Presidente
da Fiesp procura mobilizar empresariado paulista para expandir a atuação
no combate ao analfabetismo
À frente da
poderosa Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp) desde 1998, Horácio Lafer Piva é elogiado
e criticado por seus aliados e adversários pelos mesmos motivos.
A aprovação parte do trabalho de reestruturação
organizacional e administrativa da entidade, que deixou de ser deficitária
em suas mãos. A censura incorre da ausência em seu mandato
de pressões políticas sobre os poderes Executivo e Legislativo.
Essa propensão
maior para o trabalho do que para o lobby foi demonstrada pelo dirigente
à Educação em entrevista realizada no seu escritório,
instalado no prédio situado ao número 1.313 da avenida Paulista,
um dos símbolos de ostentação econômica do
Estado de São Paulo. No encontro, Piva manifestou suas preocupações
para a ampliação quantitativa e qualitativa de ensino no
país, falou dos projetos futuros da entidade e, no seu melhor estilo,
evitou criticar o governo.
Educação
- O que os empresários têm realizado para melhorar a educação
no país?
Horácio Lafer Piva - O tema educação entrou
na agenda do empresariado nacional nos últimos anos. A questão
acabava tendo uma posição periférica: parte da nossa
visão viciada talvez tenha nascido porque considerávamos
essa matéria de responsabilidade do Estado e, por isso, nós
deveríamos cobrar dele uma melhor efetividade, sem abraçar
a causa. Nos últimos anos, ficou claro que a coisa não é
por aí e passamos a ter preocupações dentro de todo
um espectro, desde a preocupação social até o pragmatismo
de termos uma mão-de-obra cada vez mais multifuncional para a indústria.
No futuro, a grande diferença estará em quem tem um alto
nível de educação e quem não tem. Na verdade,
educação e tecnologia são os grandes eixos de diferenciação
das economias desenvolvidas. O Banco Mundial diz que a cada ano de crescimento
no nível médio de educação há um aumento
de 4% no nível de produtividade.
Educação
- E no salário também.
Piva -
Sim. Calcula-se que no Brasil a baixa qualificação provoca
uma queda em torno de 20% de competitividade. Se fizermos a curva de salário
vis-à-vis dos anos de educação, perceberemos como
elas são absolutamente aderentes.
Educação
- Há ainda a disputa dentro do Mercosul.
Piva -
A gente percebe que Argentina, Paraguai, Chile e Uruguai já contam
hoje com uma força de trabalho com muito mais educação
do que nós. Eles trabalham com algo entre seis e oito anos de escolaridade
média, enquanto o Brasil deve estar entre quatro e cinco anos.
É uma diferença enorme. O Chile ainda tem um compromisso
de que pelo menos 20% da população economicamente ativa
tenha educação permanente. O Brasil entra nessa guerra de
competição com um exército muito mal preparado do
ponto de vista educacional.
Educação
- A urgência pedida pelos empresários está, portanto,
ligada à queda de produtividade e ao futuro que nos aguarda pelo
o que os outros países têm feito?
Piva -
São as duas questões, acrescidas ao fato de que nós
vivemos hoje uma situação de iniqüidade social. Nós
paramos na rua, vemos um garoto e sabemos a diferença que faria
se ele estivesse na escola. Somos assaltados no sinal e sabemos que a
culpa não é do garoto e de seus pais, mas da sociedade,
da elite que de alguma forma não soube cuidar desse garoto. A culpa
é nossa.
Educação
- E o que fazer?
Piva -
Estamos convencidos de que se não conseguirmos acelerar a educação,
se não houver reciclagem e reconversão profissional, não
haverá sindicato que convença os empresários a contratar
mão-de-obra despreparada. Começamos a incorporar tecnologia,
o país abriu suas fronteiras e, com isso, percebemos o que significa
a educação incorporada aos produtos. Além disso,
vivemos em um processo de globalização e é fato que
o mundo cada vez mais se entende por meio de acordos, blocos e alianças
estratégicas. Não basta o empresariado brasileiro ser criativo:
ele tem de ser tão competente do ponto de vista de gestão
quanto um empresário europeu, norte-americano e asiático.
