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Ave, Cesare! Cleber Borges Vencedor do Prêmio Educador, conferido pela Revista Educação e Cidade Escola Aprendiz, Cesare La Rocca é um raro exemplo de vida dedicada à educação Leia
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Em 18 de janeiro de 1968, um jovem italiano veio ao Brasil, como integrante de um grupo de católicos que tinha curiosidade em conhecer a Amazônia. O rapaz pretendia ficar no país por apenas um mês. Mas a beleza da terra e sua riqueza natural quase intocada o seduziram. Cesare de Florio La Rocca, então com 29 anos, decidiu ficar no Brasil. Ao adotar o país paradisíaco, ele assumiu também um desafio que poucos brasileiros aceitam: combater as desigualdades sociais e trabalhar pela infância abandonada. Esse compromisso, hoje, está materializado em uma vitoriosa e aclamada experiência educacional: o Projeto Axé, da Bahia. Os meninos de rua de Salvador atendidos pelo projeto são os filhos desta terra que La Rocca educa com paixão de missionário. Ao acolher o estrangeiro, natural de Florença (não por acaso berço do Renascimento), o Brasil na verdade foi acolhido por um homem que dá provas de que este país é viável e ainda vale a pena ter orgulho de ser brasileiro. La Rocca nunca compreendeu como uma nação tão rica pode ostentar tantas disparidades e injustiças. Foi essa mesma inquietação que o levou - 40 anos atrás - a fundar uma das primeiras entidades voltadas para crianças excluídas no Amazonas, o Centro Social Nossa Senhora das Graças, em Manaus, no Beco do Macedo, então a maior favela daquela capital, hoje um bairro consolidado. Nele, dirigiu durante muitos anos uma escola profissionalizante para 400 adolescentes e uma pré-escola para 200 crianças, denominada Gurislândia, e que ainda estão em atividade. "Em 69 já tinha crianças que dormiam no pátio da catedral local. Aquilo me impressionou muito", lembra La Rocca. Considerando concluído seu trabalho, em 1981, transferiu-se para o Rio de Janeiro, a convite da extinta Fundação Nacional do Bem Estar Social (Funabem), onde durante três anos trabalhou como assessor-técnico. Até que, em 1983, passou a atuar no Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, onde coordenou por mais de dois anos o Projeto Alternativas de Atendimento a Meninos e Meninas de Rua, juntamente com a Funabem e o Ministério da Previdência Social. Era uma iniciativa voltada à identificação de iniciativas bem sucedidas de atendimento a crianças excluídas, que perdurou até 1987. Em 1985, Cesare deixou o projeto, ao ser nomeado representante-adjunto no Brasil do Unicef, mudando-se para Brasília. O regime militar que chegou ao poder no Brasil com o golpe de 64 enfrentava seus últimos momentos. Entre 1985 e 1990, o país viveu um período de grande efervescência política e muitas esperanças. Data desta época a promulgação da Constituição de 88 e a edição do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 90. Havia um clima de grande euforia cívica, que favorecia as manifestações de criatividade e imaginação. Nos anos 60, Martin Luther King costumava dizer: "Eu tenho um sonho". Cesare La Rocca também tinha o seu. Ele sonhava com um projeto transformador para os filhos e filhas das camadas mais baixas, que pudesse ser realizado sob o signo da "melhor educação para os mais pobres". Daí surgiu o embrião do que viria a se transformar, pouco depois, no Centro Projeto Axé de Defesa e Proteção à Criança e ao Adolescente. Em meados de 1989, o marco metodológico do futuro projeto estava pronto. Os referenciais teóricos eram Paulo Freire e Jean Piaget. Do educador pernambucano, o Axé apropriou-se da dimensão política da educação. Seu grande ensinamento à humanidade, diz La Rocca, é que "o ato de educar é político". De Piaget, foi absorvida a compreensão de como se dá o processo do conhecimento na criança. Mais tarde, foram incorporados conceitos desenvolvidos pelos psicanalistas Sigmund Freud e Jacques Lacan. "Deles, aprendemos qual a dinâmica do desejo no ser humano", incorporada à Pedagogia do Desejo, síntese da metodologia do Projeto Axé. Mas quem ajudaria o educador florentino a