Projeto
envolve escolas públicas e particulares de São Paulo na
busca por um novo olhar sobre a cidade
Marta Salui, 17, nasceu
em Milão, na Itália. Há quatro anos desembarcou em
São Paulo com o pai, transferido pela empresa onde trabalha. Matriculou-se
na escola bilíngüe Eugenio Montale, que segue o modelo italiano
ao qual já estava habituada. Como tanto a escola quanto sua casa
localiza-se no Morumbi, bairro de classe média alta da cidade,
sua vida resume-se, praticamente, a esses dois espaços. "A
escola tem um ritmo puxado e não dá para fazer muita coisa.
Quando muito, saio para lugares próximos, como as casas de minhas
amigas e o shopping", conta.
A falta de deslocamento
pela cidade começou a ser amenizada quando, por iniciativa dos
próprios alunos de sua classe, surgiu o grupo Cuore, que há
três anos arrecada donativos e cria campanhas institucionais para
entidades beneficentes. Entre elas estão o Grupo de Apoio aos Adolescentes
e às Crianças com Câncer (Graacc), o Centro Juvenil
João Bosco e o Exército da Salvação. Apesar
de demonstrarem uma postura socialmente responsável, Marta e suas
amigas são reticentes ao serem questionadas sobre como poderiam
participar da melhoria do espaço urbano da cidade. "Todos
nós somos responsáveis", arrisca-se Marta.
A urbanista e professora-doutora
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Regina Meyer, acredita
que a pouca consciência de nossa participação no espaço
é reflexo do que chama "crise da vida pública".
Segundo Regina, a vida pública entrou em decadência quando
os cidadãos deixaram de ver a cidade como um produto do coletivo
e começaram a acreditar que nossa relação com ela
é apenas acidental. "A cidade não é reflexo
da sociedade, ela é expressão. Se o espaço público
está abandonado, a causa é a falta de vida pública
e de compromisso social com esse espaço", afirmou a professora
durante o 1º Congresso Internacional de Educação Mostrar
a Cidade, realizado nos dias 5 e 6 de outubro, em São Paulo.
O evento faz parte
do Projeto Mostrar a Cidade, estruturado há um ano a partir de
uma parceria entre oito escolas "biculturais" de São
Paulo: Escola Maria Imaculada-Chapel (americana), Escola Graduada-Graded
(americana), St. Paul's School (inglesa), Escola Eugenio Montale (italiana),
Colégio Sidarta (chinês), Colégio Humboldt (alemão),
Colégio Brasil-Canadá e Colégio Miguel de Cervantes
(espanhol). "A idéia do projeto surgiu depois de constatarmos
que os alunos precisavam de um vínculo maior com a cidade. Muitos
dos estudantes matriculados nessas escolas transitam apenas entre lugares
privados", conta Antônio Abello, coordenador do projeto.
Segundo Abello, a
primeira etapa, que culminou no congresso, procurou mostrar experiências
que podem ser aplicadas dentro das escolas para aproximar os alunos da
realidade da cidade. Para isso, o projeto contou com a colaboração
das secretarias Municipal e Estadual de Educação de São
Paulo, sobretudo na divulgação do projeto nas escolas públicas,
também convidadas para apresentar suas realizações.
"A idéia
é que escolas públicas e privadas troquem tanto experiências
pedagógicas quanto sociais. Essa é a nossa principal meta
para a segunda etapa do projeto", explica Abello. Além das
propostas, o evento contou com o debate de especialistas em urbanização,
geografia e educação, que discutiram como reverter a "crise
da vida pública", colocada por Regina Meyer na abertura do
evento.
Heinz Heidermann,
professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da USP, apontou que o crescimento demográfico
exponencial das migrações e imigrações fez
grande parte da população não ter qualquer vínculo
com a história da cidade. "Essa falta de referência
histórica reflete-se na preservação pública,
na participação dos habitantes, nas decisões sobre
o espaço e no convívio comunitário", argumentou.
Para mudar esse quadro,
a educadora argentina Silvia Susana Alderoqui, especialista em Didática
das Ciências Sociais da Secretaria de Educação de
Buenos Aires, propõe que a discussão de identidade social
seja debatida dentro da escola como tema transversal, de forma interdisciplinar.
Silvia também salientou que existe um abismo entre o discurso pedagógico
e a prática fora da escola. "Muitas das boas intenções
presentes na escola, como reciclagem e proteção ambiental,
acabam interrompidas pela falta de políticas públicas sobre
o assunto", criticou.
Uma experiência
positiva, no sentido interdisciplinar, foi apresentada no congresso por
Mara Renata Bálsamo, chefe do Departamento de Artes do Colégio
Miguel de Cervantes. Ao levar seus alunos do ensino fundamental em visita
a museus, a educadora faz questão de utilizar uma rota que os permite
conhecer pontos importantes da cidade, onde discutem arte e cidadania.
"Antes do passeio, faço um trajeto até o museu que
visitaremos e escolho o caminho", disse. O trabalho é complementado
pela participação de professores de outras áreas,
como história e geografia, na discussão.
Apesar das boas experiências
divulgadas durante o evento, ficou bastante nítida a distância
entre a realidade paulistana (e brasileira) e as práticas adotadas
na cidade de Barcelona, na Espanha, onde cada bairro possui seu próprio
conselho mantenedor. De acordo com Santiago Quesada, geógrafo e
professor de história da Universidade de Barcelona, os conselhos,
apesar de ligados à prefeitura, são autônomos financeiramente
e apoiados por sindicatos, organizações culturais e universidades.
Além de coordenar
intervenções no bairro, cada conselho é responsável
pela elaboração de materiais didáticos distribuídos
a escolas da região. "Desde pequenas, as crianças obtêm
informações sobre o seu meio. Assim, elas podem entender
sua realidade e trabalhar a percepção do regional pensando
no global", contou.
As ações
discutidas durante o evento servirão de base para desenvolver os
trabalhos do Projeto Mostrar a Cidade. "São experiências
que mostram ao professor como se pode trabalhar as questões da
cidade, e ainda fomentar a discussão para que se tornem políticas
públicas", afirmou Antônio Abello.