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Quem viver, verá Jander Ramon Escolas se rendem a processos de fusão para enfrentar novo modelo econômico global Leia
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A globalização da economia não se contenta em freqüentar o quadro negro e começa a fazer parte da realidade das escolas particulares brasileiras. Tudo pode ser apenas um sintoma passageiro. Mas há quem garanta que o processo de reordenação global do mercado é uma tendência irreversível - inclusive para as instituições de ensino. O fato é que já são visíveis os primeiros sinais de que o setor de educação reproduz um movimento já verificado em áreas estratégicas da economia mundial - como instituições financeiras, indústria automobilística e segmento de alimentação - e que consiste em fusões ou aquisições de grupos ou empresas menores pelos maiores. Somente em São Paulo, Estado mais desenvolvido e com maior índice populacional do País, pelo menos quatro negócios envolvendo associações ou incorporações entre colégios privados, transacionados entre oito escolas, agitaram o mercado este ano. Além disso, outras quatro fusões e três incorporações estão em andamento, segundo a CNA, empresa de consultoria para escolas. Especialistas da área econômica defendem que estas são as primeiras de uma série de negociações que ocorrerá no setor durante os próximos anos. Por esse raciocínio, vai se configurar um novo mapeamento do segmento, com redução do número de estabelecimentos de ensino particulares e, conseqüentemente, formação de grupos mais lucrativos e solidificados em termos financeiros. De olho no que seria o início de uma nova fase do setor, bancos e empresas multinacionais começam a criar departamentos para investir de forma específica na área de educação. As razões que justificariam os negócios de fusão ou incorporação passam pela ampliação da produtividade das escolas - por exemplo, melhor ocupação do espaço físico a partir do aumento do número de alunos por sala de aula. A redução das folhas de pagamento é outro aspecto considerado, assim como a provável sinergia existente entre as escolas a serem fundidas - o que possibilitaria maior oferta de serviços ao atuar em segmentos de ensino complementares. "Passamos a viver dentro de um cenário em que, após uma fusão, a escola oferece novos cursos e dá continuidade à trajetória de ensino do aluno dentro de sua própria estrutura. Com isso, esse colégio deixa de ser fornecedor de alunos para outros estabelecimentos por causa da ascensão educacional destes alunos ao longo dos anos", afirma Eugênio Machado Cordaro, sócio-diretor da CNA. Não por acaso, a Escola Caravelas, da qual Cordaro é um dos sócios, e o Colégio Oswald de Andrade, ambos situados na cidade de São Paulo e que foram fundados durante os anos 70, anunciaram em setembro que, a partir do ano que vem, se fundirão em uma única escola. "Buscamos ganhar produtividade tendo em mente um projeto futuro de desenvolvimento dentro do setor", diz Maria de Lourdes Trevisan, diretora da Caravelas e sócia do novo grupo. Antes de se associarem, os dois colégios tinham em comum a atuação no ensino fundamental. O ponto diferencial era que, enquanto a Caravelas oferecia curso de educação infantil, o Oswald possuía salas de ensino médio. Ao se unirem, os dois grupos escolares esperam se complementar, aproveitando a sinergia existente. "Uma união como essa significa reduzir custos entre 20% e 30%", justifica Cordaro. O custo menor pode ser visto através do enxugamento de pessoal e do melhor aproveitamento do espaço imobiliário. "O único custo variável é o consumo de água. O restante não muda, já que é possível aumentar o número de alunos de uma sala de aula com o mesmo professor. A energia que se consome é também a mesma, e um orientador de 200 crianças pode perfeitamente orientar 300", calcula Cordaro, lembrando que, isolados, os dois colégios possuem espaços ociosos em suas instalações. O número de funcionários será equalizado, com cortes no departamento administrativo e redução de professores do ensino fundamental, nível em que as duas instituições atuam. A diretoria do novo colégio optou por manter abertas as três unidades que já possuem e redistribuir os cerca de 900 alunos conforme o grau de ensino. "Os alunos do ginásio do Caravelas passarão para o edifício do Oswald e os do primário do Oswald para o prédio da Caravelas. Assim, teremos classes mais cheias", explica Maria de Lourdes. A unidade pré-escolar da Caravelas não sofreu alterações. Os agentes envolvidos nesse tipo de