realizar seu próprio desejo? Ele relembra: "Ao sair do Unicef recebi vários convites, mas somente um apontava na direção do sonho. Terra Nuova, uma ONG italiana de cooperação internacional e que me convidou para coordenar algo na área de meninos de rua em Salvador, onde estava abrindo seu escritório de representação no Brasil. Ponderei que seria mais produtivo implantar uma iniciativa assim numa grande metrópole como São Paulo, mas eles insistiram em Salvador e aceitei. Entretanto, tinha alguns princípios inegociáveis. Eu não queria repetir o que já se fazia no Brasil. Minha idéia impulsionadora foi a de dar a melhor educação aos mais pobres. Eu rejeitava a tese de que para quem nada tem qualquer coisa serve. Além disso, defendia o profissionalismo dos educadores e o sistema de formação permanente. Não queria instalar oficinas de carpintaria, corte e costura ou manicure. Eu pensava em arte e cultura a serviço da educação". Ele afirma que sua atitude não era de desprezo ao voluntariado que predominava nas ONGs brasileiras, mas a convicção de que, para se realizar a suma ousadia de educar, não bastavam solidariedade, generosidade e disponibilidade - é preciso que haja competência profissional. "Eu me recusava a realizar um projeto educativo pobre para pobres. E a Terra Nuova aceitou o desafio, juntamente com o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de rua, que deu ao projeto, ainda sem nome, o fundamental apoio político e institucional", recorda. Nessa época, um encontro marcou o processo de implantação do projeto. "O jornalista Gilberto Dimenstein ficou hospedado por alguns dias em minha casa, na praia de São Tomé de Paripe (subúrbio ferroviário de Salvador). Numa noite lhe apresentei meu sonho. Gilberto ouviu com atenção, fez uma série de perguntas e concluiu: 'Acho que esse projeto vai fazer uma revolução'". Esse episódio é lembrado também por Dimenstein, no prefácio do livro Plantando Axé: uma proposta pedagógica (Cortez, 264 págs., R$ 25). Quando conheci o rascunho do Projeto Axé, na primeira semana de 1990, já morava há sete anos em Brasília, onde era diretor da sucursal da Folha de S. Paulo e colunista (...) Viver em Brasília, por tanto tempo enredado na engenharia do poder, produziu-me a frieza do cirurgião, um misto de cinismo e ceticismo. Naquele janeiro, tinha dado um salto que, fui ver depois, não teria mais volta. Depois de colher indícios, no ano anterior, de que haveria no Brasil um processo sistemático de assassinatos de crianças, saí percorrendo as cidades, perseguindo testemunhos e documentos - a investigação seria a base do livro A guerra dos meninos (...) Denunciar o assassinato de crianças era denunciar a política brasileira, sua irresponsabilidade e crônica leviandade diante dos mais frágeis (...) A investigação sobre as crianças faria com que meu olhar ficasse ainda mais amargo (...) O novo ciclo não estava, porém, na denúncia - mas na saída. A saída que me foi apresentada por Cesare de Florio La Rocca, em sua casa de Salvador, quando mostrou o sonho de instalar um projeto que reeducasse as crianças de rua (...) Reeducar aqueles meninos era como reeducar o Brasil - ambos aparentemente sem solução. Faltava dar nome ao projeto. Um dia de 1990, dirigentes da Terra Nuova encerravam mais um dia de trabalho na sede provisória do projeto (a casa de Cesare). Um deles perguntou: "Afinal, qual é o nome desse projeto?". Fez-se o silêncio. La Rocca recorda: "Olhei para fora da janela da sala; o sol estava desaparecendo atrás da Ilha de Maré, nas águas da Baía de Todos os Santos. Na praia, nuvens de capitães de areia brilhavam sua negritude nos últimos raios do sol. 