Vale o mesmo para o trabalhador: ele tem de ser tão multifuncional,
especialista e capaz de absorver informação quanto o seu
concorrente de outros países. Essa é uma forma, inclusive,
de no futuro conversarmos sobre mobilidade de mão-de-obra.
Educação
- O que discute-se na própria Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) é sobre comércio e quase nada
sobre trânsito de pessoas, como aconteceu na União Européia.
Piva - A
Alca começa em 2005, está na esquina. Já discutiu-se
em Buenos Aires que a mão-de-obra não pode virar uma barreira
não tarifária. Quanto mais educado você tiver o trabalhador,
ele terá maior capacidade de mobilidade. O que acontece hoje é
que temos um trabalhador que pensa ser especializado em metalurgia em
São Bernardo do Campo (SP) e que não pode ir para outro
lugar porque lá se faz sapato e em outro canto se faz eletrônicos.
E o sujeito, na verdade, não é especialista, mas uma pessoa
que só sabe fazer aquilo, um bitolado. Com educação,
esse pessoal vai poder especializar-se e terá capacidade de adaptação.
Educação
- Esse raciocínio, porém, tem duas perversidades. Primeiro
porque prioriza uma educação só para o trabalho,
sem a formação humanística. O segundo é que
esse investimento na infância deixa à margem 60 milhões
de brasileiros, segundo números do Seade.
Piva -
Por que?
Educação
- São os adultos, que não recebem investimentos do governo
federal e são pouco vistos, como os analfabetos de 20 ou 30 anos
de idade.
Piva -
Eu acho que no primeiro caso você tem razão e no segundo
menos. Eu tenho a impressão de que hoje já se começa
a prestar muito mais atenção nesse analfabetismo funcional.
Há programas que estão trabalhando nisso, como o próprio
Comunidade Solidária.
Educação
- Mas são apenas 700 mil, em um universo de 60 milhões.
Piva -
Talvez tenhamos um programa muito aquém daquilo que seja necessário,
mas não sei se esse assunto está sendo desconsiderado. A
prioridade é a criança e, depois, o adulto. Do ponto de
vista da indústria nós temos uma preocupação
enorme com esse segmento de pessoas, porque esses são os que trabalham
na empresa hoje.
Educação
- O analfabetismo no chão de fábrica tem sido zerado?
Piva -
Sem dúvida. Então nosso foco, do ponto de vista não
social, está muito mais nesse pessoal do que na criança,
que é o lado social. Sobre a educação humanística,
acho fundamental. Em um primeiro momento, tivemos de atacar a educação
de qualquer maneira, tanto que hoje reclama-se da baixa qualidade do ensino.
Mas o fato é que se começou a fazer uma ação
mais efetiva e os problemas estão mais transparentes, pois sabemos
qual é o diagnóstico. Tivemos esse primeiro arranque para
poder incorporar o assunto na sociedade e, agora, tão importante
quanto isso será começar a discutir a qualidade da educação.
Se tratarmos apenas da educação para o trabalho vamos construir
uma sociedade de robôs. Perderemos o que o Brasil tem de melhor,
que é essa capacidade criativa, o sincretismo religioso, o folclore
único, o espírito tropical em toda a sua dimensão,
que envolve simpatia e relacionamento.
Educação
- A Fiesp faz algum tipo de acompanhamento dos programas que os empresários
implementam?
Piva -
Não estamos nessa fase de fazer o julgamento se os programas são
adequados, até porque não nos julgamos capazes disso. Pela
primeira vez, no ano passado, fizemos uma convenção na Fiesp
para que todas as diretorias apresentassem seus projetos sociais. Nosso
objetivo foi o de criar uma contaminação positiva de todas
as outras diretorias que, por acaso, não tivessem envolvidas em
algo parecido. Apareceram naquela oportunidade alguns programas de educação
e outros municípios abraçaram esses projetos. Esse foi o
primeiro passo.