transação comercial consideram que o ponto de partida das negociações é a análise da metodologia de ensino e do currículo escolar dos colégios. Esse processo antecede até mesmo os ganhos logísticos e de lucratividade que a transação possa trazer. "Trocamos práticas pedagógicas durante seis meses e, só depois de constatarmos a existência de uma base comum e sólida é que anunciamos a fusão aos pais e começamos a colocá-la em prática administrativamente", diz Maria de Lourdes. "Sem uma compatibilidade de métodos de ensino, a fusão fica inviabilizada", reforça Rita de Cássia Rizzo de Araújo Lima, sócia-diretora da Escola Novo Ângulo-Novo Esquema, também de São Paulo, que resultou da unificação dos colégios com os mesmos nomes em julho deste ano. "Isso garante uma transição tranqüila", assegura. Segundo Rita, a repercussão positiva da fusão trouxe novos alunos para a instituição: "Aumentou a procura de alunos. Após a unificação, nossa estrutura se tornou mais forte. Posso dizer que ficamos mais solidificados em termos pedagógicos e isso representou um aumento de credibilidade junto aos pais". Essa credibilidade e reconhecimento do ganho de força para aprimorar o ensino dos alunos, no entanto, é uma resposta que surge apenas em um segundo momento. No primeiro instante, ao receber a notícia da unificação, nem sempre os pais aceitam a mudança passivamente. "Alguns ficam perplexos durante horas. No calor da recepção da novidade, muitos ficam chateados por considerar que depositaram sua confiança no colégio e não foram retribuídos à altura. Também passam a temer por uma mudança de método de ensino. Mas, depois, ao verem as vantagens do novo grupo solidificado e com maior possibilidade de investir em estrutura, mudam de idéia", diz Cordaro. Outro motivo de apreensão dos pais está relacionado ao bolso. Muitos deles preocupam-se com a relação de a escola expandir-se com um aumento de preço da mensalidade. Tanto no caso do Novo Ângulo-Novo Esquema, como no do Oswald-Caravelas, não houve mudança de valor de mensalidade. Quando as escolas cobravam valores diferentes, as direções optaram por adotar os preços menores. "Os valores das mensalidades dos dois grupos eram muito próximos", explica Maria de Lourdes. O mesmo relata a diretora do Novo Ângulo-Novo Esquema. A boa receptividade dos pais pôde ser aferida no fato de 100% dos alunos terem permanecido nos dois colégios, mesmo com o Oswald ficando a cerca de 10 quilômetros de distância da Caravelas. O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), José Augusto Mattos Lourenço, possui uma visão diferente desse movimento dentro do mercado de educação. Para ele, as fusões anunciadas até o momento são "esporádicas e isoladas". "Temos hoje em São Paulo cinco mil estabelecimentos de ensino privados legalizados. O que ocorre atualmente é um movimento de compra das escolas que não estão bem financeiramente por grupos melhor estruturados em termos econômicos", explica. Lourenço diz ver com bons olhos o processo de depuração do mercado: "Só devem permanecer aqueles que têm qualidade". Mas adverte: "Imagine que eu seja um grupo escolar reconhecidamente sério e de tradição de ensino qualificado. Ao comprar um outro colégio menor, pretendo fazer investimentos, melhorar o conteúdo didático e estrutural. E se a mensalidade do colégio que adquiri for menor do que a do meu, eu a reajusto? E se eu mantiver o preço da mensalidade do colégio adquirido, os pais da outra instituição não vão me cobrar o por quê não cobro menos lá? Caso eu aumente o preço, o pai do aluno do colégio adquirido terá condições e estará disposto a pagar?", questiona. "Uma incorporação pode prejudicar os planos futuros da empresa", sentencia Lourenço. O dirigente do Sieeesp vincula o movimento de aquisições ao fato de nos últimos anos ter ocorrido um crescimento muito grande de escolas particulares no País, não acompanhado pelo crescimento populacional. "Um professor era demitido e utilizava os recursos do seu Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abrir uma escola. Isso foi uma grande ilusão, que provocou uma explosão de novas escolas." Levantamentos realizados pela CNA confirmam esse argumento. Entre 1996 e 2000, o número de colégios particulares do Estado de São Paulo saltou de 2,98 mil para 5,92 mil, um crescimento de 98%. No mesmo período, o número de alunos matriculados nos três primeiros níveis de ensino subiu 5%, totalizando 9,65 milhões de alunos. Desses, 1,34 milhão estudam em escolas particulares, uma alta de 9,43% no período. No entanto, a quantidade per capita de