O ator britânico
Hugh Grant pagou quase US$ 3 milhões em uma casa, no bairro londrino
de Chelsea, que fica na esquina da rua onde mora sua ex-noiva, a modelo
Liz Hurley." É o que publicou um jornal brasiliano, não
importa qual. Sim, o ator pagou US$ 3 milhões em uma casa.
Pagar algo em qualquer
coisa é regência corrompida que está invadindo a pobre
língua estuprada. Lê-se e ouve-se a todo momento que a vítima
pode pagar qualquer coisa no cartão. "Leve já e pague
no cartão em setenta e duas vezes com módicos juros de 18%
ao mês." Essa construção estranha, que atropela
a regência do verbo pagar, é produto da perturbação
de cucas fundidas. Ouve-se gente do povão dizer: "Paguei 2
milhão na caranga." A criatura tenta dizer que pagou R$ 2
mil por uma reluzente Brasília amarela.
É claro que
o ator britânico, apanhado em alegre brincadeira com uma profissional
do amor na caranga legal nos EUA, pagou US$ 3 milhões por uma casa.
Assim como quem utiliza o cartão de crédito paga com o cartão.
Enfim, paga-se a conta
ao mercado com o cartão, paga-se a consulta ao médico, pagam-se
as mensalidades ao colégio, paga-se alegremente a CPMF ao governo,
que aplica os recursos para melhorar o sistema de saúde; com a
mesma incontida alegria, paga-se o Imposto de Renda ao governo, que tão
bom uso faz da nossa bufunfa.
Pagar ou não
pagar? - Paguei-lhe a dívida sem tristeza. Paguei a dívida
a ele. Pagar a alguém, pagar-lhe, é a regência preferível
na linguagem escrita formal, a linguagem dos concursos, dos jornais e
das revistas bem-escritos. Isto é, pagar como transitivo indireto
de pessoa, com preposição ou o pronome lhe no lugar do complemento
preposicionado, e objeto direto de coisa.
"O emissário
daquele governo asiático pagou milhões de dólares
aos congressistas para que aprovassem seu edificante projeto de reeleição."
"Ele teve de
pagar a propina ao fiscal." (No mesmo país asiático.)
Mas, na linguagem
do dia-a-dia, e até em alguns textos descontraídos, é
muito comum a sintaxe "pagar alguém, pagá-lo".
Quer dizer, pagar usado como transitivo direto, sem preposição:
paguei o médico, paguei o mercado, paguei-o ontem. Como o povo
manda e faz a língua, é provável que essa sintaxe
venha a incorporar-se ao padrão numa boa.
Convém reafirmar,
no entanto: na linguagem formal, paga-se a dívida a alguém,
pagar-lhe a dívida. Pagar a consulta ao médico, pagar a
conta ao mercado, paguei-lhe (a prestação) ontem.
É claro que
pagar pode ser usado sem restrições na linguagem formal
como transitivo direto, isto é, sem preposição, quando
o objeto indireto está implícito ou oculto.
"O governo paga
corretamente a dívida social."
(Paga aos desvalidos.)
"Ela pagou o
salário."
(Pagou ao empregado.)
Pode ser também
intransitivo, isto é, sem complemento.
"Viu a luta sem pagar."
"Agora o Lalau,
o Maluf e o Jader vão pagar o que são acusados de embolsar."
Vão, sim, se vão.
Josué Machado
é jornalista e autor do livro Manual da Falta de Estilo (Ed. Best
Sellers)