitos estudantes. "A turma do fundão
é mais ousada. No futuro, esses jovens irão empregar os
colegas que sentavam nas carteiras da frente", sentencia, apostando
na irreverência e na criatividade como formas de ter sucesso. Para
ele, a escola precisa estar mais sintonizada com a aplicação
prática de seus conhecimentos e deixar para a graduação
a visão de "ciência no estado de arte".
Revista Educação
- Você costuma dizer que os alunos que sentam nas últimas
carteiras da sala de aula serão os futuros patrões dos estudantes
que ficam perto da lousa. Por que você acha isso?
José Carlos
Teixeira Moreira - Os alunos do fundão são mais ousados,
por isso vão empregar os alunos da frente. No fundão, eles
manifestam sua contrariedade com o status quo, mostram uma inquietude
diante de soluções já consagradas. Mas têm
uma genuína atenção para tudo que é novo.
É como se viessem de um tédio constante e precisassem criticar
o que está estabelecido. A imagem que muitos jovens têm da
escola é que estudar é muito chato. A disciplina que a escola
convencional exige torna os alunos mais reféns do que co-autores
do processo de aprendizagem.
Educação
- É possível mudar essa imagem pré-concebida que
o aluno tem da escola?
Teixeira Moreira
-Sim, isso pode estar nas mãos do professor. Há
duas características da profissão de docente. Uma é
profana, lembra que ensinar faz parte de um dever que precisa trazer algum
dinheiro no final do mês. É o magistério profano -
não porque é ruim, mas porque não tem paixão.
Quando é genuína a empatia, quando a arte de aprender é
mais importante que a de ensinar, aí a profissão se mostra
sagrada. Ser professor é ter um lado profano e outro sagrado.
Educação
- Mas como acabar com o tédio dos alunos?
Teixeira Moreira
-Usando isso em seu favor. Veja bem, muitos alunos buscam nos
estudos um refúgio para se salvar do tédio. Educar deveria
ser seguir a ética do prazer. Ouço famílias que têm
filhos mais velhos fora do mercado de trabalho se perguntarem se a escola
vale a pena mesmo. O garoto se forma em engenharia e quer ter sucesso
indo pelo caminho mais convencional, procurando estágio em uma
grande empresa. Só que, em alguns casos, são 20 mil candidatos
para uma vaga. Então, a conversa em casa fica num desalento, o
irmão menor vê o mais velho desempregado e começa
a se perguntar para que estudar. As pessoas esquecem que não há
segmento congestionado. O que existe é jeito de fazer congestionado.
Educação
- Tédio, desânimo, desemprego - não é muita
coisa nas costas do professor?
Teixeira Moreira
- Se é. O professor ganha mal, muitas vezes tem de dar aulas
em várias escolas para compor um salário decente. Quando
uma professora é boa, foge do convencional e começa a se
destacar, é comum comentarem na sala dos professores: "Ah,
também, ela tem marido executivo, não precisa disso."
Sei disso porque também dou aulas [de marketing industrial nas
fundações Dom Cabral e Getúlio Vargas, ambas de São
Paulo] e ouço esse tipo de comentários o tempo todo. Me
chamam de rico, dizem que dou aulas por hobby. Outro dia, um colega falou:
"Você dá aula-show, é um artista, não
um professor." Até fiquei contente: eu, artista?
Educação
- É muito comum o professor ser mal-remunerado e a escola, ou o
governo, não ter muitos recursos para investir. Como evitar que
esse cenário interfira na qualidade do ensino?
Teixeira Moreira
-Esse raciocínio tem um problema, porque se cria uma "espiral
suicida": não tem recurso, piora a qualidade; com pouca qualidade,
param de investir e diminuem os recursos. Para crescer é preciso
aumentar o recurso, mas isso não quer dizer só ter dinheiro.
Numa escola, recurso é também conteúdo. Um professor
que domina bem seu conteúdo tem chances de aumentar sua competência
e dar uma aula melhor. Ele pode melhorar a qualidade do ensino sem ter
de gastar um tostão. Mas, para isso, ele precisa ser apaixonado
pelo que faz, tem de amar dar aulas. Só a paixão gera recursos.
Essa é a diferença entre uma visão econômica
e uma análise centrada em valores. Escuto alguns professores comentarem:
"Quando estiver ganhando bem, melhoro minha aula." Mas! aí
nem precisa.
Educação
- O professor pode dar uma aula mais atraente ao aluno entediado sem ter
de fazer investimentos financeiros?
Teixeira Moreira
-Claro que sim. Aliás, a imagem de uma aula tradicional
- com professor explicando a matéria e alunos ouvindo e copiando
- é incomparavelmente inferior, em termos de sensações,
a qualquer programa de TV.
Educação
- Mas a competição com a TV, com os jogos eletrônicos
ou com a internet, não é cruel? Na maioria das vezes, esse
aparato tecnológico mais entretem do que educa.