alunos por escolas privadas sofreu a forte retração de 44,79% nesses quatro anos, caindo de 413 alunos por escola, em 1996, para 228 alunos por escola, em 2000. Lourenço aponta a redução do número de filhos por casal como a principal razão deste fenômeno. "A taxa de natalidade da classe média diminuiu. E é exatamente essa faixa da sociedade que mantém a escola particular", justifica. "Na década de 50, a média de filhos por família era acima de seis. Essa média caiu para três, nos anos 70 e, atualmente, está em menos de dois", complementa Cordaro. À luz desses dados, especialistas avaliam que o número de escolas particulares do País será naturalmente reduzido. Porém, um fato importante coloca em questão se realmente o fechamento de escolas privadas será uma saída interessante para o fortalecimento do setor. O esforço do governo federal nos últimos anos em expandir o ensino fundamental vai culminar, num futuro próximo, com um crescimento da ordem de 40% no total de alunos de ensino médio. "As instituições particulares só devem receber 10% deste montante", prevê Cordaro. "Certamente as escolas públicas não conseguirão assumir essa nova gama de alunos. O que propomos são parcerias com prefeituras e estados para que esses alunos sejam repassados aos colégios particulares", defende Lourenço. Portanto, as mesmas escolas que o mercado força ao fechamento, em um futuro próximo, poderão fazer falta. E uma das saídas apontadas para a sobrevivência de muitas delas, que poderão ser estrategicamente importantes, é a via da fusão ou incorporação.
Instituições financeiras e multinacionais começam a atuar no setor de educação O banco Credit Suisse First Boston-Garantia é um exemplo bem claro do recente interesse das instituições financeiras pela área educacional: ele aplicou US$ 25 milhões na criação de uma área chamada Education Group. A atuação do departamento, criado em janeiro deste ano, é voltada para a capitalização de redes de ensino particular. Entre seus vários tipos de negócios, está o de destinar recursos para estimular fusões e incorporações entre escolas. Para isso, o CSFB-Garantia lançou o Fundo Pluris, pelo qual os colégios podem apresentar projetos de expansão. Se aprovados, o banco torna-se sócio minoritário do colégio e passa a contribuir na gestão do negócio. "Não temos intenção de adquirir mais de 50% das escolas e, após finalizada a transação, passamos a atuar de forma ativa, trazendo as tendências e experiências aplicadas no setor nos Estados Unidos", explica Gustavo Soares Borges, analista do Education Group. Por dia, o banco recebe em média duas propostas e, até 27 de setembro, mais de 50 delas já estavam sendo analisadas. "Temos interesse em empresas administradas profissionalmente, com uma postura transparente e com uma escala considerável de alunos. A tendência é de que os grupos com maior profissionalização e mais capitalizados vão concentrar o mercado, aumentando a sua base de alunos", afirma Borges. Para o analista do Education Group, o fortalecimento desses grupos ocorrerá por meio da aquisição das escolas menores e até mesmo seus concorrentes diretos, além da abertura de novas unidades. Já a Xerox do Brasil, com sua recém-criada Divisão Educacional, também está de olho no mercado de educação. Um dos rumos dos US$ 70 milhões aplicados na área da companhia será a criação e o desenvolvimento de materiais didáticos. Investimentos dessa natureza, analisam os especialistas, poderão aproximar metodologias de ensinos de colégios diferentes, o que é um dos pontos mais importantes para ser analisado durante um processo de fusão ou aquisição. Os motivos que levam grandes corporações a apostar no setor de educação ficam mais evidentes quando os números do segmento são analisados. Em 1999, considerando-se todos os níveis de ensino do País, o mercado de educação movimentou cerca de R$ 90 bilhões, dos quais 55,5% (R$ 49,95 bilhões) saíram dos cofres dos governos, enquanto os 44,5% restantes (R$ 40,05 bilhões) entraram em circulação via instituições privadas. De acordo com os cálculos do CSFB-Garantia, o setor movimenta 9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No País, existem mais de 23 mil colégios particulares de ensino fundamental e médio, que contam com 4,5 milhões de alunos matriculados. Diante desses números, fica evidente que este mercado não pode ficar de fora da economia globalizada em que o Brasil está inserido, como também não pode deixar de sofrer as conseqüências e eventuais percalços desta inserção. |
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