'Axé', sussurrei. Projeto Axé. Os dirigentes, recém-chegados da Itália, não entendiam nada e me olhavam, interrogando-me silenciosamente. Expliquei que no candomblé da Bahia, axé é o princípio vital, a energia que permite que todas as coisas existam. Chamando o projeto de Axé não estamos apenas prestando homenagem à religiosidade e à cultura afro-brasileira. Estamos também afirmando que a criança é o axé mais precioso de uma nação". Uma década após aquele fim de tarde, educadores e educandos do Axé escrevem páginas importantes na história da educação no Brasil. "Me cerquei de pessoas pragmaticamente competentes e teoricamente consistentes para gerir o projeto". Quando olha para o passado, percebe que, nos tempos do Centro Social Nossa Senhora das Graças, não trabalhava com a sofisticação pedagógica de hoje. O Axé alargou seu campo de atuação. Não se limita apenas a trabalhar com crianças em situação de rua, mas com todas as excluídas e destituídas de seus direitos. Depois de dez meses de implantado o Projeto Axé, seus artífices perceberam que algo ainda faltava. Conforme Cesare, quando uma criança grita, na cara do educador, que nada tem a perder, algo de terrível aconteceu; a infância foi destruída e suas características fundamentais, que são sonhar e desejar, foram perdidas. "Fomos buscar em Freud e Lacan a compreensão do universo do desejo e do sonho. Desejo não se ensina, mas pode ser estimulado". A metodologia estava completa, com a introdução da Pedagogia do Desejo. La Rocca explica: - Se é verdade que o desejo pode ser estimulado, se é verdade também que a necessidade pode ser satisfeita, mas o desejo não, ainda assim o educador não pode sentir-se desestimulado. Ele deve agir à semelhança do navegante, que busca o horizonte e nunca o alcança. Cabe a ele fazer com que o educando consiga resgatar não apenas o direito, mas a capacidade de sonhar e desejar. Se o Estatuto da Criança e do Adolescente define meninos e meninas como sujeitos de direito, o Axé pretende ir além. Nele, a criança repousa sobre um tríplice fundamento: ela é sujeito de direito, sujeito de conhecimento e sujeito de desejo. La Rocca queria garantir aos filhos da exclusão "o direito à vida, com V maiúsculo". Alguns podem até contestar esse método. Afinal, não é arriscado fazer com que crianças pobres passem a sonhar com uma vida melhor? Ele tem a resposta na ponta da língua: "Cabe a nós colocar um pára-quedas psicológico para que a criança chegue ao solo em segurança, num campo de realizações possíveis". Isso porque, na sua opinião, a melhor educação para os marginalizados é uma utopia, o que não significa uma impossibilidade. "A utopia é algo que ainda não existe, mas pode vir a existir. Como italiano e florentino, não poderia deixar de considerar que para uma sociedade vir a ser perfeita é preciso ser um pouco anarquista. É impossível educar sem estética, sem beleza, sem arte e cultura". Florença e Salvador lhe deram pressupostos que podem ser universalizados. "A cultura existe em todos os recantos. Aqui, na Bahia, temos a predominância dos elementos afros, dos quais nos apropriamos, mas a arte e a beleza são universais". A porta de entrada do Projeto Axé possui duas colunas: a ética, fundamentada nos direitos humanos; e a estética, baseada na compreensão da arte. É em razão disso que surgiram as oficinas temáticas ModAxé (inserida no mundo da moda), Casaxé (decoração de interiores), Casa de Sons (projetos na área da música) e Dança. Conforme explica a coordenadora de cultura e arte do Projeto Axé, Marle de Oliveira Macedo, a entidade não vê a arte apenas como meio de educação e sim como educação em si mesma, uma vez que mobiliza os sentimentos, a razão e o fazer. São três as formas de acesso à arte no Axé: o aprendizado técnico e teórico, com vistas à profissionalização dos educandos; o conhecimento e a sensibilização, buscando, por meio da informação e da experimentação, propiciar a experiência estética e seduzir o educando para a arte e o belo; e o deleite e fruição, promovendo o contato prazeroso dos meninos e meninas com a arte e a estética. A partir da Pedagogia do Desejo, o Axé conduz-se, na prática, de forma também diferenciada. Ele não confina crianças e adolescentes em creches, orfanatos, ou escolas formais. Pelo contrário, procura o primeiro contato com o educando no local onde costuma passar a maior parte de seu tempo: a rua. O educador dirige-se a locais públicos preestabelecidos, procurando se integrar ao ambiente onde as crianças vivem. Aproxima-se delas aos poucos, estabelecendo o que se denomina de "paquera pedagógica". Quando se cria um vínculo de confiança, passa-se para e etapa