No
final do milênio, Brasil ainda está longe de erradicar o
analfabetismo
Em 1997, com a Emenda
Constitucional 14, o comprometimento com a erradicação do
analfabetismo no Brasil foi adiado de 2000 para 2007. Apesar da mudança
de prazo, a tarefa de alfabetizar cerca de 13,3% da população
com mais de 15 anos parece distante. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílio (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) de 1999, cerca de 15,1 milhões de pessoas não freqüentaram
a escola por mais de um ano.
Na visão de
alguns especialistas, a situação da Educação
de Jovens e Adultos (EJA) aponta o descaso com que o tema é tratado
pelo governo federal e a contradição das ações
do mesmo.
Por um lado, há
o estimulo e apoio às ações do programa Alfabetização
Solidária - iniciativa da organização não-governamental
Comunidade Solidária. Por outro, não há de fato uma
política pública para a erradicação do problema.
"Hoje há
uma situação difícil que é a 'exclusivização'
de políticas no ensino fundamental para a faixa de idade considerada
adequada de 7 a 14 anos", explica a professora da Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo (Feusp), Lisete Arelaro. Para ela,
a exclusão da EJA no Fundef fez com que estados e município
não se interessassem pela erradicação do analfabetismo.
Para a professora,
a única proposta política concreta para EJA é o programa
Alfabetização Solidária, da organização
presidida pela primeira dama Ruth Cardoso, o Comunidade Solidária.
"Mas é uma visão assistencialista e eventual, um pouco
parecida com a do século XIX", ressalta.
Até o final
do ano, o programa atingirá cerca de 1,5 milhão de alunos.
Com isso, o Alfabetização Solidária pretende pressionar
os governos municipais a criar novas vagas para o ensino supletivo. Entretanto,
dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep),
apontam que, desde que foi criado em 1997, foram registrados apenas 6
mil novas matriculas na rede municipal de ensino.
Segundo a superintendente
executiva do programa, Regina Esteves, de todos as pessoas que participam
das aulas do Alfabetização Solidária 71,9% saem possuindo
algum domínio da leitura e escrita. Ela afirma, rebatendo eventuais
críticas, que a alfabetização total é impossível
de ser atingida em curto prazo: "Nosso principal objetivo é
incentivar as cidades a promover a oferta pública".
"A falta de uma
proposta política faz com que a EJA no Brasil caminhe em marcha
lenta", arrisca Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire
e professor da Feusp. "Não adianta formular programas, porque
é muito fácil parar com eles pela metade quando muda o governo",
afirmou durante debate que fez parte da programação da Semana
da Alfabetização, promovido pela Comunidade Solidária.
O evento integrou as mobilizações que ocorreram em torno
do dia internacional de alfabetização de jovens e adultos,
no último dia 8.
Os números
do IBGE, apesar de retratarem uma gradual redução do analfabetismo
ano a ano, omitem o centro do problema. Lisete Arelaro acredita que, ao
menos que se tenha feito um "atendimento mágico", o analfabetismo
no Brasil não diminuiu tanto quanto mostram as estatísticas.
Segundo o IBGE, de 1991 até 1998, houve uma redução
de 6,3% de analfabetos.
"Não há
uma explicação para essa diminuição. Essa
estatística é decididamente fantasiosa", afirma. A
professora acredita que os censos ainda não possuem metodologias
específicas que possam determinar a diferença entre quem
é alfabetizado ou não. Além disso, os analfabetos
adultos acabam morrendo sem serem alfabetizados, já que o foco
do Fundef está nas crianças e jovens, e contribuem assim
para os números otimistas.
No último dia
12, o Ministro da Educação, Paulo Renato Souza, anunciou
a criação de um plano de apoio para o atendimento de quem
não conseguiu cursar o Ensino Fundamental na idade considerada
adequada.
Para 2001, serão
investidos R$ 190,4 milhões em benefício do ensino supletivo
de 800 mil alunos que residem em estados e municípios de baixos
Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) - Acre, Alagoas, Bahia,
Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco,
Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e
Tocantins.
Como já ocorre
com o Fundef, o dinheiro será distribuído de acordo com
o número de matriculas de cada região. Serão R$200
para cada aluno da suplência. Os outros municípios dividirão
R$ 56,6 milhões entre si.
Isoladamente, o dinheiro
não será a maneira do governo federal erradicar o analfabetismo,
segundo Lisete. "Se junto com o dinheiro, as esferas públicas
forem convidadas a participar, pode ser que o ministro observe que apenas
o reforço financeiro é insuficiente", sugere.
Iniciativas de municípios
ou organizações da sociedade civil têm ajudado na
luta contra o analfabetismo de jovens e adultos de maneira pontual. O
município de Diadema, na Grande São Paulo, a partir de 1997,
passou a contar com uma Divisão especial para o assunto na Secretaria
da Educação. Desde então, o município desenvolve
um programa para melhorar a qualidade do ensino supletivo de sua rede
que possui 7.500 pessoas matriculadas.
Outros órgãos
administrativos foram convidados a participar. A Secretaria do Trabalho,
junto com o Instituto Florestan Fernandes elaboram, por exemplo, cursos
de informática, mecânica e construção civil,
criando estratégias que envolvam a educação profissional
- jovens infratores também contam com os benefícios dessa
parceria.
Há também
o apoio da ONG Ação Educativa que prepara oficinas pedagógicas
para professores e diretores da rede de ensino, que juntos com a Divisão
da Secretaria da Educação irão elaborar uma nova
proposta curricular.
"É um
trabalho que possibilita uma relação horizontal entre secretaria
municipal, supervisão e professores da rede", conta Adriana
Silva, professora assistente de coordenação da Escola Municipal
Carlos Drummond. Segundo ela, a chave do processo é envolver os
professores na elaboração de programas evidenciando o lado
pedagógico ao invés de apenas captar recursos.