Teixeira Moreira
-Não estou sugerindo que o professor concorra com a TV,
só que deixe sua aula mais atraente. O ambiente socioarquitetônico
das salas de aula, por exemplo, tem de estar disposto de modo a facilitar
a relação entre professor e aluno. A disposição
das carteiras, na aula de matemática, não precisa ser igual
à da aula de português. Alguns dos profissionais mais bem
pagos do mundo são os vitrinistas da joalheria Tiffany's. Repare
como o cenário da vitrine é todo pensado para valorizar
uma jóia, algo tão pequeno. Professores poderiam usar conceitos
como esse, poderiam pensar na cenografia da classe. Numa aula de geografia,
por exemplo, cadeiras virariam istmos, num canto da sala poderia haver
uma fonte, com água saindo de uma bombinha, para que o aluno ouvis!
se o som do rio ou do mar. Já reparou como o cenário da
escola é sempre o mesmo? É tudo igual, com mesa, lousa,
professor, alunos, carteiras. As escolas, às vezes, são
lindas por fora, têm uma fachada maravilhosa, mas, por dentro, são
muito convencionais. Para o aluno, é como se ele fosse ao teatro
assistir às mais variadas peças e tivesse sempre o mesmo
ator, o mesmo cenário. Já que a escola tem um elenco estável
de artistas, nada impede que exista um núcleo de aprimoramento
desse elenco.
Educação
- Sua mãe era professora. Qual foi a influência dela em sua
visão de educador?
Teixeira Moreira
-Minha mãe é responsável por tudo de inovador
que fiz na vida. Quando ela morreu, aos 80 anos, eu ainda era muito novo.
Meus pais foram um pouco meus avós: quando eu nasci, meu pai tinha
51 anos. Lembro que quando eu era criança, os pais dos meus colegas
de escola tinham 27, 28 anos. O meu tinha 60. Minha mãe era uma
mulher muito inovadora. Mas meu pai foi mais marcante para mim, ele me
deu uma estranha sensação de contemplação.
Educação
- Você dá aulas para executivos. Como é essa experiência?
Teixeira Moreira
- Como sou da área, existe um conceito de empatia. Uma vez,
investiguei porque os executivos elogiam tanto alguns programas de gestão
avançada. Eles me diziam: "Porque quem dá aula é
do ramo." Tanto melhor será o professor quanto mais ele for
"do ramo". Ele tem de estabelecer uma relação
entre conhecimentos e saberes práticos. É uma pena que nem
escolas nem professores invistam muito nesses saberes práticos.
Educação
- Mas nem todos os conhecimentos têm aplicação prática.
Teixeira Moreira
-Mas aí é anti-ético. O ensino tem de estar
a serviço do homem, para construir uma sociedade melhor, seres
mais inteiros, tudo tem uma aplicação, senão é
desperdício. Na escola, a criança aprende a solução
para todos os problemas. Ela sai da escola cheia de soluções,
mas sem os problemas. Ela tem de decorar todos os afluentes da margem
esquerda do rio Tocantins e nem sabe pra que vai usar isso. Aí
entra o professor, para ajudar o aluno a migrar da matéria para
o sistema, do macro para o micro. Se o professor explica os problemas
da Amazônia, fala de ecologia, vai fechando, depois chega nos rios
e nos afluentes, é outra coisa. Tem gente que defende a ciência
no estado de arte: mas para crianças? Faça isso na graduação.
Crianças têm muita curiosidade, mas elas querem entender
para que as coisas servem. É como as empresas: elas são
válidas quando ajudam a c! onstruir uma sociedade melhor.
Educação
- Você não acha que o aprendizado é um fim em si?
Teixeira Moreira
- Tem pai que diz para o filho que ele estuda para passar na faculdade.
Faculdade é meio, não é finalidade. Falta causa e
utopia na educação. Há um sonho de futuro que precisaria
ser resgatado junto aos professores, para dirigir as aulas. Qual é
o impacto do Lula na escola? Ele mostra que intuição é
conhecimento, mas sem raciocínio. Lula é depositário
de conhecimentos práticos - justamente esses que a escola não
valoriza muito.
Educação
- Como o conhecimento prático pode ser valorizado?
Teixeira Moreira
-Uma vez, li uma pesquisa que dizia que ensinando você aprende
95%. Boa escola é aquela que ajuda a formar professores. Tenho
quatro filhos e o menor, o Pedro, de 9 anos, ouve muita música.
Outro dia, ele chegou chateado porque a professora estava dando uma aula
de música. Comentei: "Pô, filho, mas você adora
música." D! epois, descobri que ela usava um pandeirinho para
marcar compassos, um a coisa muito chata. Imagine, o garoto tem uma bateria
completa em casa e tem de ficar marcando compasso num pandeiro? Nada contra
o pandeiro ou a professora, mas ela poderia descobrir se outros alunos
sabem tocar algum instrumento e tentar formar uma bandinha ou usar esse
conhecimento em benefício de uma aula diferente. Isso é
um currículo oculto que o professor pode bem mapear.
Educação
- Falta criatividade para melhorar, então?
Teixeira Moreira
- Também. O verdadeiro educador é apaixonado. Ter
repertório é fundamental, mas quando ele cria, faz a diferença.
E, lógico, vira um estorvo naquele grupo de professores que está
acostumado a dar sempre a mesma aula, do mesmo jeito. Não é
fácil mudar. Um exemplo bem simples: o livro do "sêo
Creisson" virou um best seller, a molecada adora. O falar errado
do "sêo Creisson" é altamente criativo. É
de baixíssimo nível, mas engraçado. Às vezes,
o "não" favorece o "sim". Antigamente, criaram
um personagem, o Sujismundo, que vivia todo sujo. A idéia era ensinar
as crianças a ter cuidado com a higiene e não sujar as ruas.
Funcionou tanto que, anos depois, o Cascão nasceu usando o mesmo
conceito. O problema é que as escolas lidam com os professores
como se lida, no meio empresarial, com commodities. É tudo igual.
E esquecem que as coisas valem pelas suas diferenças.