seguinte, quando o educador revela-se como um membro do Projeto Axé e procura atraí-la para uma das atividades nele desenvolvidas. A escuta é um dos métodos estruturantes da atitude pedagógica do Axé na relação com os educandos, como destaca sua coordenadora pedagógica, Valda Cecília Abud Vilanova. "A escuta confirma o vínculo educador-educando, pois, quando este último fala da sua intimidade, dá uma prova de confiança no educador. Contando sua história, do seu ponto de vista, a criança percebe-se como protagonista. A subjetividade do menino vai aflorando, permitindo ao educador um entendimento do seu comportamento", explica. Os relatos são, muitas vezes, chocantes. Paulina (nome fictício), por exemplo, tem 11 anos. Por estar na rua, é uma criança precoce, tem corpo de menina, mas leva vida de mulher. Ela diz que vive nas ruas devido ao padrastro, que a trata mal. Ela é muito arredia. Diz que saía com taxistas, mas não transava, só apalpava. Durante a conversa ficou nervosa e reconheceu que fazia sexo mesmo e que ninguém tinha nada com isso. Revelou que transava por dinheiro, para sustentar o vício de droga. Histórias assim costumam chocar o educador, mesmo sendo experiente, mas ele não pode deixar transparecer isso. O diálogo é a chave da atividade pedagógica dos educadores do projeto. Como cita Valda Vilanova, é através dele que se estabelece de forma real e simbólica a relação educadoreducando, tanto individualmente quanto em grupo, nas chamadas "rodas", nas unidades mantidas pelo Axé. Uma das preocupações do projeto é com o day after, quando se dá o processo de desligamento do adolescente. Alguns são aproveitados na própria entidade, atuando na área administrativa ou nas atividades práticas (veja quadro). Mas a grande maioria desliga-se, assumindo profissões, voltando para as escolas tradicionais para completar os estudos ou dando seqüência à atividade em que se deu melhor no projeto. Segundo Valda, há todo um investimento nessa preparação, para evitar que se instale a crise no jovem que chega ao estágio final no Axé. É certo que uma nação não se faz apenas pela educação, mas a nação não pode ser construída sem a educação. Esta, para vingar, depende da criatividade. "A proposta do Axé, feitas as devidas adaptações, é universal". Mas, o que fundamenta a existência da entidade? "Sozinhos não temos a capacidade de mudar a realidade social. Mas, pelo efeito-demonstração, mostramos que, com vontade e criatividade, é possível fazer com que o Brasil seja um país menos injusto", afirma Cesare La Rocca, esse incorrigível sonhador de pés no chão. Axé!
Ruy Pavan, coordenador
do Univef na Bahia e Sergipe César Borges,
governador da Bahia Padre Clodoveo
Piazza, presidente da ONG Organização do Auxílio
Fraterno (OAF) Antônio Imbassahy,
prefeito reeleito de Salvador
Para crianças e jovens de rua, ser acolhido pelo Projeto Axé pode ser uma rara oportunidade de futuro Para crianças e adolescentes marcados pela exclusão social, deixar a rua para retomar os laços familiares e, ainda por cima, entrar numa atividade diária que inclua algum tipo de aprendizado prático para a vida, já se constitui numa vitória. Quando, além disso, o menino ou menina consegue se sobressair dos demais em alguma forma de arte ou atividade cotidiana, inserindo-se no mercado de trabalho, aí a vitória é completa. É o que aconteceu, por exemplo, com Adenilton José dos Santos, 20 anos, mais conhecido por "Pelé", que hoje é bailarino-bolsista da Cia. Primeiro Ato, de Minas Gerais, considerada um dos melhores grupos de dança contemporânea do país. Flanelinha desde os dez anos de idade, em um dia de 1994, quando estava trabalhando numa sinaleira da Barra, bairro classe média alta de Salvador, foi abordado por um educador do Axé. Tinha 15 anos e pouca perspectiva de vida. Aceitou prontamente o convite para conhecer o Projeto e atuar numa de suas unidades. Em 1996, entrou na Oficina de Dança, então ligada ao Balé do Teatro Castro Alves, onde logo se destacou. Este ano, participou de uma audição da Cia. Primeiro Ato, em Salvador. Agradou e recebeu convite para ser bolsista. Em Belo Horizonte desde agosto último, onde treina pela