Educação
- E qual foi o segundo?
Piva -
No Núcleo de Ação Social (NAS), instalado há
quase dois anos, contratamos uma profissional para o setor. O núcleo
social está estudando agora de que jeito vamos trabalhar. Se o
que nós deveríamos fazer é contratar um grupo de
especialistas para orientar esse pessoal da Fiesp que já tem trabalhos;
se devemos continuar os instigando e induzindo a fazer trabalhos; ou se
o nosso objetivo é abraçar causas que já estão
aí no mercado e apoiá-las financeiramente.
Educação
- E as discussões avançam?
Piva -
O tema está mais fluido. Eu costumo dizer que o assunto que mais
sacode nossa rapaziada na Fiesp é a educação. Mais
do que saúde e segurança, inclusive. E olha que segurança
é um problema de todo dia, pois sempre tem alguém que trabalha
aqui e foi assaltado. Eu percebo, em nossas diretorias, no interior do
Estado, que a maior parte dos seus programas envolvem educação.
As conversas mais instigantes que tenho tido aqui são sobre esse
tema. O Cristóvam Buarque (ex-governador do Distrito Federal),
por exemplo, veio aqui discutir o bolsa-escola e conversar sobre o que
nós poderíamos fazer juntos.
Educação
- Vocês chegaram a algum acordo com o Cristóvam?
Piva -
Não, porque ainda não era o momento de chegar a uma conclusão.
Nós temos consciência de que o programa bolsa-escola tem
um recurso ainda muito aquém do necessário. Obviamente que
o Cristóvam está procurando complementar esse recurso, pois
sabe que isso não pode sair da administração pública.
Estamos falando de algo entre R$ 700 milhões e R$ 800 milhões.
A dúvida é saber se vale a pena buscarmos na sociedade esse
recurso ou se testamos o valor que ele sugere como ideal, que é
de meio salário mínimo por criança, fazendo uma experiência
piloto em um determinado município carente para avaliarmos o retorno.
Porque esse programa bolsa-escola não é só de educação,
mas também de complementação de renda. É um
programa que tem uma dimensão social muito maior, mexe com a auto-estima
da mãe, com a alimentação da família, com
a educação da criança.
Educação
- Há como mensurar quanto está sendo investido?
Piva -
Impossível. Eu adoraria saber. Nós queremos criar aqui um
banco de dados de projetos com experiências bem e malsucedidas,
e dos valores envolvidos. Estamos até estudando se esse não
seria um papel do NAS, um grande banco de dados na Fiesp sobre as experiências
implementadas no segmento industrial.
Educação
- Que experiências a Fiesp pôde acompanhar ou apoiar na área
de educação recentemente?
Piva -
Nós temos um envolvimento muito grande com o Telecurso 2000 e somos
apoiadores do Canal Futura. No caso do Futura, consideramos uma experiência
muito interessante que levou algum tempo para encontrar o seu ponto ótimo.
Ainda não chegou lá, mas está perto. Com o Telecurso
2000 há uma mobilidade fantástica porque o programa chega
às fábricas, escolas, igrejas, ou qualquer canto do Brasil.
É uma experiência muito rica, nem tanto pelos resultados,
mas na percepção do que significa a televisão e que
meio extraordinário é esse para levar a educação
em um país com as dimensões do Brasil. É claro que
nada substitui a educação presencial, mas nós precisamos
fazer educação em massa no Brasil. Nós ainda temos
um grau de analfabetismo e de fragilidades muito grande.
Educação
- Temos de ter pressa.
Piva -
Levar para o governo o sentido de urgência dessa questão
da educação e a necessidade, inclusive, de aumentar o orçamento
da área, que deve ser de algo em torno de R$ 50 bilhões,
mas fala-se que seria necessário alguma coisa na casa de R$ 70
bilhões. Fazer essa pressão com o Executivo e o Legislativo
é uma ação legítima.