No bom debate entre
os candidatos a prefeito de São Paulo, pouco antes do segundo turno
das eleições, Marta Suplicy e Paulo Maluf trocaram gentilezas
durante todo o programa da TV Bandeirantes.
Percebia-se que gostariam
de usar palavras um tanto mais duras, mas havia regras e podia haver crianças
na sala.
Em debate de eleição
anterior, para governador, Marta o chamara de nefasto. "Maluf, você
é nefasto", disse ela com tanta autoridade e naturalidade
que ele se surpreendeu e silenciou. Depois a processou por injúria,
calúnia e difamação. Ganhou em primeira instância.
No debate para a prefeitura, Marta evitou qualificá-lo diretamente,
mas falou em "administrações nefastas", referindo-se
à dele, Maluf, e à do Pitta, o Grande. Por que nefasto?
Nefasto é adjetivo
que significa "de mau agouro, que causa desgraça; agourento,
azarento, infausto; aziado, lutuoso (de luto), trágico, sinistro,
funesto, ominoso, danoso, ruinoso, nocivo, prejudicial". Que precisão.
Por que o Maluf se julgaria nefasto? E por que teria sido nefasto o Pitta?
Monstro de impiedade
- O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,
de José Pedro Machado (Livros Horizonte, Lisboa), registra no verbete
"nefasto", do latim nefastu: "proibido pela lei divina;
mau, perverso; desgraçado, desfavorável, funesto, maldito".
Nefasto tem a ver com "nefas", do latim nefas: "o que é
contrário à vontade divina, às leis religiosas, às
leis da natureza; o que é ímpio, sacrílego, injusto,
criminoso; figuradamente, significa monstro de impiedade, de crueldade,
etc.".
No debate que precedeu
a eleição para a prefeitura, Marta usou outra palavra incomum:
mitômano. E a dirigiu diretamente a Maluf, mas explicou o que significava:
mentiroso contumaz. Quer dizer, mentiroso obstinado, teimoso, tenaz, insistente,
reincidente.
Mitômano ou
mitomaníaco, define o Grande Dicionário Etimológico
Prosódico da Língua Portuguesa, de Silveira Bueno (Saraiva),
é o "que padece de mitomania, da mania de narrações
mentirosas". Belo adjetivo.
Quem é louco?
- E mitomania, o substantivo? É "mania das imaginações
mentirosas, quase sempre engrandecedoras do indivíduo. Tendência
doentia a criar fábulas e acontecimentos extraordinários
em relação ao próprio enfermo. Do grego mythos, mito,
fábula, criação fabulosa, mais mania, loucura",
diz Silveira Bueno.
Com repertório
mais limitado, o dr. Paulo repetiu no debate 17 vezes que dona Marta estava
"faltando com a verdade". Forma indireta, mas não tanto,
de chamá-la de mentirosa.
Nefasto e agora mitômano?
É provável que o Maluf, tenha providenciado mais um processo
contra a adversária assim que descobriu o significado de mitômano.
Mas, a esta altura, ele já deve estar pensando na próxima
candidatura. A qualquer coisa. A vereador, síndico. A última
também não deu. Que peninha.