manhã e à tarde, ele dá duro tentando passar a integrar o primeiro time da companhia. Enquanto isso, nos próximos meses, continuará recebendo uma bolsa mensal no valor de R$ 600, com qual ajuda a pagar o aluguel de uma casa de quarto e sala, que divide com um colega de dança. "Estou me desenvolvendo muito", diz "Pelé", que toma aulas de teatro, ballet clássico, dança moderna e canto. Cristiane Santana de Oliveira é outro exemplo de superação. Aos 19 anos, ela é, há dois anos, recepcionista do Projeto Axé, onde é considerada uma das funcionárias mais dedicadas. Considera-se uma pessoa feliz. Mas nem sempre foi assim. Até os dez anos morava na rua, sem perspectivas. Não conhecia a mãe e o pai não aceitava que morasse com ele. Acolhida pelo Axé, com o tempo passou para a ModAxé, griffe do projeto, onde aprendeu sobre moda até os 17 anos. Graças a sua dedicação, acabou aproveitada na própria instituição e, hoje, mora só, mas numa casa que é sua, um quarto e sala que comprou com o próprio dinheiro, no bairro Engenho Velho da Federação. "Trabalhar no Axé é bom, pois tem quem te ouça, podemos desabafar", diz. Com apenas o primeiro grau concluído, Cristiane sonha alto. Continuará estudando, com o propósito de vir a ser educadora da instituição. "Investiram em mim, me deram oportunidades. Fui bem acolhida e quero crescer ainda mais. Quando eu me tornar educadora, poderei fazer por outras crianças que vivem nas ruas o que fizeram por mim".
Crianças e
adolescentes atendidos - 1.473
Projeto Ilê Ori é a inovadora experiência pedagógica do Projeto Axé Há cinco anos, pedagogos do Projeto Axé perceberam que crianças e adolescentes ligados à instituição freqüentavam pouco as escolas públicas. Eles eram bons cantores, bons músicos, bons estilistas, bons bailarinos. Mas péssimos alunos. O ensino tradicional não os atraía e a evasão era grande. Isso provocou no Axé o desejo de ter uma escola que atendesse às necessidades dos estudantes, garantindo sua permanência e progressão regular. Em abril de1999, foi criada a Escola Municipal Barbosa Romeu, numa parceria com a Prefeitura de Salvador, para desenvolver um projeto pedagógico experimental, denominado Ilê Ori - Casa do Conhecimento, produzindo uma reflexão sistematizada. "Todo o trabalho parte do conhecimento prévio do aluno, respeitando seu saber", explica a coordenadora do Axé, educadora Ená Pinto Benevides, responsável pela direção da escola. Em termos práticos, quando um professor exemplifica alguma coisa, o faz a partir de elementos incorporados ao dia-a-dia do estudante. Na Casa do Conhecimento trabalha-se com projetos didáticos. "Neste semestre desenvolvemos estudos sobre guias turísticos de Salvador, o estudo de espécies ameaçadas de extinção, como as tartarugas marinhas, e doenças sexualmente transmissíveis. Quando falamos, por exemplo, dos animais ameaçados, remetemos à questão ambiental, uma coisa puxando outra", explica Elizabeth Monteiro, da Escola Barbosa Romeu. A escola possui 910 estudantes matriculados, dos quais 620 estão matriculados nos turnos matutino e vespertino, e 290 à noite. A clientela inclui tanto garotos oriundos do Axé quanto pessoas da comunidade onde o colégio está instalado, no bairro periférico de São Cristóvão, próximo ao Aeroporto de Salvador. Em função da elevada repetência, o nível de escolaridade ainda é baixo. "A maioria dos alunos cursa a alfabetização", constata Monteiro. Para estimular a aprendizagem, todos participam do planejamento e definição dos projetos pedagógicos, junto com os professores. Ao final do ano letivo, os alunos apresentam um trabalho prático, que pode ser um vídeo, um livro ou uma cartilha. "No projeto sobre DST's, os estudantes fizeram um vídeo, que divulgaram depois nas escolas públicas, ensinando como evitar a contaminação. O ensino atende, dessa forma, a uma vertente social", diz Elizabeth. Dotado de boas instalações, o colégio possui biblioteca, quadra e dois laboratórios de informática, onde os alunos fazem pesquisas na Internet. "Os computadores não servem para formar digitadores, são ferramentas usadas no ensino", afirma. |
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