Conhecimento
não é acúmulo de informação: deixemos
nossas crianças se divertirem com o aprendizado
O mundo está
mudando. A rapidez das alterações é tão inédita
que, por exemplo, o aluno que entrou este ano na primeira série
do ensino fundamental, antes mesmo de botar o pezinho para ser alfabetizado
por nós na escola, antes de ter contato conosco, educadores e educadoras,
já tinha assistido a 5 mil horas de televisão.
Calcula-se que uma
criança assista, em média, três horas de TV por dia
(mil horas por ano), a partir dos 2 anos de idade. Portanto, dos 2 aos
7 anos, quando ela entra no ensino fundamental, já assistiu Discovery
Channel, National Geographic, filme pornográfico, novela, bombardeio
dos prédios de Nova York, desenhos animados, enfim, ela já
assistiu muita coisa. E é assim que ela chega na escola, senta
no primeiro dia de aula e fica esperando. E nós, quantas vezes,
começamos a aula dizendo: "A pata nada."
Não se confunda
conhecimento com informação. Conhecimento é seletivo,
informação é cumulativa. A nossa escola, de maneira
geral, nos passou fortemente a idéia de que informação
era conhecimento. E não é. Por isso uma das tarefas fundamentais
da família e da escola é ajudar as crianças e jovens
a desenvolverem critérios de seleção, em vez de soterrá-los
com informações.
Velocidade, movimento,
correria. As crianças também são induzidas a viverem
turbinadas. A cada dia se tem menos tempo, levanta-se mais cedo e vai-se
deitar mais tarde. E vai-se deitar com débito, achando que deveria
estar acordado ainda, fazendo coisas. A ciência nos prometeu, há
cem anos, no início do século XX que, quanto mais tecnologia,
mais tempo livre e nós estamos em uma explosão tecnológica,
quase sem tempo nenhum.
Hoje há crianças
de 7 anos que não têm tempo para nada. Elas têm agenda
de executivo - já estão neuróticas. Não podem
ficar paradas, brincando: a família tem de preencher o tempo dela
com tarefas, a escola também tem de dar tarefas. Tem escola, inclusive,
que enche a criança de tarefa na sexta-feira, para trazer na segunda-feira.
É um crime contra a infância.
Sabe o que faz o aluno?
Passa o final de semana preocupado com aquilo, não faz, vai fazer
somente no domingo à noite depois que está cansado, quase
dormindo em cima do caderno e vai criar raiva em relação
ao nosso trabalho. Nós dizemos assim: "Ah, mas é preciso."
É preciso ou será que é questão de planejamento?
Nenhum de nós, professor ou professora, gosta de levar trabalho
para casa, por que o aluno gostaria? Nós temos de levar trabalho
para corrigir, planejamento, mas se pudéssemos, não levaríamos.
Quem confunde os conceitos,
sufoca os alunos com informação, achando que eles precisam
saber tudo o que está programado e, como nunca dá tempo
de cumprir o programa, eles, discentes não sentem prazer com aquilo
que fazem e ficam o tempo todo atarefados com tantas lições.
E a família até acha que isso é um sinal de escola
boa. Existe algum erro de planejamento da escola ou da família
quando a criança não tem tempo para brincar. Criança
tem de brincar. É assim que também se aprende. A pata brinca,
além de nadar.