A
educação tem o dever ético de fomentar a rejeição
ao morticínio de inocentes
Trinta dias após
os horripilantes atentados do tristemente famoso 11 de setembro de 2001,
ainda estávamos atordoados, procurando responsáveis e explicações.
Começava naquele momento uma tentativa de tornar palatável
e, por isso, sem oposição, qualquer forma de ação
reparadora daquela inominável agressão, tendo início,
também, um esforço por estabelecer o conceito de "guerra
justa" contra qualquer país que acolhesse ou fosse conivente
com os supostos autores.
De onde veio esse
atordoamento? É provável que a origem esteja na nossa incompreensão
ocidental sobre outros modos de pensar e agir fora de nossos padrões.
O Ocidente tem uma presunção curiosa de imaginar que inventou
a si mesmo, desconhecendo, até, que o Ocidente nasceu no Oriente.
Quando as chamadas
civilizações hegemônicas existiam no Oriente, os termos
que se usavam para designar o caminho correto eram "orientado"
e "desorientado". Nos últimos 700 anos, a supremacia
passou para o norte do planeta. Num prim! eiro momento, para o norte europeu,
depois, especialmente nos últimos 100 anos, para o norte americano.
E aí, as expressões que se passou a usar foram "norteado"
e "desnorteado".
Em setembro de 2001,
presenciamos uma desorientação do Ocidente, e ela permanece.
Foi lançado um alerta: "Atenção, a globalização
é muito mais financeira do que cultural." Não conhecemos
e nem acolhemos outras culturas, mas, isso sim, outros mercados e recursos
econômicos.
Não podemos
nos furtar ao dever ético de recusar com consciência e veemência
qualquer intervenção política, econômica ou
militar que, novamente, tal qual outras formas de assassínio, vitime
inocentes. Por isso, em um clima muito assemelhado àquele que hoje
internacionalmente vivemos, no qual havia já um prenúncio
de guerra e no dia exato em que se lembrava um mês dos atos terroristas,
escrevi na Folha de S.Paulo uma reflexão chamada A Ameaçadora
Consciência Letárgica, da qual agora retomo um trecho.
"A história
(do Ocidente ou do Oriente) nos ensina a não querer glorificar
os morticínios, mesmo sob pretexto de serem justos, pois, como
lembrou o escritor Henri Barbusse em sua vivência francesa da I
Guerra Mundial, 'seria um crime mostrar os lados bons da guerra, ainda
que ela os tivesse!'; afinal, as mortandades belicistas só podem
ser julgadas na sua inteireza em função do critério
estabelecido pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht: 'as mães
dos soldados mortos são os únicos juízes da guerra',
o que retoma a advertência feita pelo historiador grego Heródoto
(século 5 a.C.), ao dizer que 'ninguém é tão
insensato que prefira a guerra à paz; em tempo de paz, os filhos
enterram os pais; em tempo de guerra, os pais enterram os filhos'."
É preciso reeducar
a nossa consciência coletiva e perceber como esse processo de confrontos
letais necessita ultrapassar a lógica da idolatria mercantil e
do obscurecimento humanitário, sob pena de estilhaçarmos
a idéia de Humanidade.