Desprivatizar
o que é público passou a ser uma tarefa para os que se preocupam
com a cidadania
O Brasil vive hoje
uma situação peculiar. Sem despontar como vítima
ingênua do capital financeiro internacional e sem, ao mesmo tempo,
deixar de ser conduzido pela nossa histórica elite predatória,
o país encontra-se em um impasse: a submissão dos nossos
direitos e deveres a esse mesmo capital financeiro, daqui ou de fora.
Isso vem nos colocando, inclusive, em uma situação contínua
de "pânico", a partir da qual precisamos, o tempo todo,
acompanhar as bolsas de valores, pois, na prática, é nelas
e em função delas que se decide a qualidade de existência
que se tem ou se terá.
Tal condição
nos obriga, ao pensarmos no tipo de sociedade que desejamos - e, mais
ainda, se queremos continuar reféns dessa espécie de "seqüestro
relâmpago" que a exclusivista opção política
pelo capital financeiro produz todos os dias - a revigorar uma antiga
exclamação: "A bolsa ou a vida!". Esse é
o principal impasse: ou a vida humana em suas múltiplas manifestações
ou a Bolsa de Valores em suas variadas expressões. A escolha de
muitos dos dirigentes políticos e das elites vem sendo claríssima:
a opção pela Bolsa, em detrimento da vida.
É por isso
que, em grande parte, vivemos, no momento, de forma não disfarçada,
uma mescla de eventual estelionato estatal marcado profundamente por um
caráter de delinqüência privada. Mais do que discutir
hoje a privatização do Estado (tão ao gosto do neoliberalismo),
temos de encaminhar nossos esforços para exigir a desprivatização
do público.
O que isso significa?
Não cair na armadilha de ficar somente pensando formas adequadas
de privatizar o Estado, pois ele sempre o foi. A privatização
de estatais, por exemplo, apenas dá seqüência agora,
de uma outra maneira, ao que, sem interrupções, aconteceu
na nossa história: nunca o Estado brasileiro foi público.
Portanto, o que estamos vivenciando é apenas uma retransferência
de parcela do setor privado presente no Estado (por ela sempre ocupado)
para ele mesmo, na sua dimensão não-estatal.
Desse ponto de vista,
a questão séria quando se fala em cidadania precisa ser
a desprivatização do público, isto é, tirar
o setor público do controle contundente de uma parte do privado,
exatamente aquela composta pelas elites predatórias. Esse controle
se corporifica e se dissemina pela ação dos três poderes,
especialmente do Executivo e do Legislativo.
Isso aponta para a
necessidade de lidarmos com uma articulação difícil
na nossa nação: a convergência de propósitos
entre as classes sociais, dado que às elites pouco solidárias
somam-se camadas médias acovardadas e narcísicas, em confronto
com um proletariado intensamente acuado pela busca da sobrevivência
no cotidiano (procurando garantir minimamente aquilo que é intenção
de todo ser vivo: manter-se vivo).
Por isso, hoje, a
maior violência contra a cidadania é envergonhar cotidianamente
o cidadão desprivilegiado, fazendo-o imaginar que aquilo que é
um direito dele é algo que está sendo oferecido como dádiva.
É aceitar que o engodo ao qual ele é submetido no dia-a-dia
seja algo que faz parte da organização da vida e nada pode
fazer. É imaginar que a Bolsa seja maior que a vida.